Acabo de consultar a previsão do tempo. os próximos dias serão lindos, esplendorosos, céu com poucas nuvens, ventos de nordeste variando entre 10 e 13 km/h, temperaturas entre 7 e 29 graus centígrados.
Ou seja, pior impossível.
Sem nuvens, sem chuvas.
O sol direto sobre as plantas e os animais e o solo.
E o vento arrastando, chupando, secando a pouca umidade que ainda resta.
Eu deveria ter plantado e formado quebra-ventos. Sim, eu deveria.
Eu deveria ter uma boa área com cana já formada e no ponto de corte. Sim, eu deveria.
Sim , eu deveria ter feito tantas coisas.
-x-x-x-x-x-x-x-x-
Essa previsão que consultei, via net, claro, traz um dado novo e muito interessante: o índice de raios ultravioleta. Com céu azul e sol à vontade, o índice para Santa Rita do Passa Quatro é alto – 8. Portanto, é recomendável o uso de protetor solar, não ficar exposto ao sol entre meio-dia e duas da tarde e não deixar de usar camisa e boné.
Daqui a pouco teremos de fazer um curso de nível superior ou acima, simplesmente para viver.
-x-x-x-x-x-x-x-
Um pouco mais sobre o IUV:
O cálculo é feito a partir da concentração de Ozônio, estação do ano e características geográficas, como altitude e tipo de solo.O IUV é uma medida de intensidade da radiação Ultravioleta relacionado com os efeitos sobre a pele humana.
Classificação do IUV
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o IUV é classificado conforme sua intensidade e a tempo de exposição ao sol, de acordo com a tabela:
Índice Ultravioleta Baixo - até 2 - Você pode permanecer no sol o tempo que você quiser!
Moderado - entre 3 e 5 - Em horários próximos ao meio-dia procure locais sombreados. Procure usar camisa e boné. Use o protetor solar.
Alto - entre 6 e 7 - A mesma recomendação anterior.
Muito Alto - 8 a 10 - Evite o sol ao meio-dia. Permaneça na sombra. Use camisa, boné e protetor solar.
Extremo - acima de 11 - A mesma recomendação anterior.
O Efeito da Nebulosidade
O valor calculado refere-se a uma condição de céu claro, sem a presença de nuvens. Com nebulosidade, a radiação é atenuada, e o IUV assume valores menores.
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Um Olhar Crônico sobre os dias de hoje e alguns de ontem. Um Olhar Crônico sobre a vida nas cidades, a vida na megalópole, a vida na roça, quando é dura, e no campo, quando é lírica. Textos, Idéias & Coisas diversas, aquelas que passam pela cabeça e a gente acaba registrando, sabe-se lá pra que ou mesmo porquê.
quinta-feira, maio 12, 2005
terça-feira, maio 10, 2005
Irrelevante
Em Moscou, cerca de 50 chefes de estado de todo o mundo reúnem-se para comemorar o fim da II Guerra e a vitória das forças democráticas sobre o nazi-fascismo.
Dentre os chefes de estado lá presentes não está o do Brasil, nação que enviou razoável contingente para os campos de batalha da Itália, na Frente Sul, onde algumas centenas de brasileiros perderam suas vidas em combates pela liberdade. Independente de sua participação ativa na luta armada, esse país foi um grande participante do esforço de guerra aliado, produzindo alimentos e matérias-primas para as tropas e industrias americanas e européias. O Brasil é o grande ausente dessa comemoração.
É e não é.
É, ao mínimo pela memória dos que morreram.
Não é pela nossa irrelevância política, pela nossa visão imbecilizada do mundo e das relações entre as nações.
Não, imbecilizada é um termo forte, melhor trocá-lo.
Não é pela nossa irrelevância política, pela nossa visão infantilizada do mundo e das relações entre as nações. Nossos atuais dirigentes, antes de imbecis são infantis. Os atuais detentores do poder, eleitos democraticamente, graças, talvez, quem o sabe? - à derrota do nazi-fascismo em 1945, preferem ficar por aqui, brincando de ser potência e se reunindo com irrelevantes dirigentes latinoamericanos e árabes. Vale dizer que, de Latino América, 4 presidentes não vieram. E do mundo árabe, meia dúzia tampouco, justamente os mais importantes, ou, pior ainda, justamente os únicos importantes. O presidente dessa coisa toda deixou de usar seu brinquedo voador para uma das poucas viagens realmente importantes que deveria fazer durante seu triste mandato. Tudo irrelevante.
Eu confesso que já acreditei nesse país.
Eu confesso que, até tempos recentes, duvidava desse país.
Eu confesso que hoje eu simplesmente desacredito desse país.
Esse governo é tão canhestro, tão desprovido de um mínimo de capacidade executiva, tão desprovido até de um mínimo senso de ridículo, que simplesmente dá-se ao luxo de paralisar a vida na capital federal por ser incapaz de organizar o trânsito num dia de reuniões insignificantes com e entre insignificantes delegações estrangeiras. E isto numa cidade como Brasília com suas características próprias, em tudo diferente de um centro real, como São Paulo ou mesmo o Rio de Janeiro.
Que vergonha...
2006 está longe demais para o meu gosto.
2006, desde já, me apavora.
Tenho medo do inimaginável.
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sábado, maio 07, 2005
Estróbilo

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Esse é o popular estróbilo. Pesa de 1 a 5 kg, com 2 kg na média. Cada um tem mais de cem pinhões. Pra "quebrá-lo", só com o auxílio de um machado. Ou os bicos das maritacas e gralhas.
Só dá nas árvores fêmeas, cujas flores foram fecundadas pelo pólen das flores das árvores masculinas, que nada dão.
Entre abril e junho não é recomendável ficar embaixo da copa de uma araucária fêmea. Nesse ponto, e na forma de coleta, e um pouco até na arrogância elegante e bonita com que se sobrepõem às outras árvores da floresta, ela se parece com a castanha-do-pará, ou, como é mais correto hoje em dia, castannha-do-brasil.
Barraca de pinhão

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Essa é a estrada que liga Guarapuava a Londrina. Pavorosa. Nesse trechinho ela é "maravilhosa". O que ela tem de ruim e perigosa, tem de bonita. Ainda dá pra ver algumas boas matas de araucárias nessa região, município de Turvo.
A rapaziada aí vai pro meio da mata e coleta os pinhões, pegando-os, já caídos, do chão.
O caldeirão preto ao fundo tem pinhões cozidos, bem gostosos. E o calor do fogo dá uma animada no pessoal.
Os pinhões caem em grandes cones, cada um com mais de cem unidades, chamados estróbilos.
Bagres gordos

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... e aí estão eles, centenas e centenas de bagrinhos comendo farelo de soja com 48% de proteína bruta. Engordando e ficando roliços. Falo com conhecimento de causa, pois logo depois dessa foto, em outro local do píer, peguei um no anzol. E não é conversa de pescador.
"Sweet Lady"

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Bonitão, né?
Nesse momento, a carga ainda não chegou à metade. Pouco mais de 20.000 toneladas tinham sido embarcadas, faltando ainda umas 30.000. Pra festa dos bagrinhos...
Bucolismo no porto

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Bucolismo puro. Nem dá pra imaginar que às costas do fotógrafo está o burburinho e o movimento do porto de Paranaguá.
Aqui, só os elementos básicos de sempre.
Bucólico tem mais a ver com campo, né? Mas casa bem com mar e céu e montanhas e matas e o canoão de madeira.
Montanha coberta...

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Pouco depois de sair de Paranaguá, à esquerda, a montanha se ergue no começo da Serra do Mar. Parei e fotografei porquê ao vê-la assim, com esse chapéu de nuvem, lembrei-me das mulheres da corte inglesa.
terça-feira, maio 03, 2005
...
Mais uma viagem daqui a pouco. De volta para o Paraná. Curitiba, Paranaguá, Guarapuava, Londrina. Avião e carro, paisagens e pessoas, porto, fábricas, armazéns e fazendas. O que antes fascinava, hoje nem tanto. Raras vezes me entusiasmo com o sair, quando até a poucos anos era o contrário, rigorosamente. E ficar muito tempo por aqui, algo como 20 a 30 dias seguidos, incomodava, dava comichões fortes, uma vontade louca de ganhar o mundo.
Acho que meu mundo sofreu dois movimentos simultâneos e antagônicos. Diminuiu, com certeza. Não tenho mais a ânsia de ver o novo, procurar novas paisagens, ver e ouvir pessoas diferentes. Satisfaço-me com o meu mundinho habitual. Que é grande, sinto que ele aumentou nesses anos. Claro está que o sitio é parte fundamental desse movimento. Por menor que seja, um sítio é todo um mundo em constante transformação, exigindo ações, reflexões, observações. Acho que meu mundo interior aumentou, também, mas sobre isso já não estou tão certo. Há diferenças entre crescer e inchar. Seja como for, ultimamente ando mais querendo ficar do que sair.
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segunda-feira, maio 02, 2005
Noite linda... Dia feio... E vice-versa
O dia foi corrido. A ausência aumenta a lista de coisas a fazer e diminui o tempo para fazer todas as coisas. Pior: elimina o tempo do fazer nada, o tempo de olhar as coisas, olhar as vacas, as bezerras, as plantas, as cercas, as árvores, o céu, as estrelas.
As estrelas... Não queria ver estrelas hoje. Queria uma noite escura, nuvens negras cobrindo o céu de ponta a ponta, relâmpagos cortando o horizonte, chuva caindo de preferência miúda e prolongada, mas qualquer jeito, qualquer tipo de chuva seria mais que bem-vindo. Saudades de ouvir o vento que antecede as primeiras gotas passando pelas árvores, fazendo um barulhão danado, alvoroçando a galinhada que dorme encarapitada nos galhos mais altos de algumas árvores perto de casa. Ruim para elas, claro, mas paciência. Todavia, nada disso vejo, sinto, ouço. A noite está calma. Mesmo sem lua, em poucos minutos os olhos se acostumam com a luz pouca e difusa das estrelas. E como tem estrelas nessa noite! A Via Láctea cobre tudo. Tantas são elas que demoro um pouco para achar o Cruzeiro do Sul. Norte, oeste, leste e sul, o horizonte é igual, céu estrelado.
As vacas ruminam em paz. Deitadas, tranqüilas, pensando em nada como de hábito, penso eu, que penso em tudo mas deveria pensar um pouco em nada, tal como elas. As bezerras estão igualmente quietinhas, umas já dormindo profundamente, outras olhando com curiosidade minha andança sossegada. O Brioso não gosta do curral. Como bom cavalo já está no meio do piquete, pastando um pouco, parando um pouco. É uma noite de poucos ruídos, é uma noite de outono, querendo passar de fresca para fria. A bicharada é pouca, o que é bom. Mas, mesmo assim, vários besouros rola-bosta, pretos, do tamanho de uma azeitona média para grande, estão nas varandas. Recolho vários deles num vidro, vou até o bezerreiro e jogo-os no capim. O pessoal não recolheu todo o esterco dos bezerros, então esses rola-bostas farão uma parte do serviço para eles. E muito melhor, diga-se de passagem. Assim que chegam ao chão caminham um pouco, encontram um lugar apetecível, e escavam. Como são velozes no escavar esses besouros! Em segundos, menos de um minuto, já desaparecem. Dentro em pouco voltarão à superfície e vão procurar pela bosta das vacas, no caso, aqui, dos bezerros. Farão bolotas maiores que eles, até, e vão empurra-las para o fundo dos buracos escavados. Ali botarão seus ovos. As larvas, quando nascerem, irão se alimentar com o esterco. Ovos e larvas de moscas e vermes serão destruídos, colaborando com o controle desses parasitas. Nutrientes diversos entrarão no solo em profundidades variáveis, realimentando o eterno ciclo de nutrientes na natureza. Por isso mesmo, em certas noites, chego a fazer muitas viagens varandas/pasto ou bezerreiro, salvando os besouros do apetite insaciável dos sapos que fazem ponto, devem até marcar cartão, em nossas varandas. Qualquer dia são capazes de me processar, exigindo direitos trabalhistas. Ou pior, como a posse da terra para eles.
A última tarefa da noite é fechar a porteira. Mero ritual, pois, aberta ou fechada nada impede a entrada de quem não queremos. Mas rituais existem para serem cumpridos. E lá vou eu. Dispenso a lanterna por desnecessária, o brilho das estrelas é suficiente para caminhar. Não há sombras, como em noite de lua cheia, apenas vultos. Alguns, inconscientemente, me assustam. Foi dessa forma, com certeza, que muitas lendas e mitos nasceram em tempos remotos. Somos animais diurnos, a escuridão nos assusta. Associamo-la ao medo, ao desconhecido, ao terror. A maioria dos outros animais associam-na à comida, à busca de alimentos. Talvez tenhamos sido esse alimento por muito tempo. Talvez seja nossa memória genética a nos proteger dos perigos e clamar pela perpetuação.
Chego à porteira e vou para o meio da estrada. A tira negra do asfalto é invisível, só dá para senti-la. Fico parado no meio por muitos minutos. O sábado está quieto, tranqüilo, nem os festeiros estão se movendo duma festa pra outra. Será que são tantas assim as festas? Ou é só a procura delas que é muita? Não sei, aliás, poucas respostas sei para as muitas perguntas que me faço. Olhando as estrelas à procura de uma cadente que não aparece, sei uma resposta: amanhã não teremos chuva. Nem chuvinha, muito menos chuvão. Pena, viria bem a calhar.
Nesse ano, não é a seca que chegou cedo, foram as chuvas que terminaram cedo. O resultado é o mesmo, uma frase diz a mesma coisa que a outra. Falar diferente é só floreio. As preocupações com a comida para o gado voltam, ocupam toda a cabeça, numa invasão organizada, metódica, implacável. Ali parado, no meio da estrada, desafio inconseqüente para carros inexistentes, tento esvaziar a cabeça, mandar os pensamentos embora. Não é o momento para eles. Muito menos o lugar. De alguma forma consigo. Eles se vão e eu começo a voltar para casa.
No meio do caminho ouço o estralar repetido da cerca elétrica. Em algum lugar há uma fuga de corrente. Mudo a trajetória e enxergo o brilho azulado regular da faísca. Trabalho. Vou em casa, pego duas ferramentas e a lanterna. Volto, olho, examino, tento uma coisa e outra, nada. Não há problema. Vou até a entrada do bezerreiro e desligo a chave daquele trecho. Pronto. Acabou a fuga de corrente porquê acabou a corrente. Não há necessidade dela nessa noite. As bezerras seguem me olhando, as que estão despertas. De volta à casa, recolho os últimos rola-bostas da noite. De volta ao piquete, jogo-os no capim. Vão trabalhar, malandros, deixem esse piquete limpo!
A noite continua silenciosa. Os cachorros dormem enrodilhados em cima de panos quentes. A gata Sophia dorme enrodilhada no sofá, antes de ir para nossa cama. As vacas acordadas estão como se estivessem dormindo, a diferença é pouca. Na cozinha, um macarrão de emergência com azeitonas, tomate, cebola e bacon está á minha espera. Com ele, uma garrafa geladinha de um verde português. Não é a melhor combinação mas está muito longe de ser a pior. O fogão de lenha está aceso, ainda, gerando um calorzinho gostoso. É hora de comer que a fome aperta, o cansaço chegou e depois tomar um bom banho antes de deitar. Mais um dia termina na roça.

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As estrelas e a Via Láctea que ocuparam todos os quadrantes do céu de outono deram lugar a esse dia.
Como eu esperava, horrível.
Belo, belíssimo para muitos, quase todos, horrível para quem queria e quer chuva.
E segue a vida na roça.
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As estrelas... Não queria ver estrelas hoje. Queria uma noite escura, nuvens negras cobrindo o céu de ponta a ponta, relâmpagos cortando o horizonte, chuva caindo de preferência miúda e prolongada, mas qualquer jeito, qualquer tipo de chuva seria mais que bem-vindo. Saudades de ouvir o vento que antecede as primeiras gotas passando pelas árvores, fazendo um barulhão danado, alvoroçando a galinhada que dorme encarapitada nos galhos mais altos de algumas árvores perto de casa. Ruim para elas, claro, mas paciência. Todavia, nada disso vejo, sinto, ouço. A noite está calma. Mesmo sem lua, em poucos minutos os olhos se acostumam com a luz pouca e difusa das estrelas. E como tem estrelas nessa noite! A Via Láctea cobre tudo. Tantas são elas que demoro um pouco para achar o Cruzeiro do Sul. Norte, oeste, leste e sul, o horizonte é igual, céu estrelado.
As vacas ruminam em paz. Deitadas, tranqüilas, pensando em nada como de hábito, penso eu, que penso em tudo mas deveria pensar um pouco em nada, tal como elas. As bezerras estão igualmente quietinhas, umas já dormindo profundamente, outras olhando com curiosidade minha andança sossegada. O Brioso não gosta do curral. Como bom cavalo já está no meio do piquete, pastando um pouco, parando um pouco. É uma noite de poucos ruídos, é uma noite de outono, querendo passar de fresca para fria. A bicharada é pouca, o que é bom. Mas, mesmo assim, vários besouros rola-bosta, pretos, do tamanho de uma azeitona média para grande, estão nas varandas. Recolho vários deles num vidro, vou até o bezerreiro e jogo-os no capim. O pessoal não recolheu todo o esterco dos bezerros, então esses rola-bostas farão uma parte do serviço para eles. E muito melhor, diga-se de passagem. Assim que chegam ao chão caminham um pouco, encontram um lugar apetecível, e escavam. Como são velozes no escavar esses besouros! Em segundos, menos de um minuto, já desaparecem. Dentro em pouco voltarão à superfície e vão procurar pela bosta das vacas, no caso, aqui, dos bezerros. Farão bolotas maiores que eles, até, e vão empurra-las para o fundo dos buracos escavados. Ali botarão seus ovos. As larvas, quando nascerem, irão se alimentar com o esterco. Ovos e larvas de moscas e vermes serão destruídos, colaborando com o controle desses parasitas. Nutrientes diversos entrarão no solo em profundidades variáveis, realimentando o eterno ciclo de nutrientes na natureza. Por isso mesmo, em certas noites, chego a fazer muitas viagens varandas/pasto ou bezerreiro, salvando os besouros do apetite insaciável dos sapos que fazem ponto, devem até marcar cartão, em nossas varandas. Qualquer dia são capazes de me processar, exigindo direitos trabalhistas. Ou pior, como a posse da terra para eles.
A última tarefa da noite é fechar a porteira. Mero ritual, pois, aberta ou fechada nada impede a entrada de quem não queremos. Mas rituais existem para serem cumpridos. E lá vou eu. Dispenso a lanterna por desnecessária, o brilho das estrelas é suficiente para caminhar. Não há sombras, como em noite de lua cheia, apenas vultos. Alguns, inconscientemente, me assustam. Foi dessa forma, com certeza, que muitas lendas e mitos nasceram em tempos remotos. Somos animais diurnos, a escuridão nos assusta. Associamo-la ao medo, ao desconhecido, ao terror. A maioria dos outros animais associam-na à comida, à busca de alimentos. Talvez tenhamos sido esse alimento por muito tempo. Talvez seja nossa memória genética a nos proteger dos perigos e clamar pela perpetuação.
Chego à porteira e vou para o meio da estrada. A tira negra do asfalto é invisível, só dá para senti-la. Fico parado no meio por muitos minutos. O sábado está quieto, tranqüilo, nem os festeiros estão se movendo duma festa pra outra. Será que são tantas assim as festas? Ou é só a procura delas que é muita? Não sei, aliás, poucas respostas sei para as muitas perguntas que me faço. Olhando as estrelas à procura de uma cadente que não aparece, sei uma resposta: amanhã não teremos chuva. Nem chuvinha, muito menos chuvão. Pena, viria bem a calhar.
Nesse ano, não é a seca que chegou cedo, foram as chuvas que terminaram cedo. O resultado é o mesmo, uma frase diz a mesma coisa que a outra. Falar diferente é só floreio. As preocupações com a comida para o gado voltam, ocupam toda a cabeça, numa invasão organizada, metódica, implacável. Ali parado, no meio da estrada, desafio inconseqüente para carros inexistentes, tento esvaziar a cabeça, mandar os pensamentos embora. Não é o momento para eles. Muito menos o lugar. De alguma forma consigo. Eles se vão e eu começo a voltar para casa.
No meio do caminho ouço o estralar repetido da cerca elétrica. Em algum lugar há uma fuga de corrente. Mudo a trajetória e enxergo o brilho azulado regular da faísca. Trabalho. Vou em casa, pego duas ferramentas e a lanterna. Volto, olho, examino, tento uma coisa e outra, nada. Não há problema. Vou até a entrada do bezerreiro e desligo a chave daquele trecho. Pronto. Acabou a fuga de corrente porquê acabou a corrente. Não há necessidade dela nessa noite. As bezerras seguem me olhando, as que estão despertas. De volta à casa, recolho os últimos rola-bostas da noite. De volta ao piquete, jogo-os no capim. Vão trabalhar, malandros, deixem esse piquete limpo!
A noite continua silenciosa. Os cachorros dormem enrodilhados em cima de panos quentes. A gata Sophia dorme enrodilhada no sofá, antes de ir para nossa cama. As vacas acordadas estão como se estivessem dormindo, a diferença é pouca. Na cozinha, um macarrão de emergência com azeitonas, tomate, cebola e bacon está á minha espera. Com ele, uma garrafa geladinha de um verde português. Não é a melhor combinação mas está muito longe de ser a pior. O fogão de lenha está aceso, ainda, gerando um calorzinho gostoso. É hora de comer que a fome aperta, o cansaço chegou e depois tomar um bom banho antes de deitar. Mais um dia termina na roça.

file:///C:/Documents%20and%20Settings

As estrelas e a Via Láctea que ocuparam todos os quadrantes do céu de outono deram lugar a esse dia.
Como eu esperava, horrível.
Belo, belíssimo para muitos, quase todos, horrível para quem queria e quer chuva.
E segue a vida na roça.
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quarta-feira, abril 27, 2005
Respeitosamente, vá se catar!
Ridículo!
Grotesco e ofensivo.
Poucas vezes vi ou ouvi um homem público falar tão grande asneira como o fez dessa vez S. Excia. , o presidente Luiz Inácio da Silva. Lembrando que, por força de sua vitoriosa e muito incensada carreira sindical, acrescentou Lula ao seu nome.
S. Excia. não trabalha há décadas. Desde que virou dirigente sindical. A partir daí, sua vida foi uma sucessão de reuniões e conversas. Ficou uns dias preso, é verdade, bem tratado, visitado e paparicado. Esse período de férias de alguns dias rendeu-lhe bela e polpuda aposentadoria precoce – não sei de que, mas enfim... – além de enriquecer seu currículo.
Sua filha mais velha estudou em Paris, com tudo pago por representante da burguesia tupiniquim.
Morou de favor em bela casa cedida por amigo durante muitos e muitos anos.
Com tanta falta de despesa, é claro, conseguiu comprar apartamento de bom padrão e chácara idem. Nada contra, muito antes pelo contrário. Tudo justo, muito justo, justíssimo.
S. Excia. só levanta o presidencial traseiro da poltrona do palácio para acomodá-lo na poltrona do AeroLula, brinquedinho que custou a bagatela de 70 milhões de dólares (57 da compra e 13 das adaptações e equipamentos, valor que a imprensa nunca lembra de citar e acrescentar ao valor da compra).
S. Excia. desconhece o que é a vida comum, corriqueira, de quem não é, como ele, um privilegiado. Não paga escola, não paga cartão de crédito, não paga aluguel ou prestação de casa, tem aposentadoria boa e gorda garantida, enfim, S.Excia. desconhece a vida real. Há décadas vive em um mundo de fantasia falando e opinando sobre o mundo real, cada vez mais distante, cada vez mais esquecido e deturpado.
S.Excia., depois de falar um monte de asneiras por terras d’África, Ásia, Américas e Europa (faltam Oceania e Antártida) e uma infinidade de tolices na Terra de Vera Cruz, pronunciou, agora, a maior e melhor de todas, seu atestado de incompetência: mandou-nos levantar os traseiros, abandonar o comodismo e procurar outro banco com taxa de juros mais barata, ao invés de xingar de noite e pagar os juros de dia. S.Excia. foi mais além, ao dizer que a gente reclama dos juros num bar. Oras, Sr. Presidente da República, faça-me o favor! Ao contrário do senhor, cujo gosto pela bebida é conhecido até nos "Isteitis", eu não bebo, muito menos em bares, até porquê o dinheiro anda escasso para isso. É, isso mesmo, afinal, na vida real e no meu pobre caso, se eu beber e comer num bar terei uma conta para pagar. Não há 175 milhões de bobos pagando também essa conta para mim.
Por último, mas não menos importante, S.Excia. esqueceu que uns 54 milhões de comodistas levantaram os traseiros e foram às urnas votar justamente no senhor para mudar “tudo isso que está aí”. Pobres eleitores.
Ah, quer saber duma coisa? Sr. Presidente, com todo o respeito, vá se catar!
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Grotesco e ofensivo.
Poucas vezes vi ou ouvi um homem público falar tão grande asneira como o fez dessa vez S. Excia. , o presidente Luiz Inácio da Silva. Lembrando que, por força de sua vitoriosa e muito incensada carreira sindical, acrescentou Lula ao seu nome.
S. Excia. não trabalha há décadas. Desde que virou dirigente sindical. A partir daí, sua vida foi uma sucessão de reuniões e conversas. Ficou uns dias preso, é verdade, bem tratado, visitado e paparicado. Esse período de férias de alguns dias rendeu-lhe bela e polpuda aposentadoria precoce – não sei de que, mas enfim... – além de enriquecer seu currículo.
Sua filha mais velha estudou em Paris, com tudo pago por representante da burguesia tupiniquim.
Morou de favor em bela casa cedida por amigo durante muitos e muitos anos.
Com tanta falta de despesa, é claro, conseguiu comprar apartamento de bom padrão e chácara idem. Nada contra, muito antes pelo contrário. Tudo justo, muito justo, justíssimo.
S. Excia. só levanta o presidencial traseiro da poltrona do palácio para acomodá-lo na poltrona do AeroLula, brinquedinho que custou a bagatela de 70 milhões de dólares (57 da compra e 13 das adaptações e equipamentos, valor que a imprensa nunca lembra de citar e acrescentar ao valor da compra).
S. Excia. desconhece o que é a vida comum, corriqueira, de quem não é, como ele, um privilegiado. Não paga escola, não paga cartão de crédito, não paga aluguel ou prestação de casa, tem aposentadoria boa e gorda garantida, enfim, S.Excia. desconhece a vida real. Há décadas vive em um mundo de fantasia falando e opinando sobre o mundo real, cada vez mais distante, cada vez mais esquecido e deturpado.
S.Excia., depois de falar um monte de asneiras por terras d’África, Ásia, Américas e Europa (faltam Oceania e Antártida) e uma infinidade de tolices na Terra de Vera Cruz, pronunciou, agora, a maior e melhor de todas, seu atestado de incompetência: mandou-nos levantar os traseiros, abandonar o comodismo e procurar outro banco com taxa de juros mais barata, ao invés de xingar de noite e pagar os juros de dia. S.Excia. foi mais além, ao dizer que a gente reclama dos juros num bar. Oras, Sr. Presidente da República, faça-me o favor! Ao contrário do senhor, cujo gosto pela bebida é conhecido até nos "Isteitis", eu não bebo, muito menos em bares, até porquê o dinheiro anda escasso para isso. É, isso mesmo, afinal, na vida real e no meu pobre caso, se eu beber e comer num bar terei uma conta para pagar. Não há 175 milhões de bobos pagando também essa conta para mim.
Por último, mas não menos importante, S.Excia. esqueceu que uns 54 milhões de comodistas levantaram os traseiros e foram às urnas votar justamente no senhor para mudar “tudo isso que está aí”. Pobres eleitores.
Ah, quer saber duma coisa? Sr. Presidente, com todo o respeito, vá se catar!
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terça-feira, abril 26, 2005
Cansaço, miopia e experimentação
Tá no Estadão de hoje: “Uso exagerado de computador causa fadiga visual” (não coloco um link para essa matéria porquê o acesso é restrito a assinantes do jornal impresso). Resumidamente, pesquisa realizada pelo Instituto Penido Burnier, de Campinas, revelou que o uso do computador piora a visão das pessoas. Nesse pesquisa, 75% dos usuários tiveram fadiga visual, conhecida pela sigla CVS – Computer Vision Syndrome.
Isso ocorre porquê, segundo um dos especialistas, nunca nossa visão de perto foi tão exigida como nos dias de hoje e nosso olho não foi feito para ficar duas horas olhando no mesmo foco (só duas horas?). Possivelmente, o uso do computador pode estar ligado ao aumento de casos de miopia infantil.
Outro problema – e esse vai me gerar uma tremenda mão à palmatória: nosso olho pisca, em média, 20 vezes por segundo (a matéria diz por segundo). Na frente do monitor, porém, essa freqüência cai para 5 vezes. A piscada lubrifica o olho e é um instrumento de defesa. Mais um problema: os monitores modernos têm até 16,7 milhões de cores, e isso resulta num problema para a visão: a variação de luminosidade sobrecarrega a musculatura que regula a entrada de luz para a retina.
Tudo isso acaba provocando dor de cabeça, olhos vermelhos, sensação de poeira nos olhos, olho seco. Tenho tido tudo isso, vira e mexe uso colírio, e desde o começo minha mulher falou que eu ficava tempo demais em frente ao computador. “Vê lá!” – foi a minha resposta. Ela estava certa e eu, pra variar, errado. Saco!
Bom, ameniza um pouco reduzir o brilho, usar protetor de tela, trabalhar sempre com luz acesa sem incidir diretamente nos olhos ou na tela.
A matéria é muito boa. Se houver interesse posso tentar colocá-la aqui ou posso enviá-la via e-mail para quem tiver interesse.
De minha parte, acabei de aumentar o corpo das letras, o tamanho delas. Estavam muito pequenas, exigindo ainda mais esforço para a leitura (como se já não bastasse o esforço pra ler um monte de coisas que escrevo).
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Isso ocorre porquê, segundo um dos especialistas, nunca nossa visão de perto foi tão exigida como nos dias de hoje e nosso olho não foi feito para ficar duas horas olhando no mesmo foco (só duas horas?). Possivelmente, o uso do computador pode estar ligado ao aumento de casos de miopia infantil.
Outro problema – e esse vai me gerar uma tremenda mão à palmatória: nosso olho pisca, em média, 20 vezes por segundo (a matéria diz por segundo). Na frente do monitor, porém, essa freqüência cai para 5 vezes. A piscada lubrifica o olho e é um instrumento de defesa. Mais um problema: os monitores modernos têm até 16,7 milhões de cores, e isso resulta num problema para a visão: a variação de luminosidade sobrecarrega a musculatura que regula a entrada de luz para a retina.
Tudo isso acaba provocando dor de cabeça, olhos vermelhos, sensação de poeira nos olhos, olho seco. Tenho tido tudo isso, vira e mexe uso colírio, e desde o começo minha mulher falou que eu ficava tempo demais em frente ao computador. “Vê lá!” – foi a minha resposta. Ela estava certa e eu, pra variar, errado. Saco!
Bom, ameniza um pouco reduzir o brilho, usar protetor de tela, trabalhar sempre com luz acesa sem incidir diretamente nos olhos ou na tela.
A matéria é muito boa. Se houver interesse posso tentar colocá-la aqui ou posso enviá-la via e-mail para quem tiver interesse.
De minha parte, acabei de aumentar o corpo das letras, o tamanho delas. Estavam muito pequenas, exigindo ainda mais esforço para a leitura (como se já não bastasse o esforço pra ler um monte de coisas que escrevo).
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Vale enevoado
A estrada estreita, uma curva em seguida à outra, me levava cada vez mais para cima. O sol forte e brilhante não chegava a esquentar, o frescor e a umidade da mata deixavam a temperatura agradável. Até que não tinha mais subidas, já estávamos no topo da serra, dali pra frente, se prosseguisse, começaria a descer no rumo do mar, no rumo de mundos diferentes em tudo daquele ali, no alto, as nuvens ao alcance dos dedos.
A estradinha de terra estava do lado esquerdo, entrada apertada. A estrada deserta permitia qualquer manobra mas entrei direto, só reduzindo um pouco a velocidade. A estradinha seguia em frente como se fosse um túnel, fechada pelos lados e pelo alto pela vegetação. Pouco depois a mata terminou. À minha frente, se estendendo por uns dois quilômetros, um vale bonito, tomado pelo capim dos pastos. Bem mais comprido que largo, à esquerda terminava em morros cobertos pela mesma mata, verde-escura e fechada. À direita, os morros mais suaves um pouco, estavam tomados pela pastagem, pontilhada aqui e ali por algumas vacas.
Parei o carro. A paisagem combinava com o silêncio e a placidez geral. As vacas pareciam não se mover, e os cantos dos passarinhos chegavam de longe, suavizados pelas árvores e misturados com o murmurejar gostoso da água do pequeno riacho escondido pelo capim. Os diferentes tons de verde combinavam com o azul intenso do céu. Um momento perfeito. Ainda não sabia, então, que aquele seria só o primeiro momento perfeito daquele dia. Lembro que, naquele momento, senti um pouco do perfume do capim-gordura.
Foi difícil voltar pro carro, ligar o motor e seguir para o fundo do vale, na direção da sede. Na verdade, por ali a gente não seguia para o fundo e sim para a cabeceira do vale. A sede, a casa do empregado, o curral pequeno e ajeitadinho estavam a cavaleiro do vale, encarapitados numa pequena elevação. Uma pequena subida, uma curva, outra subida curta e mais uma curva e parei em frente à sede, velha, com jeito aconchegante.
Não lembro do que conversamos. Mal e mal lembro, também, de ter andado um pouco pelo pasto, de ter entrado no curral, ter olhado uma vaca ou outra. Meus olhos se interessavam pelo conjunto, pela paisagem. O pasto não precisava de minhas passadas para saber que estava, como todos os outros, semi-degradado, precisando de matéria orgânica, precisando de adubo, precisando de proteção.
Fiquei feliz quando voltamos pra sede. Se espantaram comigo porquê não quis entrar e sentar na sala, preferi ficar sentado na varanda, de frente para o vale, sentindo o frio e um pouco da umidade do fim da tarde subindo e chegando, tomando conta do corpo. Mais de um café tomei não pra espantar o frio ou acompanhar os biscoitos, mas pra alongar o prazer. Que ficou maior quando a neblina apontou lá embaixo, justamente onde eu tinha parado e descido do carro pra admirar aquele pequeno mundo escondido do asfalto.
Ela chegou de repente, densa, como uma grande manta de algodão cinza claro, escondendo a paisagem, escondendo as árvores e logo em seguida escondendo o pasto e as vacas. Minutos depois, nós mesmos estávamos escondidos do mundo, envoltos por ela, a neblina do alto da Serra do Mar. Minha paixão por aquele vale só aumentou. Tudo que eu queria da vida, naquele momento, era me deixar ficar, acender o fogão a lenha, puxar um livro e deixar o tempo passar, conversar mais, ouvir mais histórias e estórias, deixar a vida seguir até o próximo nascer do sol, o desmanchar da neblina, e o renascer da paisagem.
Pena. Tudo que fiz foi entrar no carro e pegar o rumo de casa, na distante cidade grande. Tenho certeza que um pouco de mim ficou ali, naquele pequeno vale. Ou, quem sabe, foi um pouco dele que veio comigo e comigo está até hoje, tanto tempo passado, tantas sensações vividas, tantas paisagens vistas e aquele vale nunca perdido.
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A estradinha de terra estava do lado esquerdo, entrada apertada. A estrada deserta permitia qualquer manobra mas entrei direto, só reduzindo um pouco a velocidade. A estradinha seguia em frente como se fosse um túnel, fechada pelos lados e pelo alto pela vegetação. Pouco depois a mata terminou. À minha frente, se estendendo por uns dois quilômetros, um vale bonito, tomado pelo capim dos pastos. Bem mais comprido que largo, à esquerda terminava em morros cobertos pela mesma mata, verde-escura e fechada. À direita, os morros mais suaves um pouco, estavam tomados pela pastagem, pontilhada aqui e ali por algumas vacas.
Parei o carro. A paisagem combinava com o silêncio e a placidez geral. As vacas pareciam não se mover, e os cantos dos passarinhos chegavam de longe, suavizados pelas árvores e misturados com o murmurejar gostoso da água do pequeno riacho escondido pelo capim. Os diferentes tons de verde combinavam com o azul intenso do céu. Um momento perfeito. Ainda não sabia, então, que aquele seria só o primeiro momento perfeito daquele dia. Lembro que, naquele momento, senti um pouco do perfume do capim-gordura.
Foi difícil voltar pro carro, ligar o motor e seguir para o fundo do vale, na direção da sede. Na verdade, por ali a gente não seguia para o fundo e sim para a cabeceira do vale. A sede, a casa do empregado, o curral pequeno e ajeitadinho estavam a cavaleiro do vale, encarapitados numa pequena elevação. Uma pequena subida, uma curva, outra subida curta e mais uma curva e parei em frente à sede, velha, com jeito aconchegante.
Não lembro do que conversamos. Mal e mal lembro, também, de ter andado um pouco pelo pasto, de ter entrado no curral, ter olhado uma vaca ou outra. Meus olhos se interessavam pelo conjunto, pela paisagem. O pasto não precisava de minhas passadas para saber que estava, como todos os outros, semi-degradado, precisando de matéria orgânica, precisando de adubo, precisando de proteção.
Fiquei feliz quando voltamos pra sede. Se espantaram comigo porquê não quis entrar e sentar na sala, preferi ficar sentado na varanda, de frente para o vale, sentindo o frio e um pouco da umidade do fim da tarde subindo e chegando, tomando conta do corpo. Mais de um café tomei não pra espantar o frio ou acompanhar os biscoitos, mas pra alongar o prazer. Que ficou maior quando a neblina apontou lá embaixo, justamente onde eu tinha parado e descido do carro pra admirar aquele pequeno mundo escondido do asfalto.
Ela chegou de repente, densa, como uma grande manta de algodão cinza claro, escondendo a paisagem, escondendo as árvores e logo em seguida escondendo o pasto e as vacas. Minutos depois, nós mesmos estávamos escondidos do mundo, envoltos por ela, a neblina do alto da Serra do Mar. Minha paixão por aquele vale só aumentou. Tudo que eu queria da vida, naquele momento, era me deixar ficar, acender o fogão a lenha, puxar um livro e deixar o tempo passar, conversar mais, ouvir mais histórias e estórias, deixar a vida seguir até o próximo nascer do sol, o desmanchar da neblina, e o renascer da paisagem.
Pena. Tudo que fiz foi entrar no carro e pegar o rumo de casa, na distante cidade grande. Tenho certeza que um pouco de mim ficou ali, naquele pequeno vale. Ou, quem sabe, foi um pouco dele que veio comigo e comigo está até hoje, tanto tempo passado, tantas sensações vividas, tantas paisagens vistas e aquele vale nunca perdido.
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segunda-feira, abril 25, 2005
Contrastes

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A moto do Israel (sim, Israel, o outro é o Ismael e o irmão do Israel chama-se Ismael, mas a gente chama o garoto de Polaco; meio confuso, né?) está parada ao lado da cerca elétrica perto do curral. Indiferente ao monstrengo tecnológico, o Brioso come um pouco de grama na margem do carreador.
Na cozinha do sitio, cara a cara com o fogão a lenha está o freezer. No outro canto, a geladeira modernosa. A gente pouco, ou quase nada, usa o gás no outro fogão. Quando comprei o sítio, “herdei” um bujão de gás que já ia quase pela metade. O mesmo bujão que foi roubado quase 4 anos depois da compra, ainda com gás. Pelo menos nesse ponto economizamos petróleo, pois o gás é o GLP.
Diariamente, exceto nos finais de semana, o Brioso leva o leite até o laticínio. Depois vai até a capineira de napiê “paraíso” e leva o capim cortado para cima, onde será picado. Capim que ele mesmo come com gosto. O Israel vem trabalhar de moto e nos dias em que não trabalha traz o Polaco. Já o Ismael, embora tenha bicicleta de marchas, prefere vir a pé. O Zé quando trabalhava com a gente, ora vinha de bicicleta – boa pra treinar e manter os músculos afiados pra montar nos touros dos rodeios – ora de moto, ora de cavalo.
A vida é mais interessante quando convivemos com coisas tão contrastantes.
Isso tem algo a ver com diversidade, pluralidade, democracia, até, por que não? Onde nada é uniforme talvez seja mais fácil aceitar o diferente.
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quarta-feira, abril 20, 2005
Jávea
(Essa história é verídica, com algumas frases reconstruídas de memória. É uma história sobre paixão e futebol, mais sobre futebol, mais sobre paixão, sei lá.)
Jávea, uma história de amor...
(esse título termina no final do texto)
Trabalhar em cartório de registro civil já foi mais fácil do que é hoje. Tá certo que antigamente não havia computador, tudo era escrito a mão mesmo, boa caligrafia era essencial. Mas tirando um ou outro Anfilóquio & assemelhados, os nomes eram fáceis e poucos, a maioria esmagadora com um santo padroeiro, o que tornava tudo ainda mais fácil. Era Amélia, Hermengarda (essa acho que não tem santa), Paulo, Maria das Dores, Ernesto, José, João, Bento, Helena, Manoel ou Manuel, Ernestina, Bertolino, Adélia, Aparecida, muitas Marias. Lá uma vez ou outra aparecia uma Edwige, mas era raro. Por volta dos 50, a coisa começou a mudar e os nomes passaram a ficar, digamos, mais sonoros. Influência da guerra, decerto, e dos americanos, com certeza. Eu mesmo e meus irmãos somos vítimas dessa fase. Emerson, Vagner e Edson (Eduardo, o caçula, deve seu nome à minha indicação). De minha parte, ficaria mais à vontade com um Frederico Augusto, quem sabe. :o) Elocubrações meio bestas.
Naquele dia o rapaz do cartório na cidade de Marilia ficou espantado. E um pouco indignado.
- Bom dia - disse o rapaz novinho, meio alto, magrelo, cabelo meio comprido.
- Bom dia – respondeu o cartorário.
- Vim registrar minha filha, nasceu ontem.
- Ah, muito bem. Está com os papeis da maternidade? Passe-os para mim, por favor.
O cartorário pegou a guia da maternidade, abriu o livro e começou a fazer o registro da criança, uma das mais novas habitantes do planetinha azulado cheio de H2O na fase líquida. Computadores, conhecidos como cérebros eletrônicos, eram máquinas gigantescas usadas pela NASA, pelos “americanos” e “russos” e pelos bancos gigantes daqui mesmo. Ficavam em salas enormes, refrigeradas, com um povo esquisito trabalhando dentro deles. O jeito, portanto, no cartório, era escrever na base da munheca, mesmo. Diligentemente.
- O nome da menina?
- Gávea de Lima Cordeiro.
- Como? Pode repetir, não entendi direito.
- Gávea de Lima Cordeiro – repetiu o rapaz magrelo, compassadamente, o rosto com um ar de satisfação.
- Olha, hummmm... “seu” Jairo, né?
- Isso!
- Pois é, seu Jairo, não posso fazer esse registro.
- Como não pode?
A transformação no rosto do rapaz foi instantânea. A satisfação foi embora, trocada por um começo de raiva.
- Pois é, não dá, esse nome não existe.
- Como não existe? É claro que existe!
- Não, não existe.
- Que é isso, rapaz? É claro que existe. Tem um bairro com esse nome lá no Rio de Janeiro.
- Pode até ser, mas não existe, não é nome.
- Que que é isso? Tem até a Pedra da Gávea, que é famosa pra burro.
- Pode ser, “seu” Jairo, mas isso não é nome de gente e eu não posso fazer o registro.
Dito isso, o cartorário afastou a cadeira da mesa e ficou olhando o rapaz magrelo. Um outro rapaz, igualmente novo, que estava com o magrelo meio cabeludo, falou baixinho pra ele ficar calmo.
- Como é que eu vou ficar calmo se esse cara não quer registrar a minha filha? Ficar calmo como?
- Calma, Jairo, vamos conversar.
- Que conversar coisa nenhuma. Ele taí pra registrar e tem que registrar!
- Calma, cara, assim só piora as coisas.
O rapaz acompanhante virou-se pro cartorário e perguntou:
- Vem cá, não tem jeito de fazer o registro? Gávea é um nome bonito, sonoro, e ele tem razão, existe um bairro lá no Rio com esse nome. Fora a pedra, que é grandona e bonita.
- Olha, você é mais calmo, explica pro teu amigo aí...
- É meu primo.
- ... explica pro teu primo que não podemos fazer registro de pessoas com nomes... hummm... assim, entende? Nomes de coisas.
- Mas ele quer esse nome, não vai ter jeito.
- É, mas infelizmente se eu registrar assim, o juiz recusa, anula o processo e eu levo uma baita duma bronca ou coisa pior.
Ao lado, o pai da menina ainda sem nome, já que, pelo visto e ouvido Gávea não seria, escutava tudo, ar de revolta e incompreensão estampado na face. Ar de quem não estava acostumado a ser contrariado. E isso era fácil de entender: bastava vê-lo jogando bola aos domingos no campo de Padre Nóbrega, o pequeno distrito de Marilia onde viver era uma coisa pra lá de gostosa. Todas as bolas passavam por seus pés. Gritava com todos, comandava, tanto os moleques novos como os velhos já meio barrigudos. E ninguém discutia. Também, pudera, as bolas que chegavam a ele eram trabalhadas com paixão, ciência e arte, tudo junto. Quando alguém errava uma jogada ou não se posicionava onde ele queria, a catadupa de palavrões cabeludos que saía de sua boca era terrível. Aquele magrelo, definitivamente, não estava acostumado a ser contrariado.
O entrevero durou mais alguns minutos, caras feias daqui e dali, inflexibilidades também. Súbito, não sei se o cartorário, não sei se o Jairo, não sei se o primo ou algum outro vivente dentro do cartório, sugeriu uma mudança. O Jairo pensou em Jávea, talvez já tivesse pensado antes, talvez tenha sido a tal idéia luminosa que às vezes temos.
Jávea... Claro! Afinal, Jairo era o seu nome, pai da menina, Gávea era onde morava a paixão de sua vida, o Flamengo, juntava os dois e pronto! Uma solução à brasileira, negociada, acordada, uma posição de conciliação, produto típico de um povo que já foi tolerante e mais cordato.
Jávea foi batizada dias depois. Cresceu, já é uma mulher formada, entrando agora nos trinta. Meu primo Jairo continua batendo um bolão, mas de acordo com a idade e a barriguinha. Virou um desses magrelos com barriga, mas não exagerada, é passável. Continua sonhando com os horizontes amplos, imensos, dos sertões do Centro-Oeste, sertões que sonhou cruzar dirigindo uma carreta. Toda vez que cruzo essas imensidões, e são muitas, penso nele pelo menos um pouco. Apesar de ter treinado no Santos de Pelé, com a camisa 10 dos aspirantes, não tem saudades e não se arrepende de não ter seguido carreira no futebol profissional. Qualquer dia conto essa história.
Hoje ninguém mais se incomoda ou comenta o nome de sua filha. Nem ela deve se lembrar o porquê desse nome diferente. Também, pudera, num país como esse, com os nomes que vemos hoje, vamos & venhamos, Jávea é bem legal. Meu primo conseguiu transplantar sua paixão pelo time para o mais íntimo de sua própria família.
Vai gostar do Flamengo assim sei lá onde! Talvez na Gávea.
... por um time de futebol
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Andrei Gromyko e o Brasil
Movido por uma curiosidade extemporânea, mas muito forte, saio vasculhando estantes e armários na caça da biografia de Andrei Gromyko – “Memories – from Stalin to Gorbachev”.
Comprei esse livro em Cuba, já lá se vão 15 anos. Naquela época a URSS ainda vivia, estertorando, é bem verdade, mas viva ainda, sob o governo do camarada Gorbachev.
Esse Gromyko sempre me intrigou. O velho Politburo do PCUS era um ninho de víboras, onde a sobrevivência era algo muito difícil, obtida a duras penas. Sobreviver no governo, então, era mais difícil ainda, principalmente quando mudava o Secretário-Geral do Partido. Todavia, entrava ano, saía ano, veio Khrushchev, veio o longo reinado Brezhnev e depois Andropov, Chernenko e, finalmente, o último secretário-geral, Gorbachev, e lá estava Andrei Gromyko firme e forte à frente da política externa da União Soviética.
Um verdadeiro bagre ensaboado, no Brasil faria sucesso como político, assim como o companheiro Zé Ribamar e outros de longa vida junto ao poder.
Durante mais de 30 anos esse homem esteve no centro de tudo que aconteceu no mundo, já que ele viveu toda a Guerra Fria no coração de um dos centros do poder. E durante esse tempo, qualquer coisa que acontecesse nesse planetinha azul tinha a ver com a Guerra Fria, direta ou indiretamente. É uma leitura interessante, inda mais se depois a gente lê o Kissinger e “Na arena”, do Nixon.
Eu me lembrava de ter lido vários trechos de suas memórias, mas não tinha chegado a fazer uma leitura de cabo a rabo. Não o fiz agora, tampouco. Fui direto ao final do livro e procurei os assuntos, países e pessoas que Gromyko menciona ao longo do livro. ... ... ...
Em vão. Não há uma única menção ao maior país latino-americano. Uma mençãozinha que fosse, tipo “ah, sim, existe um país chamado Brasil”. Nem isso. Nada, em resumo.
Somos inexistentes.
Pior: a própria América do Sul só existe numa menção curta sobre Salvador Allende e o Chile, e outra igualmente curta sobre a Bolívia, por conta da morte de Che Guevara. Mais nada. Nem sobre Argentina, Uruguai, Colômbia, Peru ou Venezuela. Nada vezes nada igual a zero. Uma boa medida da nossa importância no cenário internacional.
Hoje (texto originalmente escrito em 2005) mudou um pouco esse quadro, mais por força das vicissitudes econômicas a que fomos submetidos, o planeta inclusive. Por força de calotes no pagamento das monstruosas dívidas assumidas por Brasil, Argentina e companheiros e, mais recentemente ainda, por força do comércio internacional, onde o Brasil passa a ocupar uma posição menos servil e mais ativa. De qualquer forma, sob qualquer ângulo, nossa inexistência na vida de alguém como Gromyko demonstra nossa desimportância.
Somos tão inexistentes como o título desse texto.
Agora, reparando nos trajetos do "AeroLula" com o presidente a bordo, vejo que nossa política externa se faz (será?) com países igualmente ausentes das memórias de Gromyko. São conversas do desimportante com o nada. Patético (*). Enquanto o presidente perde seu tempo, nossos recursos e compromete nosso futuro com essas tertúlias africanas, caribenhas e outras, Índia e China, com 40% dos habitantes do planetinha, assinam acordos, se mexem, crescem aceleradamente à custa do ambiente, à custa do trabalho quase escravo, à custa da vontade e de um planejamento para o futuro.
E nosso presidente desembarca em terras d’África e pede perdão pela escravidão. Ora, francamente, que demagogia imbecil e barata. Melhor faria se ficasse por aqui governando e tentando melhorar a vida dos descendentes dos escravos.
Se bem que, pensando bem, se com ele viajando tanto já está do jeito que está...
Hummmm...
Ok, Excelência, continue viajando. Talvez nos seja mais barato e menos ruim.
(*)À guisa de p.s.: esse termo "patético" não se aplica dessa forma, mas num texto assim despretencioso, ok, dá para usá-lo; popularmente ele tem uso e pega bem à beça - ou à bessa, como quer a ABL - num texto que se pretende irônico.)
Uma atualização em Novembro de 2016
Ora, ora, ora... E o então presidente Luiz Inácio fazia suas viagens mundo acima, mundo abaixo, com mais a bordo do que apenas sua equipe e a tripulação, ficamos sabendo em tempos mais recentes.
Também agora começamos a saber, mas ainda não completamente, das negociatas e maracutaias envolvendo grandes empreiteiras, o BNDES, o governo dos companheiros e governos de portentosas nações africanas.
Na época já chamava a atenção, mas ainda não conhecíamos a dimensão das negociatas.
(Sítio das Macaúbas, aos seis dias do mês de novembro do 16º ano do 21º Século.)
Comprei esse livro em Cuba, já lá se vão 15 anos. Naquela época a URSS ainda vivia, estertorando, é bem verdade, mas viva ainda, sob o governo do camarada Gorbachev.
Esse Gromyko sempre me intrigou. O velho Politburo do PCUS era um ninho de víboras, onde a sobrevivência era algo muito difícil, obtida a duras penas. Sobreviver no governo, então, era mais difícil ainda, principalmente quando mudava o Secretário-Geral do Partido. Todavia, entrava ano, saía ano, veio Khrushchev, veio o longo reinado Brezhnev e depois Andropov, Chernenko e, finalmente, o último secretário-geral, Gorbachev, e lá estava Andrei Gromyko firme e forte à frente da política externa da União Soviética.
Um verdadeiro bagre ensaboado, no Brasil faria sucesso como político, assim como o companheiro Zé Ribamar e outros de longa vida junto ao poder.
Durante mais de 30 anos esse homem esteve no centro de tudo que aconteceu no mundo, já que ele viveu toda a Guerra Fria no coração de um dos centros do poder. E durante esse tempo, qualquer coisa que acontecesse nesse planetinha azul tinha a ver com a Guerra Fria, direta ou indiretamente. É uma leitura interessante, inda mais se depois a gente lê o Kissinger e “Na arena”, do Nixon.
Eu me lembrava de ter lido vários trechos de suas memórias, mas não tinha chegado a fazer uma leitura de cabo a rabo. Não o fiz agora, tampouco. Fui direto ao final do livro e procurei os assuntos, países e pessoas que Gromyko menciona ao longo do livro. ... ... ...
Em vão. Não há uma única menção ao maior país latino-americano. Uma mençãozinha que fosse, tipo “ah, sim, existe um país chamado Brasil”. Nem isso. Nada, em resumo.
Somos inexistentes.
Pior: a própria América do Sul só existe numa menção curta sobre Salvador Allende e o Chile, e outra igualmente curta sobre a Bolívia, por conta da morte de Che Guevara. Mais nada. Nem sobre Argentina, Uruguai, Colômbia, Peru ou Venezuela. Nada vezes nada igual a zero. Uma boa medida da nossa importância no cenário internacional.
Hoje (texto originalmente escrito em 2005) mudou um pouco esse quadro, mais por força das vicissitudes econômicas a que fomos submetidos, o planeta inclusive. Por força de calotes no pagamento das monstruosas dívidas assumidas por Brasil, Argentina e companheiros e, mais recentemente ainda, por força do comércio internacional, onde o Brasil passa a ocupar uma posição menos servil e mais ativa. De qualquer forma, sob qualquer ângulo, nossa inexistência na vida de alguém como Gromyko demonstra nossa desimportância.
Somos tão inexistentes como o título desse texto.
Agora, reparando nos trajetos do "AeroLula" com o presidente a bordo, vejo que nossa política externa se faz (será?) com países igualmente ausentes das memórias de Gromyko. São conversas do desimportante com o nada. Patético (*). Enquanto o presidente perde seu tempo, nossos recursos e compromete nosso futuro com essas tertúlias africanas, caribenhas e outras, Índia e China, com 40% dos habitantes do planetinha, assinam acordos, se mexem, crescem aceleradamente à custa do ambiente, à custa do trabalho quase escravo, à custa da vontade e de um planejamento para o futuro.
E nosso presidente desembarca em terras d’África e pede perdão pela escravidão. Ora, francamente, que demagogia imbecil e barata. Melhor faria se ficasse por aqui governando e tentando melhorar a vida dos descendentes dos escravos.
Se bem que, pensando bem, se com ele viajando tanto já está do jeito que está...
Hummmm...
Ok, Excelência, continue viajando. Talvez nos seja mais barato e menos ruim.
(*)À guisa de p.s.: esse termo "patético" não se aplica dessa forma, mas num texto assim despretencioso, ok, dá para usá-lo; popularmente ele tem uso e pega bem à beça - ou à bessa, como quer a ABL - num texto que se pretende irônico.)
Uma atualização em Novembro de 2016
Ora, ora, ora... E o então presidente Luiz Inácio fazia suas viagens mundo acima, mundo abaixo, com mais a bordo do que apenas sua equipe e a tripulação, ficamos sabendo em tempos mais recentes.
Também agora começamos a saber, mas ainda não completamente, das negociatas e maracutaias envolvendo grandes empreiteiras, o BNDES, o governo dos companheiros e governos de portentosas nações africanas.
Na época já chamava a atenção, mas ainda não conhecíamos a dimensão das negociatas.
(Sítio das Macaúbas, aos seis dias do mês de novembro do 16º ano do 21º Século.)
Benedictum XVI, welcome on board
Habemus Papam e Benedictum XVI é seu nome. O XV teve um papado interessante, atravessou a selvageria da I Grande Guerra, manteve-se neutro, exigiu tratamento digno para prisioneiros – o que foi um grande avanço para a época, praticou uma política de conciliação.
Esse começo de outro século, não mais o XX mas o XXI, precisa de um Papa que ajude a resgatar valores morais e éticos, hoje perdidos, esquecidos por aí afora, ou simplesmente trocados por um tênis novo, uma calça jeans da hora, um celular com mil e uma funções desconhecidas e duas operacionais: falar e despertar.
Nasci e fui criado no catolicismo brasileiro, sem ter, felizmente, a obrigatoriedade de ir às missas. Fazer primeira comunhão foi um ritual, nada mais que isso. E foi chato. Crescidinho, considerei-me ateu, até porquê, como comunista, era o caso. Mais crescido, talvez evoluído, percebi-me agnóstico. Tá de bom tamanho. Isso não me impede, todavia, de considerar a religião como algo fundamental ao ser humano. E o catolicismo, em particular. Mas sou firmemente contrário à participação da igreja no poder. Qualquer igreja, qualquer religião. Podem me taxar de reacionário, mas lugar de padre é na igreja, de mulá na mesquita, de rabino na sinagoga, de pastor no templo. Cuidem das almas das pessoas e deixem a administração da sociedade aos cuidados da sociedade. Porquê sempre que uma religião se mistura com o estado, o resultado costuma ser trágico.
De Benedictum XVI espero que mantenha sua igreja e seus pastores à distância dos governos. Que não se intrometa, como seu antecessor, em questões como a pesquisa com células-tronco, o uso de camisinhas e anticoncepcionais, a legislação sobre o aborto. Não é com proibições canônicas, com discursos e pregações do púlpito, com radicalismo exacerbado que as pessoas evoluirão. Mais importante que isso, é a Igreja voltar a trabalhar para que o ser humano volte a ter a velha e boa consciência do bem e do mal, do certo e do errado. Pregar e praticar para que valores éticos voltem a ocupar corações e mentes hoje vazios.
Bom trabalho.
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Esse começo de outro século, não mais o XX mas o XXI, precisa de um Papa que ajude a resgatar valores morais e éticos, hoje perdidos, esquecidos por aí afora, ou simplesmente trocados por um tênis novo, uma calça jeans da hora, um celular com mil e uma funções desconhecidas e duas operacionais: falar e despertar.
Nasci e fui criado no catolicismo brasileiro, sem ter, felizmente, a obrigatoriedade de ir às missas. Fazer primeira comunhão foi um ritual, nada mais que isso. E foi chato. Crescidinho, considerei-me ateu, até porquê, como comunista, era o caso. Mais crescido, talvez evoluído, percebi-me agnóstico. Tá de bom tamanho. Isso não me impede, todavia, de considerar a religião como algo fundamental ao ser humano. E o catolicismo, em particular. Mas sou firmemente contrário à participação da igreja no poder. Qualquer igreja, qualquer religião. Podem me taxar de reacionário, mas lugar de padre é na igreja, de mulá na mesquita, de rabino na sinagoga, de pastor no templo. Cuidem das almas das pessoas e deixem a administração da sociedade aos cuidados da sociedade. Porquê sempre que uma religião se mistura com o estado, o resultado costuma ser trágico.
De Benedictum XVI espero que mantenha sua igreja e seus pastores à distância dos governos. Que não se intrometa, como seu antecessor, em questões como a pesquisa com células-tronco, o uso de camisinhas e anticoncepcionais, a legislação sobre o aborto. Não é com proibições canônicas, com discursos e pregações do púlpito, com radicalismo exacerbado que as pessoas evoluirão. Mais importante que isso, é a Igreja voltar a trabalhar para que o ser humano volte a ter a velha e boa consciência do bem e do mal, do certo e do errado. Pregar e praticar para que valores éticos voltem a ocupar corações e mentes hoje vazios.
Bom trabalho.
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quarta-feira, abril 13, 2005
Lá vem Itamar! De novo...
Não, eu não gosto do Itamar Franco.
Há quem lhe atribua um grande papel na redemocratização da Terra de Vera Cruz. Não jogo nesse time.
Político meia-boca, parlamentar briguento (por picuinhas intrapartidárias e não por nobres causas populares) e obscuro, por absoluta falta de opções de Fernando Afonso, candidato à Presidência, entrou na chapa no apagar das luzes como candidato a vice.
Fernando Afonso ganhou, Itamar virou vice. Pra quem é já tava bom demais. Complicou quando o presidente renunciou por força de suas maquinações financeiras de campanha. Após sua renúncia, sofreu processo de impeachment. Com razão ou sem razão, ele renunciou antes da votação. Pelo certo, a lei e os costumes deveriam ser seguidos e ele não deveria ter sido impichado. Mas nisso, remo contra a corrente que une da direita e os donos dos grandes capitais às extremas esquerdas diversas. Sempre que ocorre essa conjunção na história eu fico com meu pé atrás. Enfim...
Itamar, para mim, ficou marcado pela aceitação forçada de Fernando Henrique como ministro da Fazenda, responsável pela criação do Real, e pela imagem lamentável e humilhante dele, em um desfile de Carnaval no Rio de Janeiro, ao lado de uma moça sem calcinha, com suas “vergonhas” (como disse Caminha em sua carta a El Rey Dom Manuel) expostas ás lentes dos fotógrafos e aos olhares de todos quantos, em todo o planeta, deram-se ao trabalho de passar os olhos pelos jornais e revistas e noticiários televisivos.
Ao longo desses anos, Itamar foi paparicado por Fernando Henrique. Ganhou sinecuras em Washington e Lisboa. Aborreceu a todos, desde o presidente até leitores de jornais, como eu. Cansou, com suas reclamações, seu nada fazer em parte alguma, exceto fomentar futricas e nhenhenhéns. Mandado para Roma como embaixador (ah... por que cargas d’água eu deixei a política?) da república tupiniquim, chegou ao cúmulo de desagradar ao governo italiano por... nada fazer, a nada comparecer. Uma figura invisível no círculo de seus afazeres. A mesma coisa, por sinal, que já ocorrera quando de sua passagem por Lisboa.
Hoje, essa figura de triste presença, teve o dom de quase estragar a digestão do meu café-da-manhã. Peguei o jornal e lá estava ele, estampado na primeira página, entrando numa bela Mercedes, sem gravata, um lacaio a segurar-lhe um guarda-chuva. A matéria do jornal diz-nos que ele ganha 12,000.00 (doze mil, isso mesmo) dólares por mês. Tem limusine com motorista, três arrumadeiras, dois cozinheiros, três copeiros e uma lavadeira. Por ser ex-presidente, tem direito a mais oito serviçais, todos devidamente pagos pelos escorchados contribuintes tupiniquins. A matéria não diz, mas, com certeza, Itamar recebe, também, seus proventos como ex-presidente. Sem falar de aposentadorias como ex-deputado, ex-senador, etc e tal. Como de praxe, como de praxe. Em dois dessa semana, o embaixador recebeu um político de seu estado natal e um jornalista brasileiro. Não é à toa que o governo italiano cansou-se de sua ausência. E agora o governo (?) Lula terá de repatria-lo. Breve, mais fuxicos e intrigas a agitar o mundinho político em torno de S. Excia., coisa típica daquelas mocinhas e moçoilas de novelas classe B ou C. E nós teremos de atura-lo sabe-se lá por quanto tempo mais. E a pagar regiamente por tudo isso. Haja paciência! Sinceramente, preferia sustentar o Príncipe Charles e sua Camila.
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Há quem lhe atribua um grande papel na redemocratização da Terra de Vera Cruz. Não jogo nesse time.
Político meia-boca, parlamentar briguento (por picuinhas intrapartidárias e não por nobres causas populares) e obscuro, por absoluta falta de opções de Fernando Afonso, candidato à Presidência, entrou na chapa no apagar das luzes como candidato a vice.
Fernando Afonso ganhou, Itamar virou vice. Pra quem é já tava bom demais. Complicou quando o presidente renunciou por força de suas maquinações financeiras de campanha. Após sua renúncia, sofreu processo de impeachment. Com razão ou sem razão, ele renunciou antes da votação. Pelo certo, a lei e os costumes deveriam ser seguidos e ele não deveria ter sido impichado. Mas nisso, remo contra a corrente que une da direita e os donos dos grandes capitais às extremas esquerdas diversas. Sempre que ocorre essa conjunção na história eu fico com meu pé atrás. Enfim...
Itamar, para mim, ficou marcado pela aceitação forçada de Fernando Henrique como ministro da Fazenda, responsável pela criação do Real, e pela imagem lamentável e humilhante dele, em um desfile de Carnaval no Rio de Janeiro, ao lado de uma moça sem calcinha, com suas “vergonhas” (como disse Caminha em sua carta a El Rey Dom Manuel) expostas ás lentes dos fotógrafos e aos olhares de todos quantos, em todo o planeta, deram-se ao trabalho de passar os olhos pelos jornais e revistas e noticiários televisivos.
Ao longo desses anos, Itamar foi paparicado por Fernando Henrique. Ganhou sinecuras em Washington e Lisboa. Aborreceu a todos, desde o presidente até leitores de jornais, como eu. Cansou, com suas reclamações, seu nada fazer em parte alguma, exceto fomentar futricas e nhenhenhéns. Mandado para Roma como embaixador (ah... por que cargas d’água eu deixei a política?) da república tupiniquim, chegou ao cúmulo de desagradar ao governo italiano por... nada fazer, a nada comparecer. Uma figura invisível no círculo de seus afazeres. A mesma coisa, por sinal, que já ocorrera quando de sua passagem por Lisboa.
Hoje, essa figura de triste presença, teve o dom de quase estragar a digestão do meu café-da-manhã. Peguei o jornal e lá estava ele, estampado na primeira página, entrando numa bela Mercedes, sem gravata, um lacaio a segurar-lhe um guarda-chuva. A matéria do jornal diz-nos que ele ganha 12,000.00 (doze mil, isso mesmo) dólares por mês. Tem limusine com motorista, três arrumadeiras, dois cozinheiros, três copeiros e uma lavadeira. Por ser ex-presidente, tem direito a mais oito serviçais, todos devidamente pagos pelos escorchados contribuintes tupiniquins. A matéria não diz, mas, com certeza, Itamar recebe, também, seus proventos como ex-presidente. Sem falar de aposentadorias como ex-deputado, ex-senador, etc e tal. Como de praxe, como de praxe. Em dois dessa semana, o embaixador recebeu um político de seu estado natal e um jornalista brasileiro. Não é à toa que o governo italiano cansou-se de sua ausência. E agora o governo (?) Lula terá de repatria-lo. Breve, mais fuxicos e intrigas a agitar o mundinho político em torno de S. Excia., coisa típica daquelas mocinhas e moçoilas de novelas classe B ou C. E nós teremos de atura-lo sabe-se lá por quanto tempo mais. E a pagar regiamente por tudo isso. Haja paciência! Sinceramente, preferia sustentar o Príncipe Charles e sua Camila.
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terça-feira, abril 12, 2005
Flores para beija-flores

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Esta é a flor da grevília anã, um arbusto que chega a 3 m de altura. Os beija-flores são loucos por ela. Lentamente, nosso objetivo é ter o jardim formado, basicamente, por plantas cujas flores alimentem os beija-flores.
Além dela, temos o camarão, nome feio para uma flor tão bonita, russélia, diadema mini-hibisco e outras. A vantagem das flores é que os beija-flores não ficam dependentes de humanos enchendo garrafinhas com água e açúcar ou dextrose (melhor que o açúcar, pois não permite o eventual desenvolvimento de fungos que podem ser fatais para as aves).
Nesse final de semana, observei 3 diferentes espécies visitando as flores na mesma tarde.
segunda-feira, abril 11, 2005
O fim dos pardais
(Alto lá, pode parecer mas não é. Esse não é um texto ecocida.) :o)
Nos últimos dois anos ir para o sítio tornou-se uma fonte de desprazer antecipado e desprazer profundo na chegada. Nunca comentei a respeito, anteriormente, e nem sei por qual razão. Confesso que muitas vezes estive tentado a escrever um pedido de socorro e divulga-lo na net. Contive-me. Algo a ver com um certo pudor em ficar pedindo ajuda, o que quase me levou à morte em janeiro de 2000, nas águas ressacadas da Paúba, mas essa é uma outra história. A testemunhá-la, além dos humanos presentes, os pés de jambolão do sítio.
Mas, afinal, o que seria tão grave para provocar essa coisa impensável, o desprazer em ir para o sítio?
Pardais.
Sim, sim, sim, os “bunitinhos”, fofinhos, alegrinhos e briguentos pardais. Os próprios. Consta que esses bichinhos foram importados pelo então prefeito da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, Capital da República, nos idos de 1904. Consta, também, que S. Excia. queria, com eles, embelezar as avenidas e recantos do Rio com um pássaro mais “civilizado”, que o lembrasse de Paris, Lisboa e arredores.
A bem da verdade parece que não foi só o prefeito carioca que os importou. O que interessa é que, tal como o eucalipto, a abelha africana, o lírio-do-brejo, o caramujo africano e outras espécies, o pardal foi um imigrante que se deu muito bem por aqui. Cresceu e multiplicou-adoidadamente. Sou testemunha disso.
Nossa cozinha não tem forro. Já tivemos alguns hóspedes nela, inclusive uma simpática família de morcegos, cujo único incômodo era bater boca na hora do jogo. Imperdoável. Mas bastava um berro e calavam-se. Bichos comportados. Mas não devem ter gostado dos meus modos, pois logo mudaram-se. Foi quando o primeiro casal de pardais chegou. Montaram ninho, e era um cocozinho aqui, outro acolá. Chilreavam de manhã cedo, mas nada demais. Criaram. Devem ter feito boa propaganda do condomínio, bico a bico, que é a melhor propaganda que existe, todo mundo sabe disso, menos o governo Lula que continua gastando perto de um bilhão em peças laudatórias.
Bom, ao primeiro casal seguiram-se outros. Muitos e muitos outros. De repente, o ato delicioso de abrir a porta e entrar em casa transformou-se num tormento. Era abrir, entrar e ver a cozinha imunda. Fezes, gravetos, folhas de capim, penas... E acho que até piolhos em certa época.
Tudo tinha de ficar protegido. Graças à fumaça e ao calor do fogão a lenha, eles mantiveram-se longe dele, justamente onde a comida é feita. E por algum motivo insuspeito, só nos últimos tempos um casal fez o ninho sobre a mesa de refeições.
Soluções? Procuramos mas não achamos nada aceitável. Veneno, obviamente, nem pensar. Repelente? Uma tinta ou verniz caro pra burro, com instruções pra isso e aquilo e repetir e coisa e tal. E cara, ainda por cima. E, é óbvio, sem garantia. O único jeito seria forrar a cozinha, coisa, aliás, em nosso planejamento para dia incerto e não sabido mas com certeza futuro. Sim, pois isso tem um custo meio alto e, no momento, as vacas consomem o que podem e o que não podem. Mas um dia darão retorno. (Sim, eu acredito.)
E seguimos nesse ramerrão. Até que um visitante, um rapaz que trabalha com os tios da minha mulher, disse que o jeito era botar uns barbantes no beiral.
De imediato não acreditei, afinal, o que tem de história desse tipo é brincadeira. Uma delas, meio boba e hilariante, é cercar o quiosque do churrasco com sacos plásticos cheios d’água para espantar as moscas. Hehehehehe... Sem comentários. Meu sogro tentou, deu com os burros n’água. Mas de algum recanto escondido da memória veio um fiapo de informação perdida, algo como fitas plásticas, coloridas, que espantavam certas aves não sei onde.
Enquanto eu pensava e procurava por recônditos da memória, nosso visitante pediu escada e barbante e foi pro teto. Em minutos cercou a cozinha com barbante esticado e dele, pendentes, alguns pedaços do mesmo barbante balançando.
A tecnologia consiste toda no amarrio desses fios que ficam balançando e espantam os pardais
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Bom, hoje voltou a ser um prazer enorme abrir a porta e entrar na cozinha limpa, tirando um pouco de pó e, a partir de agora, a fuligem da queima dos canaviais espalhados por toda a região. Mas isso tudo é café pequeno e em nada aborrece. O barbante esticado e os pedaços pendentes, baloiçantes, espantaram todos os pardais. E, melhor ainda, espantou-os, também, das varandas. Esse resultado já conta com cerca de dois meses ou pouco mais. Privados de seu ponto favorito para aninhar, parece-me que os pardais migraram para outras vizinhanças. Já se foram tarde. Impressionante. Portanto, aqui está um modelito supimpa da melhor, mais eficiente e mais barata tecnologia caseira que existe. E, ainda por cima, absolutamente limpa.
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Nos últimos dois anos ir para o sítio tornou-se uma fonte de desprazer antecipado e desprazer profundo na chegada. Nunca comentei a respeito, anteriormente, e nem sei por qual razão. Confesso que muitas vezes estive tentado a escrever um pedido de socorro e divulga-lo na net. Contive-me. Algo a ver com um certo pudor em ficar pedindo ajuda, o que quase me levou à morte em janeiro de 2000, nas águas ressacadas da Paúba, mas essa é uma outra história. A testemunhá-la, além dos humanos presentes, os pés de jambolão do sítio.
Mas, afinal, o que seria tão grave para provocar essa coisa impensável, o desprazer em ir para o sítio?
Pardais.
Sim, sim, sim, os “bunitinhos”, fofinhos, alegrinhos e briguentos pardais. Os próprios. Consta que esses bichinhos foram importados pelo então prefeito da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, Capital da República, nos idos de 1904. Consta, também, que S. Excia. queria, com eles, embelezar as avenidas e recantos do Rio com um pássaro mais “civilizado”, que o lembrasse de Paris, Lisboa e arredores.
A bem da verdade parece que não foi só o prefeito carioca que os importou. O que interessa é que, tal como o eucalipto, a abelha africana, o lírio-do-brejo, o caramujo africano e outras espécies, o pardal foi um imigrante que se deu muito bem por aqui. Cresceu e multiplicou-adoidadamente. Sou testemunha disso.
Nossa cozinha não tem forro. Já tivemos alguns hóspedes nela, inclusive uma simpática família de morcegos, cujo único incômodo era bater boca na hora do jogo. Imperdoável. Mas bastava um berro e calavam-se. Bichos comportados. Mas não devem ter gostado dos meus modos, pois logo mudaram-se. Foi quando o primeiro casal de pardais chegou. Montaram ninho, e era um cocozinho aqui, outro acolá. Chilreavam de manhã cedo, mas nada demais. Criaram. Devem ter feito boa propaganda do condomínio, bico a bico, que é a melhor propaganda que existe, todo mundo sabe disso, menos o governo Lula que continua gastando perto de um bilhão em peças laudatórias.
Bom, ao primeiro casal seguiram-se outros. Muitos e muitos outros. De repente, o ato delicioso de abrir a porta e entrar em casa transformou-se num tormento. Era abrir, entrar e ver a cozinha imunda. Fezes, gravetos, folhas de capim, penas... E acho que até piolhos em certa época.
Tudo tinha de ficar protegido. Graças à fumaça e ao calor do fogão a lenha, eles mantiveram-se longe dele, justamente onde a comida é feita. E por algum motivo insuspeito, só nos últimos tempos um casal fez o ninho sobre a mesa de refeições.
Soluções? Procuramos mas não achamos nada aceitável. Veneno, obviamente, nem pensar. Repelente? Uma tinta ou verniz caro pra burro, com instruções pra isso e aquilo e repetir e coisa e tal. E cara, ainda por cima. E, é óbvio, sem garantia. O único jeito seria forrar a cozinha, coisa, aliás, em nosso planejamento para dia incerto e não sabido mas com certeza futuro. Sim, pois isso tem um custo meio alto e, no momento, as vacas consomem o que podem e o que não podem. Mas um dia darão retorno. (Sim, eu acredito.)
E seguimos nesse ramerrão. Até que um visitante, um rapaz que trabalha com os tios da minha mulher, disse que o jeito era botar uns barbantes no beiral.
De imediato não acreditei, afinal, o que tem de história desse tipo é brincadeira. Uma delas, meio boba e hilariante, é cercar o quiosque do churrasco com sacos plásticos cheios d’água para espantar as moscas. Hehehehehe... Sem comentários. Meu sogro tentou, deu com os burros n’água. Mas de algum recanto escondido da memória veio um fiapo de informação perdida, algo como fitas plásticas, coloridas, que espantavam certas aves não sei onde.
Enquanto eu pensava e procurava por recônditos da memória, nosso visitante pediu escada e barbante e foi pro teto. Em minutos cercou a cozinha com barbante esticado e dele, pendentes, alguns pedaços do mesmo barbante balançando.
A tecnologia consiste toda no amarrio desses fios que ficam balançando e espantam os pardaisfile:///C:/Documents%20and%20Settings

Bom, hoje voltou a ser um prazer enorme abrir a porta e entrar na cozinha limpa, tirando um pouco de pó e, a partir de agora, a fuligem da queima dos canaviais espalhados por toda a região. Mas isso tudo é café pequeno e em nada aborrece. O barbante esticado e os pedaços pendentes, baloiçantes, espantaram todos os pardais. E, melhor ainda, espantou-os, também, das varandas. Esse resultado já conta com cerca de dois meses ou pouco mais. Privados de seu ponto favorito para aninhar, parece-me que os pardais migraram para outras vizinhanças. Já se foram tarde. Impressionante. Portanto, aqui está um modelito supimpa da melhor, mais eficiente e mais barata tecnologia caseira que existe. E, ainda por cima, absolutamente limpa.
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