domingo, outubro 30, 2016

Raças, racismo, fascismo

Postei esse texto no Facebook há dois anos, em 27 de outubro de 2014, quando alguns idiotas andaram falando besteiras de caráter racial aqui nessa Terra Brasilis. Gosto muito dele, tanto que resolvi coloca-lo também aqui, com algumas pequenas edições, quase todas acréscimos.

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Sobre essa coisa de raças

Tenho vacas Jersey e Holandesas, variedades chamadas raças da espécie Bos taurus. Uma das holandesas anda pelos 30 litros de leite por dia. Há vacas holandesas que produzem muito mais por aí afora, fruto de genética apurada e alimentação de alto valor, tanto calórico e proteico quanto financeiro.

As Jersey produzem volumes menores, mas é um leite incomparavelmente mais rico em sólidos totais (proteínas, gordura, minerais), que é o que importa. Além disso, são bem menores que as holandesas, o que significa que comem menos e costumam ser mais lucrativas.


Para manter o rebanho produtivo e até aumentar a média de leite produzido, recorro à inseminação artificial. Compro sêmen de bons touros, tanto americanos e canadenses ou europeus como brasileiros, de forma a gerar bezerras geneticamente melhores que suas mães e, por extensão, na maioria dos casos, melhores produtoras.

Trocar material genético, introduzir novo material genético (refrescar o sangue, melhorar o sangue, no popular), é fundamental em qualquer criação comercial.


Nós, humanos, somos animais.
Nosso nome cientifico é Homo sapiens. O sapiens é meio tolo, presunçoso, arrogante, particularmente nos dias de hoje, mas... Vá lá, deixemos assim pela tradição.

Entre nós, humanos, o incesto é tabu.
Moral?
Sim. 
Moral e calcado no reconhecimento de que o cruzamento endogâmico leva à degenerescência da raça.

Tribos “primitivas” em África e Ásia tinham como costume guerrear com outras, mas não por territórios e sim por mulheres. Vale dizer, por material genético novo.
Instinto.


Pois bem, somos o que somos, a humanidade é o que é graças à evolução. 
E a evolução jamais prescindiu das trocas genéticas. 
Como exemplo, basta ver algumas famílias reais europeias, que, simplesmente, degeneraram fisicamente, fruto da endogamia. 

Então, vejam só, o sagrado e universal e constitucional direito de ir e vir é, também, uma necessidade biológica. 

Minha família é uma mestiçaiada danada!
Por parte de mãe, meus bisavós eram italianos, da Calábria, na época era algo como o Nordeste antigo, só que na Itália: muito pobre, não desenvolvido, com severos problemas climáticos, que forçavam as pessoas a procurarem novas terras para viver. 
Por parte de pai, uma bisavó era índia. Antes dela, porém, teve mais sangue indígena e, com toda certeza, também o negro.

Se dependesse dos “gênios” puristas que arrotam besteiras hoje contra nordestinos ou contra paulistas, tanto de um lado como de outro, assim como contra negros ou orientais, contra europeus ou contra índios, eu mesmo não existiria, pois vê lá que calabreses miseráveis e famintos poderiam vir para esse paraíso! 


Sem os imigrantes, os Estados Unidos da América seria apenas mais um país grande, talvez um pouco mais rico que a gente. Muito da grandeza e riqueza americana é devida aos imigrantes, sem falar que os próprios wasps nada mais são que descendentes de ingleses, escoceses e irlandeses muito pobres ou perseguidos pela religião.

Vamos entender de uma vez por todas que todo e qualquer preconceito é estúpido ao extremo!
Que somos todos rigorosamente irmãos, biologicamente falando.
Todos nós temos a África no sangue, o que é muito fácil de ver pelas análises mitocondriais. 

A África é nossa terra ancestral.

E sem o intercâmbio genético proporcionado pelo ir e vir do comércio, pelas guerras, pelas migrações para fugir da fome, da peste... Para fugir do deus oficial de plantão, do que quer que seja, enfim, nada seríamos.

Estaríamos extintos.

Ou teríamos regredido a um estágio inferior àquele em que hoje estão os chimpanzés.

Nordestinos são iguaizinhos a qualquer um do Sul ou do Sudeste ou da Patagônia. Claro, há que descontar o jeito de falar de cada um, o que não é diferença e sim variação do mesmo.
E nós, paulistas, também somos idênticos aos nordestinos.
Nem melhores, nem piores.

Até os fascistas, ou fachistas, como diz aquela senhora plagiadora do partido que se diz de quem trabalha, são iguais a todos nós.
Pasmem! – até a cabecinha deles é semelhante, só que mal ocupada, mal trabalhada.

E mais: fascista é fascista, diga-se ele de direita ou de esquerda. É tudo igual.





quinta-feira, outubro 27, 2016

Frases de Nelson Rodrigues



Nunca pensei em escrever um post como este, mas, lendo no Facebook uma frase atribuída a essa figura realmente ímpar em nossa literatura, teatro e jornalismo, resolvi conferir se a dita cuja era mesmo de sua lavra. Era. A pesquisa, porém, tomou-me bom tempo, todo ele dedicado a ler uma enorme quantidade de frases, uma mais interessante que a outra.

Bom, aqui vou pobremente parodiar o mestre, mas, paciência: a uma frase não basta ser bonita ou sonora, divertida, irônica ou mesmo inteligente, ela precisa ser interessante. E as frases que se seguem são um monte de coisas, mas, acredito, são acima de tudo interessantes, despertam em nós, leitores, a vontade ou, melhor ainda, a necessidade de pensar a respeito do que exprimem.

Em alguns momentos vocês depararão com trechos em itálico. São comentários meus a respeito da frase ou de uma situação a ela ligada.

Divirtam-se!

...   ...   ...   ...   ...   ...


Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta.

Foi justamente essa primeira frase – primeira aqui, pois no material de consulta ela estava lá pro meio... – que despertou-me para escrever este post.



Não reparem que eu misture os tratamentos de "tu" e "você".
Não acredito em brasileiro sem erro de concordância.

O homem só é feliz pelo supérfluo. No comunismo, só se tem o essencial. Que coisa abominável e ridícula!

Eu vos digo que o melhor time é o Fluminense. E podem me dizer que os fatos provam o contrário, que eu vos respondo: pior para os fatos.

Essa frase é muito citada, mas sempre em seu trecho inicial. Seus usuários, por desconhecimento ou por não quererem citar o time do coração de Nelson, esquecem que ela foi criada para falar do Fluminense.



Ah, os nossos libertários! Bem os conheço, bem os conheço. Querem a própria liberdade! A dos outros, não. Que se dane a liberdade alheia. Berram contra todos os regimes de força, mas cada qual tem no bolso a sua ditadura.

Como são parecidos os radicais da esquerda e da direita. Dirá alguém que as intenções são dessemelhantes. Não. Mil vezes não. Um canalha é exatamente igual a outro canalha.

Caraca! Que frase precisa! Uso-a com muita frequência, mas somente sua primeira parte. Bem, na verdade eu uso o pensamento e não essa frase de Nelson Rodrigues, porque essa verdade eu aprendi sem necessidade de leitura, bastou-me a vivência política, bastou-me, simplesmente, acompanhar, de dentro de um partido ou pela leitura dos jornais, o desenrolar da política, mormente nos tempos presentes.

Hummmmmmmmm... É, o Nelson não usaria "caraca"... Paciência.



Não estarei insinuando nenhuma novidade se afirmar que nunca houve uma multidão inteligente.

Outro grande frasista, mas americano, o Henry Louis Mencken (que Paulo Francis citava com frequência), tem algo na linha: “Ninguém jamais perdeu dinheiro acreditando na mediocridade do americano.”



Na "mulher interessante", a beleza é secundária, irrelevante e, mesmo, indesejável. A beleza interessa nos primeiros quinze dias; e morre, em seguida, num insuportável tédio visual. Era preciso que alguém fosse, de mulher em mulher, anunciando: - "Ser bonita não interessa. Seja interessante!"

Fantástica, não é mesmo?
Então, as lindas que me perdoem, mas ser interessante é fundamental!
Como? Ora, claro que sim! Linda e interessante consegue ser melhor, claro... Pelos primeiros 15 dias. Hahahahahahahaha...



A burrice é diferente da ignorância. A ignorância é o desconhecimento dos fatos e das possibilidades. A burrice é uma força da natureza.

Não há ninguém mais bobo do que um esquerdista sincero. Ele não sabe nada. Apenas aceita o que meia dúzia de imbecis lhe dão para dizer.

O casamento é o lugar em que mais se tem solidão, 
sem nenhuma privacidade.

A vaia é o aplauso dos descontentes.

A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.

O homem começa a ser homem depois dos instintos e contra os instintos.

O Natal já foi festa, já foi um profundo gesto de amor. Hoje, o Natal é um orçamento.

Na vida, o importante é fracassar.

Hummmmmmmmmm... Diria que consegui um MBA nessa matéria.
Alguns dizem que sou, na verdade, um PhD.



A ideologia que "absolve e justifica os canalhas" é apenas o ópio dos intelectuais.

Só o inimigo não trai nunca.

Invejo a burrice, porque é eterna.

Deus está nas coincidências.

Nem todas mulheres gostam de apanhar, só as normais.

Como fazer uma coletânea do Nelson e deixar fora justamente essa?
Sem chance.



Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos.

Ah, se Nelson vivo fosse nesses tempos presentes viveria estarrecido com a “sem gracice” de nosso futebol e de seus críticos, todos loucos de vontade em transforma-lo num simples videogame.



Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe.

O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da inexperiência.

O pudor é a mais afrodisíaca das virtudes.

O brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade.

A liberdade é mais importante do que o pão.

O sábado é uma ilusão.

O amor entre marido e mulher é uma grossa bandalheira. É degradante que um homem deseje a mãe de seus próprios filhos.

A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem.

Ser bonita não interessa. Seja interessante!

Parte II, digamos.



Amar é dar razão a quem não tem.

Convém não facilitar com os bons, convém não provocar os puros. Há no ser humano, e ainda nos melhores, uma série de ferocidades adormecidas. O importante é não acordá-las.

Toda a unanimidade é burra.

A beleza interessa nos primeiros quinze dias; e morre, em seguida, num insuportável tédio visual.

Parte II, digamos. É muito comum a frase completa ser desmembrada, como vimos.



Nada mais cretino e mais cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem.

Toda unanimidade é burra.
Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.
Aqui ela está completa.



A televisão matou a janela.

O brasileiro é um feriado.

O socialismo é uma maneira facílima de ser intelectual sem ligar duas ideias.


quarta-feira, outubro 05, 2016

Grandes e inesquecíveis frases da “Presidenta” D.V. Rousseff



D. V. Rousseff fez uma das piores presidências da história do Brasil, notadamente em seu segundo período, encurtado graças ao seu impeachment.
O PIB despencou, a inflação disparou e atingiu, novamente, a tenebrosa marca dos dois dígitos.
O país andou para trás em todas as áreas, exceção feita, uma vez mais e como sempre, desde os anos 80, à agricultura.
Difícil apontar algum legado de Rousseff, mesmo esmiuçando seus atos e números do país.
Foi, em síntese, uma gestão catastrófica, que pode ter como símbolo a humilhante goleada por 7x1 sofrida pela Seleção Brasileira, em pleno Mineirão, nas semifinais da Copa do Mundo de 2014.

Há, porém, uma área em que a Sra. Rousseff destacou-se e atingiu um nível excepcional, tanto que atingiu o nível de “mito”, algo que merece ser registrado e passado para a história: sua fantástica incapacidade de transmitir uma ideia, a menos que laboriosamente lida no teleprompter.
Essa incapacidade gerou frases – ou algo parecido – que ficaram famosas.

Uma das mais fantásticas, sem dúvida, e verdadeiramente hors concours, foi essa:

“Então, aqui, hoje, eu tô saudando… eu tô saudando a mandioca. Acho uma das maiores conquistas do Brasil... Nós tamo comungando a mandioca com o milho, e certamente nós teremos uma série de outros produtos que foram essenciais para o desenvolvimento da civilização humana ao longo dos séculos... Pra mim essa bola é um símbolo da nossa evolução. Quando nós criamos uma bola dessas, nós nos transformamos em Homo sapiens...  Ou Mulheres sapiens.“



Essa sequência de non sense ou... ou... ou sei lá o quê, foi proferida na cerimônia de abertura dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas. Há vídeos na internet com acesso muito fácil,

Ela ao menos teve o bom senso de não chamar os atletas de Indios sapiens... Ou, mais provável, não lembrou a tempo.

Vamos às 18 frases e trechos selecionados. Boa diversão, se bem que tudo isso foi para chorar.


18º lugar

“Eu sempre escuto os prefeitos. Por que é que eu escuto os prefeitos?
Porque é lá que está a população do país, ninguém mora na União,
ninguém mora… “Onde você mora?” “Ah, eu moro no Federal”.


17º lugar

“A única área que eu acho, que vai exigir muita atenção nossa, e aí eu
já aventei a hipótese de até criar um ministério, é na área de… Na
área… Eu diria assim, como uma espécie de analogia com o que acontece
na área agrícola.”


16º lugar

“A mulher abre o negócio, tem seus filhos, cria os filhos e se
sustenta, tudo isso abrindo o negócio.”


15º lugar

“A Zona Franca de Manaus, ela está numa região. Ela é o centro dela
porque ela é a capital da Amazônia.”


14º lugar

“Vamos dar prioridade a segregar a via de transporte. Segregar via de
transportes significa o seguinte: ou você faz metrô, porque o metrô…
porque o metrô, segregar é o seguinte, não pode ninguém cruzar rua,
ninguém pode cruzar a rua, não pode ter sinal de trânsito, é essa a
ideia do metrô. Ele vai por baixo, ou ele vai pela superfície, que é o
VLT, que é um veículo leve sobre trilho. Ele vai por cima, ele para de
estação em estação, não tem travessia e não tem sinal de trânsito,
essa é a ideia do sistema de trilho.”


13º lugar

“Tudo o que as pessoas que estão pleiteando a Presidência da República
querem é ser presidente.”


12º lugar

“Eu vi. Você veja… Eu já vi, parei de ver. Voltei a ver e acho que o
Neymar e o Ganso têm essa capacidade de fazer a gente olhar.”


11º lugar
“Eu quero adentrar pela questão da inflação, e dizer a
vocês que a inflação foi uma conquista desses 10 últimos anos do
governo do presidente Lula e do meu governo.”


10º lugar

“Eu também vou falar… Eu vou falar pouco. Vou explicar por quê: todo
mundo, antes de mim, disse que ia falar pouco, não é? E aí, tinha uma
senhora ali, na frente, que falou o que todos nós estamos sentindo.
Ela disse assim: “Eu estou com fome”. E eu vou levar em consideração
ela, que falou uma coisa que todo mundo está pensando, mas não está
falando.”


9º lugar

“A autossuficiência do Brasil sempre foi insuficiente.”


8º lugar

“Em Portugal, o desemprego beira 20%. Ou seja, 1 em cada 4 portugueses
estão desempregados.”


7º lugar

“Primeiro, eu queria te dizer que eu tenho muito respeito pelo ET de
Varginha. E eu sei que aqui, quem não viu conhece alguém que viu, ou
tem alguém na família que viu, mas de qualquer jeito eu começo dizendo
que esse respeito pelo ET de Varginha está garantido.”


6º lugar

“Em Vidas Secas está retratado todo problema da miséria, da pobreza,
da saída das pessoas do Nordeste para o Brasil.”


5º lugar

“O meio ambiente é sem dúvida nenhuma uma ameaça ao desenvolvimento
sustentável.”


4º lugar

“Eu quero, então, voltar aonde eu comecei. Eu vou falar agora que aqui
tem 37 municípios. Eu vou ler os nomes dos municípios, porque eu acho
importante que cada um de vocês possam (sic) se identificar aqui
dentro e, por isso… Eu ia ler os nomes, não vou mais. Por que não vou
mais? Eu não estou achando os nomes. Logo, não posso lê-los.”


3º lugar

“Eu ontem disse pro presidente Obama que era claro que ele sabia que
depois que a pasta de dente sai do dentifrício ela dificilmente volta
pra dentro do dentifrício. Então que a gente tinha de levar isso em
conta. E ele me disse, me respondeu que ele faria todo esforço
político para que essa pasta de dente pelo menos não ficasse solta por
aí e voltasse uma parte pra dentro do dentifrício.”


2º lugar

“Eu estou muito feliz de estar aqui em Bauru. O prefeito me disse que
eu sou, entre os presidentes, nos últimos tempos, uma das presidentes,
ou presidentes, que esteve aqui em Bauru.”


E, finalmente, o 1º lugar, primeiríssimo lugar!

“Se hoje é o dia das crianças, ontem eu disse que criança… O dia da
criança é dia da mãe, do pai e das professoras, mas também é o dia dos
animais, sempre que você olha uma criança, há sempre uma figura
oculta, que é um cachorro atrás."



  

terça-feira, outubro 04, 2016

Uma igreja e a paz no meio da estrada


Estava viajando sozinho, pensando na vida, o que, naquela fase, naquele momento, naquela viagem, significava estar pensando nas muitas dificuldades e no pouco dinheiro para enfrenta-las. Estava tenso e meu pé pesava sobre o acelerador, sem o prazer de deixar o carro devorar quilômetros e mais quilômetros, saboreando a velocidade e a passagem rápida das paisagens.

A imagem foi fugaz, até pela velocidade e a atenção voltada para a pista. Hoje, o comum é dizer que minha atenção estava focada na pista. Ah, modismos...

De volta à viagem... Uma fração de segundo foi o suficiente para atingir meus neurônios: a porta da igreja estava aberta.
Sim, na beira da estrada havia uma igreja, há ainda, continua lá resistindo ao tempo e à estrada. Uma igreja pequena, pouco mais que uma capela. Meu olhar registrou que a porta estava aberta e não sei, não faço ideia de como ou porque isso ocorreu.

Em outras poucas frações de segundos, muitas coisas aconteceram, em sucessão...
Meu olhar foi para o espelho retrovisor, meu pé saiu do acelerador para o freio, a mão esquerda sinalizou que eu ia para o acostamento e a direita reduziu a marcha do carro... Já no acostamento, com a estrada ainda deserta atrás, engatei a marcha-à-ré e, de forma impressionante para quem está acostumado a pensar e planejar, vi-me parando numa sombra ao lado da igrejinha.

Cresci e fui criado como católico... De boca, nunca de prática. Confessei-me, sei lá, meia dúzia de vezes, todas elas durante o catecismo que antecedeu à minha primeira – e única – comunhão. Missas? Raras vezes, sempre por obrigação. 
Tive sorte: minha família era meio relaxada com relação à religião, mas não com relação aos princípios religiosos que, ao fim e ao cabo, são princípios de bem viver em sociedade, princípios típicos de civilização. 
Comportei-me da mesma forma com meus filhos, criados dentro dessa visão ampla e generosa do catolicismo. 
Bom... Generosa demais, talvez, o que já é outra história. 
Digo tudo isso para que vocês entendam a minha perplexidade com esses atos todos, que culminaram com minha entrada na pequena igreja.


A penumbra e o frescor foram um bálsamo, depois do calor e da luminosidade intensa da estrada. Tão bom quanto e até melhor que isso tudo era o silêncio...

Sentei-me...

Algum tempo passou, alguns minutos, pouco mais que dez, provavelmente.

O que pensei? Não lembro, não faço a menor ideia!


Se rezei? Não, não rezei.

Apenas fiquei lá, quieto, sentado, pensando em alguma coisa ou em nada, relaxando, descansando, acalmando...


Bom, hora de pegar estrada, vamos nessa, pensei e levantei do banco. 
Na saída estava um pote para receber doações. Peguei algum dinheiro e fui coloca-lo no pote, mas... a “boca” dele estava fechada.

Instantes depois, saindo, deparei com uma pessoa, um homem, entrando com algumas coisas nos braços. Cumprimentou-me, respondi e perguntei sobre o pote. Queria doar algum dinheiro, como poderia?
Ele disse-me algo como “doe quando voltar”, durante a missa, porque fora da missa o pote ficava lacrado por causa dos ladrões.

Fui embora. Calmo, tranquilo, aquele estado que não é de felicidade e nem de tristeza, muito menos de tensão. 

Em paz comigo mesmo.

Meu pé estava incrivelmente leve sobre o acelerador e assim permaneceu até o final da viagem.



Post scriptum: não, não vou explicar, não vou teorizar, não vou fazer explanação alguma a respeito. Cada um faça a sua própria.

Post scriptum 2: a foto não é daquela igreja, mas lembra um pouco, até pelas árvores.


quinta-feira, setembro 01, 2016

Noite estrelada, Marte na cabeça



Noite estrelada, Marte na cabeça

Marte e Vênus continuam alinhados, mas já um pouco mais distante, mesmo assim, um pouco mais cedo, na boca da noite, estavam bonitos de ver e ficar pensando a respeito.

Sob as copas das árvores ao longo do carreador que leva à porteira a escuridão é quase praticamente total nos primeiros minutos. Lentamente, os olhos vão se habituando e alguns contornos vagos aparecem. A céu aberto, a luz das estrelas já permite caminhar com mais velocidade e maior segurança.

É estranho caminhar sem o auxilio de luz para tudo.

Os cachorros, preguiçosos, ficaram deitados em seus panos e acolchoados, olhando pra mim e pensando: aonde ele vai, o que vai fazer, por que não está lá dentro nos seus panos?

As vacas estão deitadas, ruminando, talvez filosofando, talvez pensando sobre Marte... 

A noite está silenciosa, até um pouco estranha. Os únicos ruídos são dos insetos.


Fecho a porteira, bato o cadeado unindo as duas pontas da grossa corrente. Nesses tempos bicudos, a porteira trancada dá uma ilusória sensação de segurança, mas o ilusório é melhor que nada.


Volto pra casa sem ligar a lanterna, andando no escuro, pensando sobre Marte.

Não pensei em política, não pensei em futebol, não pensei em dinheiro & contas a pagar.
Pensei em Marte, pensei sobre estrelas, pensei sobre cavernas e fogueiras e de novo sobre o céu estrelado.

Como será a vista da Terra desde Marte?

Preciso ir fechar a porteira mais vezes.


segunda-feira, junho 13, 2016

Às Toneladas - A saída do ouro do Brasil para Portugal

Às toneladas

A descoberta do ouro alterou as relações econômicas na Colônia e enriqueceu a metrópole.

Angelo Alves Carrara
  • Mais do que um recurso natural. Mais do que um artigo de exportação. O que se descobriu em Minas, depois de dois séculos de colonização, foi fortuna em estado puro.

    Ao contrário do que ocorria com a produção de cana-de-açúcar no Nordeste, o metal extraído dos leitos dos rios mineiros não dependia da demanda internacional e suas oscilações de cotação: já vinha em forma de dinheiro, pronto para ser posto em circulação ali mesmo. O ouro em pó transformou-se imediatamente na principal moeda das Minas Gerais naquele final do século XVII. E era tão abundante que, embora quase sempre tivesse Portugal como destino, causou enorme impacto econômico e social também deste lado do Atlântico.

    Uma verdadeira corrida pelo ouro tomou de assalto a capitania até então pouco habitada. Levas de gente chegavam de toda parte atrás do sonho da riqueza imediata, disputando as margens dos rios para montar seus arraiais, muitas vezes com violência. A ganância movia todos, e era preciso aproveitar antes que o Estado decidisse impor regras e restrições de acesso àquela fortuna natural.

    Quase todo o ouro se encontrava em terrenos de aluvião – nas margens ou na foz dos rios, onde a erosão deposita cascalho, areia e argila. O sistema de extração era simples: ficava-se dentro dos ribeiros, com água até a cintura. Com uma bateia, lavavam-se as areias auríferas, até que os materiais mais leves ficassem na parte superior, de onde eram retirados. No fundo ficava o ouro, misturado a outros minerais. A época mais adequada para a atividade era o inverno, quando o nível da água dos rios estava mais baixo, o que permitia trabalhar melhor os leitos. O ouro assim extraído já vinha em pó ou em pepitas – não requeria, para se dissolver das rochas, o uso de mercúrio para formar amálgamas. Recém-retirado das bateias, podia ser usado como moeda.

    Dois grupos de trabalhadores se dedicavam à mineração: os escravos dos grandes proprietários e os trabalhadores livres, chamados de garimpeiros ou “faiscadores”. E se nos primeiros tempos da corrida do ouro a riqueza ficava com quem chegasse primeiro e defendesse melhor o seu quinhão, com o tempo a exploração gerou forte concentração de renda: o grosso ficava com os grandes proprietários, que se contavam nos dedos, enquanto os muitos “faiscadores” dividiam o resto.

    Em 1710, por exemplo, apenas cinco pessoas foram responsáveis por 47,65% de todo o ouro produzido na Intendência do Rio das Mortes. Um século depois, quando o volume extraído já minguava, a desigualdade ainda era regra: os cinco maiores produtores conseguiram quase 82 quilos de ouro – uma média de 16 quilos para cada um –, enquanto os 568 menores ficaram com menos de 184 quilos – média de 347 gramas para cada um. O minucioso censo feito em 1814 mostra ainda que havia 5.747 garimpeiros atuando na região. Juntos, eles produziram cerca de 413 quilos, o que rendeu a cada um, em média, 71 gramas.

    Embora importante para a economia colonial, era pequena a quantidade de pessoas envolvidas na mineração. A maior parte da população da capitania morava nos campos e vivia dos trabalhos agrícolas e pastoris. Enquanto isso, a extração de ouro, setor que gerava os mais valiosos rendimentos fiscais para a Coroa, mobilizava, no máximo, 5% dos moradores de Minas Gerais. E nem todos de modo exclusivo: muitos se dedicavam também à agricultura.

    Mesmo assim, a disponibilidade de uma enorme quantidade de moeda, distribuída por um número de pessoas bem maior do que até então se vira, explica o impacto que a mineração tinha sobre a economia local. Sem exagero, pode-se afirmar que o ouro estimulou a produção de gêneros de muitos setores da economia brasileira daquele século, especialmente a agricultura e a pecuária voltadas para o abastecimento interno.

    Em Minas, na contabilidade das lojas e vendas, ao lado dos réis (plural de real), aparecia a unidade monetária fundamental: a “oitava” de ouro – o equivalente a 3,586 gramas. A oitava, por sua vez, dividia-se em 32 frações: eram os “vinténs” de ouro. Cinco vinténs davam um “tostão”, e 20 vinténs completavam um “cruzado de ouro”. Quem acumulasse um quilo de ouro podia ter acesso a bens consideráveis. Este valor era suficiente para comprar 75 cabeças de gado ou 2.250 sacos de milho com cerca de 30 quilos cada um. Ou, ainda, para adquirir uma mercadoria muito valorizada na economia da época: um saudável escravo africano.

    O maior desafio do governo era a cobrança do “quinto” – 20% devido à Coroa, calculado em cima de qualquer quantidade de metal ou pedra preciosa extraída na Colônia. Após várias tentativas de se encontrar o sistema mais eficaz de cobrança, chegou-se finalmente ao método adotado a partir de 1751: foram instaladas quatro casas de fundição, nas sedes das quatro comarcas de Minas: Vila Rica, Rio das Mortes, Serro Frio e Sabará. Ficou, então, proibida a circulação do ouro em pó: nas casas de fundição, o metal ganhava a forma de barras e o carimbo real, com o devido desconto do quinto. A nova ordem também tabelou o preço do ouro. Ao entrar, em pó, nas casas de fundição, ele valia 1.200 réis a oitava (até então, costumava ser negociado por 1.500 réis). Ao sair, já “quintado”, seu valor era de 1.500 réis a oitava.

    Essa diferença gerava uma situação curiosa, detectada pelo barão Wilhelm Ludwig von Eschwege (1777-1855): a revolta contra o pagamento do quinto era atenuada. Eschwege veio ao Brasil em 1810, a convite do príncipe regente D. João VI, para compreender as causas do declínio da produção de ouro. Sabia-se que a cobrança do quinto gerava insatisfação entre os mineradores, que o qualificavam de “exorbitante”. Para surpresa do barão, no entanto, os produtores tinham a impressão de que seu prejuízo não era tão grande, justamente por causa da cotação mais alta da oitava quintada. A lógica era a seguinte: cinco oitavas de ouro em pó valiam 6 mil réis (1.200 x 5). Depois de fundidas, o proprietário recebia uma barra com apenas quatro oitavas, já que a quinta parte era deixada como pagamento do direito régio. Mas ele possuía os mesmos 6 mil réis, pois cada oitava em barra valia 1.500 réis (1.500 x 4 = 6 mil). Claro que melhor seria não pagar imposto algum, mas ao quinto “não podia resistir nenhum homem honesto”, argumentavam, segundo Eschwege.

    A queda da produção devia mesmo preocupar a Coroa. Afinal, no século do ouro, pela primeira vez a metrópole vira a Colônia operar em crescente superávit fiscal. Os ventos de bonança eram facilmente constatados nos portos, sobretudo no do Rio de Janeiro, de onde embarcava a maior parte do ouro enviado a Portugal e onde desembarcavam as mercadorias importadas do Reino. Entre 1700 e 1710, a arrecadação do imposto de importação (a “dízima da Alfândega”) no Rio saltou de 1,5 conto de réis (o equivalente a 1,5 milhão de réis) para quase 50 contos de réis. E não parou mais de crescer, acompanhando o aumento da produção de ouro. Como conseqüência deste fluxo de metal precioso, em 25 anos a cidade e capitania do Rio de Janeiro, até então deficitária do ponto de vista fiscal, passou a disputar com Salvador a segunda maior receita do Brasil, atrás apenas de Minas.

    Mas, afinal, será possível estimar a quantidade de ouro enviada para Portugal desde o descobrimento do metal até o encerramento das extrações? Graças aos estudos das últimas décadas, é possível, sim. Com base em relatórios de cônsules franceses em Lisboa, nos anos 1970 o historiador Virgílio Noya Pinto calculou a quantidade de ouro desembarcado em Lisboa somente de navios vindos do Brasil: foram mais de 529 toneladas entre 1697 e 1760. Já o pesquisador francês Michel Morineau, a partir de informações de gazetas holandesas, chegou a um total não muito diferente: cerca de 566 toneladas.

    Recentemente, as estatísticas sobre a produção de ouro no Brasil ganharam uma nova fonte: os “manifestos do 1% do ouro” na Casa da Moeda de Lisboa, cujos dados foram arduamente levantados pela historiadora portuguesa Rita de Sousa Martins, da Universidade Técnica de Lisboa (veja artigo na página 22). Os manifestos registram, para o período entre 1753 e 1801, um total de 279.838,29 quilos de ouro na Casa da Moeda de Lisboa. Aproximadamente 94% dessas quase 280 toneladas vinham de Minas Gerais (o restante, de Goiás, Mato Grosso e Bahia). No século XIX, a produção já minguava: entre 1801 e 1807, não passou de 14,5 toneladas, e dali em diante só fez decair.

    Arrendondando essas diferentes contas, pode-se afirmar que em todo o século XVIII o Brasil mandou para Portugal cerca de 800 toneladas de ouro. Imagine uma manada de cem elefantes de ouro maciço. Foi isso. Sem contar o que circulou de forma ilegal e o que ficou na Colônia, ornando suntuosas igrejas.

    O amarelo da bandeira faz jus à nossa História.

    ANGELO CARRARA é professor de História da Universidade Federal de Juiz de Fora e autor de Minas e currais: produção rural e mercado interno de Minas Gerais, 1674-1807. (Editora da UFJF, 2007).

    Saiba Mais:

    ESCHWEGE, Wilhelm von. Pluto brasiliensis. Belo Horizonte: Itatiaia, 1979.

    PINTO, Virgílio Noya. O ouro brasileiro e o comércio anglo-português. São Paulo: Nacional, 1979.

    VASCONCELOS, Diogo Pereira R de. Breve descrição geográfica, física e política da capitania de Minas Gerais. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1994.

sexta-feira, abril 15, 2016

A verdadeira história da Vale

Recebi o texto abaixo de um grande amigo, carioca há muito residente nas Geraes. Como não consegui contato com seu autor para colocar seu nome, vou deixá-lo, ao menos por enquanto, sem essa menção.
O texto é um pouco longo para esses tempos "tuiteros", mas é uma leitura preciosa e muito interessante. Não fiz nenhuma alteração, segue exatamente como está o original.

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A VERDADEIRA HISTÓRIA DA VALE

O rompimento das barragens em Minas Gerais provocou uma avalanche de publicações no sentido de tentar fazer a sociedade ver a tragédia como resultado do capitalismo, já que a Vale, controladora da Samarco, é apontada como uma empresa privada − privatizada por FHC!
Se considerarmos que um partido político é uma instituição privada, sim, a Vale foi privatizada. A Vale é do PT. A Samarco também.
O processo de tomada do controle da Vale pelo PT é muito bem descrito num dos capítulos livro Reinventando o Capitalismo de Estado, de Aldo Musacchio e Sergio Lazzarini.
Um resumo:
A privatização da Vale promovida por Fernando Henrique Cardoso em 1997 foi parcial. O governo vendeu pouco mais de 41% das ações da empresa para a Valepar, holding que na época era liderada pelo empresário Benjamin Steinbruck. Porém, o governo manteve o controle das golden shares, ações que lhe davam poder de decisão em vários assuntos, por exemplo, sobre os objetivos da empresa.
No ano de 2001, o conselho de administração da Vale aprovou a nomeação de Roger Agnelli como CEO da empresa. Um ano depois, a privatização foi concretizada com o BNDES vendendo 31,5% de sua participação. No entanto, no ano seguinte, 2003, início do governo Lula, o mesmo BNDES recomprou 1,5 bilhão em ações da empresa. Nesse mesmo ano, Lula apadrinhou a nomeação do ex-sindicalista e ex-vereador petista Sergio Rosa (hoje investigado pela Operação Lava Jato) como CEO do Previ, o fundo de pensão do Banco do Brasil.
Sob a liderança de Agnelli, a Vale deu um salto de produtividade, de rentabilidade, de admissão de funcionários e de pagamento de impostos e de royalties.
A partir de 2009, o grupo que reúne fundos de pensão de empresas estatais controlados pelo PT (Previ, Petros e Funcef) se utilizou da Litel, holding criada por eles mesmos, para assumir o controle da Valepar e por meio dela obter 49% das ações da Vale, o que somados aos 11,5% que já estavam nas mãos do BNDESPAR, braço de investimentos do BNDES, deu ao PT o controle sobre mais de 60% das ações da empresa.
Começou, então, a pressão de Lula sobre Agnelli para que a Vale fizesse mais investimentos no Brasil, principalmente na aquisição de siderúrgicas e na encomenda de navios, mesmo que os similares estrangeiros custassem a metade do preço.
Lula também tentou fazer um certo Eike Batista chegar à presidência da Vale. Não conseguindo, tentou substituir Agnelli por Sergio Rosa. Também não conseguiu.
A despeito das pressões, Agnelli continuou seus projetos na Vale, incluindo a encomenda de navios na China e na Coreia do Sul, o que enfureceu Lula. Em 2011, logo após a Vale registrar um lucro trimestral quase 300% acima do trimestre anterior, Agnelli foi demitido.  Seu sucessor e atual presidente, Murillo Ferreira, foi indicado por Lula – e até dois meses atrás, Ferreira também ocupava uma cadeira no conselho de administração da Petrobrás. Desde então, os rumos da Vale são ditados pelos interesses do PT.
Ignorando normas de licitação e do TCU, a mineradora firmou diversos contratos com empresas beneficiadas pelo programa de proteção e de incentivo à indústria nacional iniciado por Lula e que, obviamente, formava o grupo de financiadores (Odebrecht, por exemplo) de seu partido e de todos os movimentos que o apoiavam.
Não por acaso, desde então, a Vale vem registrando perdas. Hoje, a Litel tem, sozinha, 52,5% das ações da Vale.
Em tempo: Todos os setores que foram beneficiados pelo protecionismo do PT estão hoje em colapso e todos os fundos de pensão de empresas estatais controlados por petistas estão deficitários.
Três perguntas:
O grupo que detém o controle acionário da Vale não seria o maior responsável pelos projetos de suas empresas?
O governo não foi negligente na concessão de alvarás e na fiscalização?
O PT, que controla a Vale, que governa Minas Gerais e o Brasil não tem nada, absolutamente nada a ver com isso?
E assim, mais uma vez, nos deparamos com a razão de o estado não poder participar do mercado. Quando participa, o próprio estado se torna o mais interessado em abafar as responsabilidades em caso de incompetência e de negligência, deixando a sociedade completamente desamparada institucionalmente. As pessoas que perderam suas casas, suas fontes de renda e familiares na tragédia com toda certeza ouvirão muitas promessas do governo e talvez recebam algum dinheiro, mas a probabilidade é de que não verão ninguém sendo punido.
A realidade que deveria ser vista pela sociedade é que a maioria das grandes empresas brasileiras está sob influência direta ou indireta do governo, essas empresas estão sujeitas aos interesses de militantes do PT e de políticos de sua base aliada que geram lucros para si mesmos e prejuízos para a sociedade. Os bancos, os fundos de pensão e as agências regulatórias do estado não passam de instrumentos políticos. Para saber quais são as empresas que estão sob o controle do PT, basta checar seus quadros acionários, os benefícios fiscais, a quantidade de dinheiro que receberam do BNDES e os valores que doaram aos partidos nos últimos anos.
Se estivéssemos num país regido pelo livre mercado, a Samarco e a Vale seriam empresas realmente privadas e suas responsabilidades nesse acidente seriam realmente levantadas, julgadas e punidas, já que o governo não teria interesse em livrá-las do peso da justiça. Se fossem privadas, o estado iria com toda sua força contra as empresas. Se fossem privadas, alguém iria para a cadeia.
Como se fosse pouco mortes e prejuízos ambientais, a tragédia também levará consigo muitos bilhões de reais investidos pelos fundos de pensão que controlam as duas empresas, ou seja: os prejuízos serão estendidos aos funcionários da Caixa, da Petrobrás e do Banco do Brasil.
Um acidente como o ocorrido em Minas poderia ter acontecido com qualquer empresa e em qualquer lugar do mundo, como já ocorreu tantas vezes, porém, o caso em questão evidencia mais uma vez que a participação do Estado na Economia potencializa a impunidade. Ninguém será punido pela tragédia em Minas, assim como ninguém foi punido pelos acidentes nas plataformas da Petrobrás nem pelos prejuízos sociais e ambientais provocados pela falência das empresas de Eike Batista, o ilustre filho bastardo das políticas "desenvolvimentistas" do PT.
Para evitar problemas, dias depois da tragédia em Minas, Dilma assinou o decreto 8572 que diz que "...considera-se também como natural o desastre decorrente do rompimento ou colapso de barragens que ocasione movimento de massa, com danos a unidades residenciais". Com uma simples canetada, Dilma tirou da Samarco e da Vale toda a responsabilidade sobre a tragédia.

sábado, abril 02, 2016

As bundas dos cavalos da Roma antiga e as viagens espaciais


Nem sempre prestamos atenção ou damos valor ao passado. Nosso dia-a-dia é mais frenético do que jamais calhou de ser e mal temos tempo para o presente. Como o passado são águas passadas e o futuro promete ser mais frenético do que é o presente, que já não deixa tempo para nada... Adeus passado?

O passado, porém, é muito importante, ele é fundamental para sabermos quem somos. Existimos porque temos passado, o que pode parecer óbvio ou redundante ou até tolo, mas não é. Basta parar um pouco e pensar.

Ok, mas isso aqui não é texto de autoajuda ou coisa que o valha, é só uma crônica para o fim de semana. Na verdade, pretendo contar para vocês uma curiosidade que, sinceramente, achei fantástica quando dela tomei conhecimento há muitos anos. Nunca mais a esqueci e vez ou outra releio, mudo uma palavrinha ou outra e passo adiante novamente. Não será de estranhar, portanto, se um ou dois dos que agora me leem já a conhecerem.
Vamos lá.


Bitolas, bundas equinas e viagens espaciais

A bitola padrão (distância entre os trilhos) das estradas de ferro
americanas é de 4 pés e 8 1/2 polegadas. É um número bem esquisito.
E por que essa bitola é usada?

Porque essa é a bitola que é usada na Inglaterra, e as ferrovias americanas
foram construídas por ingleses, que simplesmente fizeram as ferrovias americanas iguais às inglesas.
Ok, mas por que os ingleses usam essa bitola?

Porque as primeiras linhas férreas foram construídas pelos engenheiros que
fizeram os primeiros bondes, e foi essa a bitola usada, a mesma dos bondes.
Certo, mas então por que era essa a bitola?

Porque o pessoal que construiu os bondes usava os mesmos gabaritos e
ferramentas usados na construção das diligências, e elas tinham essa bitola.
Tá bom, entendi, mas por que as diligências usavam essa bitola?

Porque se usassem qualquer outra bitola, suas rodas quebrariam nos sulcos
das estradas inglesas, que têm seus sulcos muito uniformemente cavados.
Hummmm... Mas por que as estradas inglesas têm sulcos tão uniformes?

Porque as estradas inglesas, como a maioria das velhas estradas
europeias, foram construídas pelos romanos para a movimentação de suas
tropas. E as carroças e as bigas romanas tinham sempre a mesma bitola justamente para não quebrarem nos sulcos cavados nas estradas.

Chegamos, então, finalmente, à resposta da pergunta original.

A bitola padrão das ferrovias americanas é de 4 pés e 8 ½  polegadas porque deriva das especificações originais das carroças militares do exército romano. 
E essas carroças foram projetadas para a largura de duas bundas de cavalos, lado a lado, que as tracionavam.
Portanto, 4 pés e 8 ½ polegadas era a medida padrão dos quartos traseiros dos cavalos de tiro romanos.




Veja, agora, o que isso veio a provocar muitos séculos mais tarde.


Quando você vê o Space Shuttle em sua base de lançamento, há sempre dois
foguetes propulsores auxiliares presos a ele perto dos tanques de
combustível, chamados de SRB (Solid Rocket Booster).



Os SRBs são feitos pela Thiokol, numa fábrica em Utah.

O projeto original dos engenheiros era para fazê-los um pouco mais gordos, com uma aerodinâmica diferente. Entretanto, de Utah para Cabo Canaveral, na Florida, eles deveriam ser transportados de trem. Como existem vários túneis nessa rota, e esses túneis foram construídos para comportarem um
trem, cuja largura é determinada pela bitola da ferrovia, que tem, é claro, aproximadamente a mesma largura da bitola das ferrovias inglesas que, por sua vez...

Chegamos à conclusão que o desenvolvimento de um dos maiores projetos
de transporte da humanidade foi originalmente determinado pela largura
de duas bundas de cavalos de tiro romanos, lado a lado, puxando uma carroça.

Bem-vindos ao futuro.