quinta-feira, dezembro 24, 2015

Meu cartão de Natal e Ano Novo

Meu cartão de Natal de 2015

Feliz Natal!
Feliz e esperançoso 2016!


Esse é o meu "cartão de Natal".
Não tem Papai Noel, não tem a "árvore", não tem renas.
Tem a capa de Veja e nela a foto de Sergio Moro.


Um homem comum, como somos a maioria.
Não é o Superman ou Batman ou qualquer coisa parecida.
É, acima de tudo, um profissional competente.
Infelizmente, pelo que é o Brasil, sou obrigado a completar com mais um adjetivo: é honesto.
Infelizmente porque, numa nação séria como seremos um dia, honestidade será algo meramente incorporado, tal como o ato de respirar. Hoje, porém, para diferenciar e explicar, precisamos dizer de muita gente: É honesto.


Quando coloco nesse "cartão de Natal" a foto (até meio feia) de Moro, a imagem que tenho é de meu neto Felipe e minha neta Isadora.


Porque esse brasileiro da foto, o Sergio Moro, pode ter salvado, e salvou, 2015, mas o mais importante é que o seu trabalho e do grupo de profissionais da Justiça e da Polícia Federal junto dele, estão salvando o futuro desse país.



Somente o trabalho deles, porém, não é e não será o bastante para termos um futuro digno desse nome e para termos um país no qual as pessoas tenham vontade de viver e não, como hoje, vontade de abandonar.


Pense com muito cuidado quando for eleger o vereador e o prefeito de sua cidade. Não se omita. Pense. Vote.


Vote localmente pensando nacionalmente.


Escolha um partido. Escolha candidatos.
Não dê ouvidos à propaganda fascista – por parte dos inteligentes e bem informados – e burra – por parte de quem apenas repete mantras idiotas – de que nenhum político "presta", nenhum partido "presta".


Isso é mentira!


Para não deixar mais irritados muitos que isso dizem e não são fascistas ou burros, mas são, sim, inocentes úteis a serviço do status quo, concordo que há muitos políticos vagabundos e ladrões em todos os partidos, mas "estranhamente" agrupados como um enorme cardume de rêmoras ao redor de alguns partidos-tubarões (rêmoras não formam cardumes, mas os rêmoras da política brasileira formam). Na natureza as rêmoras são comensalistas, na política brasileira não passam de vis parasitas.


Podem também esses políticos, ser chamados de carrapatos, esse ácaro vagabundo que atormenta as vacas, sugando seu sangue, vivendo de seu sangue, sem para elas em nada contribuir.
Ingerem o sangue, engordam, ficam enormes, cheios (cheias) de ovos, deixam-se cair no chão e botam seus milhares de ovos que gerarão novos milhares de parasitas à custa de quem trabalha.


Portanto, por favor, não para mim, mas para seus descendentes, pense.
Vote conscientemente em 2016. E em 2018. E sempre.


Respeito, embora discorde ideologicamente, quem acredita na esquerda, como eu mesmo o fiz durante parte de minha vida.
Para quem assim ainda pensa, vale tudo que escrevi acima.
Nem todos os membros desse partido que se assenhoreou do poder junto ao que de pior existe no "empresariado" nacional, são da mesma estirpe vil e criminosa que vemos nas lideranças e direções. Se você acredita, limpe essa escumalha. Depois, mais adiante, num Brasil melhor, voltaremos a nos encontrar nas urnas, democraticamente.



Democracia não é somente voto.
O voto é antes uma ferramenta da democracia do que sua razão de ser.
Portanto, tampouco existe democracia sem voto.


E tudo isso pressupõe a necessidade de partidos políticos.
Não faça com a política e os partidos o mesmo que você faz com as reuniões de seu condomínio.
Compareça.
Participe.
Influa.
Eventualmente, por que não, seja o síndico. Entre para o Conselho. Atue.


Aja localmente pensando nacionalmente.

Aja em pequena escala atuando globalmente.

Quanto mais longe você estiver dos partidos e da política, mais "os caras" – quaisquer que sejam as bandeiras partidárias – estarão à vontade.
Claro, você não estará lá para contrariá-los, para apresentar uma alternativa.
Você e muitos milhões.
Mesmo que você não entre num partido (hoje eu mesmo estou afastado de um partido, situação que talvez mude nesse 2016), atue. Leia. Ouça. Veja. Converse. Debata. Exponha o que pensa.
Converse por e-mail com o seu deputado e com outros deputados.
Pressione!
Acredite, mesmo que o deputado pessoalmente não leia, um assessor lê e transmite para ele. Isso também é participar. E não escreva só para o seu deputado ou do seu partido. Escreva para qualquer um que você, num certo momento, julgar necessário.
É seu direito e, diria eu, é seu dever como cidadão.

Então, é isso.

Feliz Natal.
Feliz 2016.
Vamos trabalhar para que 2016 seja o primeiro ano de um novo Brasil.

Mais de acordo com nossos sonhos ou a caminho de nossos sonhos.


segunda-feira, novembro 30, 2015

313,0 mm – Novembro foi uma água só


Às 22h10 fui até o pluviômetro. Marcava mais 32,0 mm depois dos 35,0 da manhã e madrugada.
Faltando ainda, naquele momento, pouco menos de 2 horas para acabar o dia, tínhamos um total de 67,0 mm de chuva. No acumulado dos 30 dias o número do título: 313,0 mm.
Continua chovendo, mas essa chuva de agora vai entrar para a conta de dezembro. Bom, a menos que a Brahma continue berrando atrás do bezerro que nasceu no final da tarde. O infeliz parece ter um gosto especial em passar por baixo do fio que divide o piquete e se afastar da mãe, que berra. Aí, lá vai o marmitão embaixo de chuva tocar o bichinho pra perto da mãe novamente. Haja paciência... Tudo porque ela adiantou o parto 5 dias, pegando-nos de surpresa, e não pôde ser levada para o que chamamos piquete-maternidade.
Por que não?
Porque desde sua cria anterior, a Betina, ainda em janeiro desse ano, a Brahma mudou o comportamento e passou a ficar agressiva quando tentamos nos aproximar do bezerro ou bezerra para cuidar do umbigo e ajuda-lo na primeira mamada. Com isso, e para não estressá-la com corda e força e o escarcéu correspondente, optamos por deixa-la no pasto. Péssima decisão, com toda essa chuva que não imaginávamos.
Essa mudança comportamental dela foi uma coisa muito estranha, para a qual não encontramos explicação, pois as vacas Jersey e Holandesas, como é o caso dela, há mais de século ou século e meio não oferecem resistência alguma ao manejo, mesmo recém-paridas. Por conta dessas idas & vindas ao pasto já tomei dois banhos extras. Pensei que fosse tomar mais um agora, mas não foi preciso. Meno male.

Sim, eu sei, eu reclamei terrivelmente da seca.
Só há uma coisa pior que a seca para um produtor rural: o excesso de chuvas.
É, não somos nós que somos complicados, é a nossa atividade.
Sem chuva, sem comida.
Com chuva, muita comida.
Com chuva em excesso, comida de menos ou nenhuma.
Também precisamos de luz e calor, o que fica por conta do Sol. A luz para a fotossíntese, o milagroso mecanismo que permite a existência de vida nesse planetinha azul. Calor para que nossas plantas, todas subtropicais ou tropicais, se desenvolvam.

O que são 67 mm (a caminho dos 70 somente hoje) de chuva?
Dias atrás, durante 30 minutos choveu um total de 58 mm em São Carlos.
Ruas e avenidas foram inundadas, a ponto de carros se transformarem em desajeitos jet skis sem direção.
A marcação de 1 mm – um milímetro – de  chuva, significa a queda de 1 litro de água em uma área de um metro quadrado – 1 m² (um quadrado com 1 metro de lado).
Em um hectare, unidade padrão para áreas agrícolas, que tem 10.000 m² de área, uma chuva de 1 mm significa que 10.000 litros de água caíram sobre aquela área. Aqui no sítio hoje, até as 22h10, tínhamos um total de 670.000 litros de chuva por hectare, ou seja, 67 litros por metro quadrado.
Nesse mês de novembro que ora se encerra, o total de água por m² foi de 313 litros.
Cada um dos 12 hectares do Sítio das Macaúbas recebeu a bagatela de 3.130.000 litros de água durante o mês. Digamos, como se 313 caminhões-tanque de 10.000 litros viessem para cá e espalhassem sua carga em cada hectare. Ou seja, para o sítio inteiro... quase 4.000 caminhões-tanque de 10.000 litros cada.

Tal como aconteceu em São Carlos, o problema está no cruzamento de volume com tempo. Ora, 58 mm em meia hora é uma tromba-d’água! Já os 67 mm em cerca de 20 horas é chuva demais, encheção de saco demais, mas não configura uma situação de problemas graves. A menos que haja ventos e hoje teve. Um dos galhos de uma das lofanteras do nosso gramado caiu e por meio metro não caiu sobre a varanda-garagem.
Que beleza...

Precisamos do Sol agora. Vários dias seguidos, para o capim crescer absurdamente, para os animais voltarem a ficar confortáveis, para o barro secar, para a vida voltar a um ritmo mais normal e, também para nós, humanos, mais confortável.

quarta-feira, outubro 21, 2015

Chuva de presente com direito a efeitos especiais



A chuva chegou. Tarde, atrasada, em pleno dia 20 de outubro, mas chegou.

Depois de um setembro atípico, com 125,0 mm até o dia 13, parou de chover. Para o resto do mês já estava bom, afinal, outubro estava logo ali e com ele boas chuvas.

As previsões e as esperanças não se concretizaram. Essa chuva, com muita pirotecnia e efeitos sonoros assustadores, começou tão logo caiu a noite. Nesse momento, completávamos 37 longos e tenebrosos dias sem uma gota de chuva aqui no sítio. 

Novamente, não estaria tão ruim graças às chuvas de setembro, mas o calor foi excessivo, absurdo, por toda parte. Há poucos dias, o Rio de Janeiro registrou 43,8 graus centígrados, o terceiro dia mais quente em 100 anos. Nesse mesmo dia, tivemos aqui assustadores 40,0 graus. 


Como tudo que está ruim pode ficar ainda pior, os ventos dos últimos dias secaram tudo que ainda restava de umidade nas camadas superiores do solo. Ventos secos, quentes, provocando enorme desconforto, fisicamente depressores e espiritualmente deprimentes.

Muitos vizinhos plantaram milho para produzir silagem logo no início do mês, alguns, corajosos, até no final de setembro. As previsões dos institutos prometiam chuvas dentro dos primeiros dez dias do mês. Não vieram. 
O milho nasceu bonito, vistoso e encheu a todos de esperança. 
Sem chuvas e com as altas temperaturas, a lavoura começou a sentir. 
Pelas manhãs, nas primeiras horas de cada dia, as pequenas plantas estavam viçosas, as folhas brilhando ao Sol. Já no meio do dia, porém, o cenário mudava e ao começar a tarde, o viço já estava perdido e as plantas murchavam. 
No dia seguinte, porém, novamente amanheciam bonitas, novamente davam esperança, para logo depois definharem. 
Enquanto as plantas se recuperam, a lavoura está viva e é viável, mas, chega um momento em que elas amanhecem murchas. 
É o triste sinal de que a lavoura está morta, não tem mais salvação, um novo plantio precisa ser feito. 
Novas despesas, grandes prejuízos.


Vivemos nosso drama aqui no sítio na mesma linha. 
Os piquetes de capins Mombaça e Tanzânia começaram a crescer com as chuvas de setembro. Já sem comida, tomei a decisão de soltar as vacas nos piquetes, economizando dinheiro e, principalmente, economizando feno. 
Porque, finalmente, o feno de nosso fornecedor acabara. 
Porque também lá o capim que era para ser fenado... acabara.


As vacas entraram em piquetes com um terço ou menos da altura ideal para pastejo. Para aumentar a oferta de comida, abrimos dois piquetes por noite ao invés de um.
Assim se passarem cerca de 10 dias, quando novamente bateu o desespero da falta de comida e a corrida ao feno.


À espera dessas chuvas fiz uma loucura necessária, loucura financeira, bem entendido, e comprei adubos. Desde ontem (agora anteontem) estamos adubando os piquetes, confiantes que com alguma sorte choveria amanhã, que já é hoje, e depois de amanhã, ou simplesmente amanhã.  

A chuva nos surpreendeu agradavelmente e chegou hoje, na verdade ontem, como vocês entenderão logo mais.

Durante a noite a luz piscou uma, duas, três vezes, e já num horário bem adiantado as piscadas se somaram aos relâmpagos cada vez mais fortes e com menor intervalo entre um e outro. 
Parecia claro, tinha  toda a pinta que a luz cairia de vez. 

Coloquei uma camiseta já usada, calção, uma blusa sobre a camiseta apesar do calor (para prevenir nova safra de dores dos músculos próximos aos pulmões) e calcei a bota de cano longo, sem meia, só de calção. 
Chique. 
Jeito de modelo, mas não me convidem para o ridículo desfile com o pessoal se trocando em frente ao público. Tô fora.


Fui para o barracão da ordenha para desligar o tanque de refrigeração na tomada, mas a temperatura do leite estava alta, com 4,7 graus, próximo de iniciar um novo ciclo de resfriamento até levar o leite a 2,9 graus.
Cocei a cabeça, pensei e liguei o tanque no manual – agitador e refrigerador. Para passar o tempo fui ver o pluviômetro e as vacas.
O pluviômetro só não foi decepcionante porque já esperava mesmo pouco volume de água – apenas 2,5 mm. Joguei fora essa água e deixei-o zerado. Barulho demais, chuva de menos. Vamos ver amanhã.

O lote das Jersey estava na pista de alimentação, sob o abrigo do teto. No cocho mais nada, já tinham comido todo o feno. 
Os olhares compridos e pidões me deixaram com dó e passei alguns minutos desfiando e colocando mais feno, ao qual se atiraram com uma vontade que, para vacas leiteiras, pode ser chamada de voracidade.

Ao voltar para o barracão a temperatura do leite já estava em 0,9 grau e um pouco mais ia virar picolé de leite. Desliguei tudo, retirei o conector da tomada trifásica e voltei pra casa.

Molhado e suado ou molhado e molhado. Depois de me enxugar e recolocar a bermuda e camiseta de dormir, liguei o notebook e comecei a escrever.

O dia 21 de outubro já começara há algum tempo.
Há algum tempo eu já estava um ano mais velho.

Entrei em meu 61º aniversário embaixo de chuva, ventos e relâmpagos,  desligando tanque e dando feno para as vacas.

A chuva foi meu presente. Um presentão muito bem-vindo.

Agora só falta o sono chegar. Deve estar perdido lá pra cima, no meio do pasto.

Coisa rara em minha vida, fui à geladeira peguei uma Bud estupidamente gelada e bebi. Na garrafa. Gostosamente. Ainda tem um restinho, ainda bem gelado e acho que antes desse restinho acabar o sono vai aparecer para tomar um golinho. 
Aí eu pego ele. E levo pra cama.




Tarde do dia 21 – com toda a pirotecnia que avançou madrugada adentro, com todo o exagero celeste dos efeitos sonoros, tivemos só mais 2,5 mm de chuva. Totalizou 5,0. 

Tá bom. 
Tem promessa de mais para esses dias. 

E hoje o resto dos piquetes foi adubado. Agora, é esperar pelo capim. 

Junto com o Kindle que a Rosa me deu hoje cedo, essa chuvinha de cinco milímetros foi meu melhor presente. 

Tá bom. Tô bem de presentes. Que continue assim.

terça-feira, agosto 12, 2014

Boniteza, secura & medo e mais o chique e o cafona


A madrugada estava uma coisa linda.

Até para quem gosta de ficar na cama valia a pena deixar o calor das cobertas e enfrentar o frio para ver a luz intensa do luar banhando tudo, criando uma sensação meio irreal, como se nossos sentidos transmitissem sinais descoordenados para as profundezas da mente.

O dia amanheceu como vem amanhecendo: céu azul, aberto, luminosidade  intensa logo cedo e o Sol... ah, o Sol, inteiraço no firmamento, quente, chocando com o frio ainda reinante deixado pela noite e madrugada.

Coisa linda de ver e de sentir.

Passarinhada fazendo uma barulheira danada, com cantos diversos misturados. Esse ano, por sinal, é enorme a presença de canários-da-terra aqui em casa. O bando chega em peso para comer um pouco da quirera das galinhas. Pelo alto, mas por baixo, creio que são pelo menos uns doze casais. Das árvores vêm cantos, pios e gritos que desconheço, o que me irrita um pouco. Não gosto de não saber.

As vacas ficam tranquilas. O frio lhe faz muito bem. A bezerrada berra cedo demais querendo leite quente para rebater o frio matinal. Lembro de meu finado tio Zé, tomando “uma” pra rebater o frio. Ou o calor. Ou o frescor ou qualquer outra coisa.

É...
Temos um belo dia à nossa frente, mais um.


Santa Rita do Passa Quatro amanheceu hoje sem água.

O fornecimento foi cortado às seis horas da manhã e será retomado às sete da noite.

Doravante assim será: treze horas sem água, onze horas com água.

Em comunicado, a prefeitura pede o óbvio: que toda água seja usada duas vezes.

É justo.

E nesse momento é irrelevante acusar a autoridade daqui, dali, d’acolá de culpa nesse e em outros cartórios. Fundamental, mesmo, é colaborar. 

Economizar. Usar na medida estrita da necessidade.

Pra rebater o pretenso viés poético das linhas iniciais, digo que não há necessidade de apertar a descarga toda vez que se fizer o número 1. Pode deixar acumular. Cheiro? Ninguém vai morrer por causa dele, até porque a urina, como nos ensinou Gregory House, médico de reconhecidíssimo saber, a urina é estéril. Pudera, com tanto nitrogênio em amoniacal não é para menos. Então, menos frescura e menos descargas. Isso vale para a capital de todos os paulistas e para todas as demais cidades.

Querem outro exemplo de economia e destinação da água servida? Sabe aquela enxaguada prévia e também aquela enxaguada posterior ao ensaboamento ou ensabonetamento do corpo? Então... Pega um balde, bota o bicho embaixo do corpo, entre as pernas, e deixe a água escorrer na maior parte para dentro dele. Depois disso é só deixa-lo ali, do lado e ao lado da privada e despejar sua água na dita cuja para mandar embora os números 2 da vida.

Isso é chique! Acredite.

Cafona, brega, burro e ignorante é desperdiçar água.

Chato mesmo é o medo de ficar sem o mais precioso de todos os elementos, fora o ar: a água.

Vai por mim.
Bom dia a todos.



Vida na roça entre choques e suavidade

Sexta-feira, quase uma da tarde, acabáramos de almoçar. Atrasado, dedilhava um texto pro OCE no notebook, caneca com café cheiroso e fumegante ao lado. Em outra era, estaria batucando e comandando o matraqueado metálico de uma parruda Remington, maço de folhas em branco ao lado do café e do cigarro, esse também fumegante, mas nada cheiroso.
Clichê, já que nunca fui fumante, mas, vai saber, né?
Entretido com tanta coisa e escrevendo sobre dinheiro, dívidas, gestão e confusão no futebol, tomei um baita susto com o estouro.
Forte, seco, daqueles barulhos redondos.
Com ele caiu a luz.
Treinado e pronto, levantei-me com o celular na mão procurando o fone de emergência da fornecedora de eletricidade. Enquanto passava pelo interminável “atendimento” automático, orientei o Zé a desligar o tanque de refrigeração do leite da tomada. Prevenir para não ter que remediar.

Empresa comunicada, começou a espera, como sempre chata e plena de ansiedade, pela viatura com os profissionais e seus equipamentos.
Demorou. Pouco depois das três da tarde chegaram. Fomos para o poste com as chaves, logo antes do transformador. Vasculhando o chão descobrimos o autor, melhor dizendo, o causador do estouro e da falta de luz: um pica-pau. No chão, morto mortinho esturricado, embora sem aparência de torresmo.


O choque foi fortíssimo, tão forte que ele nem percebeu que já morreu e deve estar, ainda, sobre um fio e tentando pegar um inseto no outro fio com o bico. Ao pegá-lo, fechou a corrente, gerou o curto-circuito, foi torrado e deixou-nos sem força para manter o leite gelado, funcionar a picadeira de cana, começar a ordenha das vacas, além, é claro, de deixar-me sem internet e com as geladeiras e freezers desligados.
Toda a vizinhança que usa a mesma rede também foi afetada. Ao contrário de outras vezes, a queda na corrente aqui em casa desligou o fornecimento em vários vizinhos. E todos ligaram para a empresa reclamando, como tem que ser. Funcionou.

Ao fim e ao cabo salvaram-se todos, exceto o pica-pau, bonito e simpático, mas azarado, e a rotina das vacas, atrasada em quase uma hora.
De quebra, o pessoal da empresa disse-me que em breve trocarão os cabos expostos por outros protegidos, o que impedirá esse tipo de acidente e a morte de maritacas (useiras e vezeiras, inclusive aqui mesmo), pica-paus e outras aves.
Meno male.


Hoje cedo, o sábado começando, fui buscar o Dito em sua casa, em Santa Cruz da Estrela ou, simplesmente, Estrela. No caminho, nas primeiras luzes do dia, a paisagem bonita de um amanhecer na roça.

Não resisti e parei o carro para olhar meio minuto.
E mais meio minuto para algumas fotos, afinal, para que ter um smartphone com câmera se não for para usar?
Fim. Até porque, antes de postar isso, vou preparar o café da tarde. Depois, mais dez minutos de computador e aí é levantar de novo e ir pra lida lá fora, começando o trato das bezerras.
Fui.



terça-feira, abril 08, 2014

Uma questão interessante e as questões que ela provoca


Recentemente, a mídia foi tomada de assalto pela questão dos rolezinhos.
Uau!
A maioria não sabia o que era isso. Eu nem imaginava a existência de tal termo e a situação a que ele se refere. E olhem que não sou um sujeito de todo desatento ao que rola na sociedade. Mas, convenhamos, dada minha idade, local de moradia, as esporádicas idas para a grande cidade e seus shoppings, nada mais normal, né?
Os rolezinhos vieram, estouraram, tiveram seus 15 ou 30 minutos de fama (ahhhh, isso todo mundo conhece, afinal, foi criação de um artista americano, morador da Grande Maçã, também conhecida como Big Apple) e meio que saíram de cartaz. A vida continua.

O lance agora é outro (nem sei se ainda se fala “lance”, nesse sentido; se não falar mais, paciência, peço perdão, sou de uma geração já meio antiga, mas – epa! – ainda dentro do prazo de validade), o momento é do “bateu de frente”.

Ao ler a questão da prova da escola de Brasília, dei risada e achei legal. Sem saber dos teretetês todos, mas já imaginando, gostei do professor ou professora que tinha bolado a questão.
Continuo gostando.

Uma das coisas mais chatas e ao mesmo tempo preocupante que vemos na internet todo santo dia é a virtual incapacidade de boa parte dos leitores compreender um texto. Já fui severamente criticado por escrever textos longos, por usar frases longas, por parênteses, vírgulas, crases, palavras... Ah, as palavras... Se depender de parcela que já disse razoável da população, a última flor do Lácio reduzir-se-á à meia dúzia de palavras e uns “par” de dúzias de expressões de usos múltiplos, até contraditórios, dependendo o significado do contexto, do tom de voz, de detalhes que passam despercebidos para a maioria, para os não iniciados.
Nem vou comentar o uso de mesóclises, pois aí o bicho pega.
Quando estudante, e já lá se vão “trocentos” anos, eu detestava questões com versos de Gonçalves Dias ou Castro Alves ou trechos de Joaquim Manoel de Macedo e outros. Achava um pé no saco. Estávamos nos anos 60, mas só usávamos exemplos de autores mortos do século XIX.
Beatles? Cruz credo, nem pensar.
Depois, passados vários anos, em muitas escolas e da parte de professores moderninhos, virou moda usar versos de Chico, não o Bento, mas o Buarque de Hollanda. Indoutrodia, por sinal, escrevi em algum lugar, para ilustrar o que penso de nosso brilhante momento político e nosso mais ainda brilhante estágio social e cultural, que “essa terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso bananal”. Então, o Chico podia e pode. Fica até chique e moderninho e, vá lá, revolucionário. O mesmo com Caetano, Tom, quem sabe o Gil.
Bom, mas Valesca Popozuda não!
Onde já se viu tamanho despropósito, tamanho acinte à fantástica cultura tupiniquim?
O diabo, todavia, é que a gurizada conhece e ouve a moça. E por gurizada, parece-me, pode-se entender uma camada ampla, que supera algumas barreiras, como, por exemplo, a da renda familiar.
Isso me lembra que vi foto da Gisele Bundchen com a Valesca, a quem teria pedido que mostrasse como dar um beijinho no ombro.
Então, a Srta. Valesca pode até não ser uma grande pensadora, mas ela, certamente, é alguém que transmite alguma coisa e é vista e ouvida por um bom bocado de milhões de jovens, usualmente chamados ou tidos como... desmiolados.
Ora, a questão proposta pelo professor Antonio Kubitschek, foi muito interessante porque, com certeza, atraiu a atenção dos estudantes e, mais que isso, levou-os a parar e pensar a respeito.
É pouco? Talvez, talvez seja muito pouco, mas, repito, para quem conhece e vive o ambiente de internet e nele dialoga com internautas do país inteiro e das mais diferentes idades e condições sociais e de conhecimento, esse pouco já é alguma coisa.
Entonces, na boa, gente, menos frescura, menos chilique, menos preconceito com a questão e seus personagens.
Xiiiiiii, usei a palavra proibida, aquela que começa com “pre”, algo que, unanimidade, todo mundo diz que não tem. Ufa, ainda bem!


domingo, março 30, 2014

Internet forever



Há quase nove anos, mais precisamente em 11 de abril de 2005, postei um texto nesse Um Olhar Crônico falando dos pardais – atenção, senhores motoristas: passarinhos e não estações de radar, ok? – e como evitar que entrassem em casa: O fim dos pardais (aqui).

O tempo passou e aqui em casa os pardais deixaram de ser problema, não só devido à solução apresentada no post, como também pelo fato de, em 2010, termos colocado um forro no teto da cozinha.

No decorrer desse tempo foram muitos os leitores que me escreveram perguntando e pedindo mais informações a respeito, informações que, de resto, não tinha e não tenho. O método dos barbantes ou fios é extremamente simples: é só colocar e pronto, os bichinhos param de entrar em casa e fazer uma sujeirada de dar gosto. Sem venenos, sem repelentes, nada disso.


E hoje, como disse no início, quase nove anos completos depois do post, um leitor de Gravatá, em Pernambuco, escreve-me a respeito. Na verdade, o Evandro – esse é o seu nome – não é leitor do Um Olhar Crônico, mas aborrecido com os pardais e procurando um método para espantá-los, fez uma pesquisa no Google e caiu nesse post tão antigo.

Pois é, a gente escreve, esquece o que escreveu, mas está tudo lá, onde quer que seja esse lá. Às vezes um texto deletado por alguém ainda sobrevive porque foi copiado ou transcrito ou compartilhado por outros. 

Isso é bom, não tenho dúvidas, mas pode ser terrível, né?

Muitas vezes alguém escreve um monte de besteiras, seja por acreditar, seja por brincadeira ou por mera bobeira, e de repente, anos depois, justamente numa entrevista de emprego... Uma pesquisinha básica revela a bobagem de outrora. Certo, tem que explicar, mas tudo que precisa ser explicado... bom, se precisa ser explicado é porque não foi entendido, por falha de quem escreveu ou de quem leu, não importa e, portanto, já causou um prejuízo.

É o lado museu da internet.

Think about.


domingo, março 09, 2014

Saudade ilusória ou a saudade enganada de um tempo que não existiu



A cada dia leio artigos e comentários das mais diversas pessoas falando bem da ditadura.

Isso, da ditadura militar implantada em 1964 que destroçou e atrasou o desenvolvimento do país. Que matou e torturou em nome – absurdo – de uma liberdade que não existia.

Dizem que a memória é seletiva e é mesmo. Esquecemos o que é ruim e lembramos do que nos parece ter sido bom.

Houve, é verdade, crescimento econômico apreciável durante a ditadura. É o chamado, ainda hoje, “milagre econômico”.

Abobrinha.

Como abobrinha é, não se iludam, toda a pataquada chata e repetitiva que temos que ler e ouvir sobre o “crescimento” do Brasil nos governos petistas. Aliás, nesse ponto, o da mistificação, da mitificação, da enganação via propaganda (que é muito mais que “anúncios e reclames” nas mídias), a ditadura dos militares e os governos petistas são rigorosamente idênticos. Ironia histórica, vejam só.

O Brasil teria crescido a mesma coisa, ou mais ainda, sob um regime democrático. Tal como teria ocorrido nesse começo de século XXI, independentemente do governo de plantão em Brasília (a menos que fosse uma ditadura como a de Chávez, na Venezuela).

Porque, meus amigos, o Brasil sempre cresceu de forma reativa.

Reagindo, com atraso e lerdeza, aos pulsos de crescimento da economia mundial. Nunca fomos pró-ativos nessa questão.  Nunca fomos agentes de nossa própria história.

“Duela a quien duela.”

Hoje, com infelicidade e temor crescentes, leio escritos de gente supostamente inteligente e com visão do mundo e da história, clamando pela volta da ditadura e seus capatazes e feitores. Foi durante a ditadura militar que prosperaram a corrupção.

Dizem que eles próprios, os generais de plantão na presidência, morreram pobres ou algo próximo disso. 

Pode ser, pouco me importa, pois o que importa é que perpetraram crimes contra a cidadania e contra o progresso e deram guarida ao crescimento da corrupção que hoje desgraça o país.


Não se iludam. A ditadura foi uma merda – e ao dizer isso estou sendo generoso, pois ela foi assassina, ela foi criminosa, ela cassou nossas liberdades, cassou nosso sagrado direito à palavra e dizer que ela foi uma grande merda é muito pouco e redutor.


Não se iludam. É muito melhor viver sob um regime democrático (e não somos, como nunca fomos, plenamente democráticos, até porque o sistema econômico dominante não é o capitalismo, e sim uma variante desse sistema, uma variante doente, deturpada, distorcida – e grande parte disso pode e deve ser creditada aos militares ditadores, que se não entendem de democracia, história e política, tampouco entendem de economia), ainda que com um Congresso chamado de lixo – e aqui nos esquecemos do óbvio: o Congresso somos nós – do que sob uma “boa” ditadura.


Não se iludam, não há ditadura boa. São todas terríveis e maléficas. São assassinas, tanto de pessoas fisicamente, como de ideias e do progresso real das pessoas, das nações, da humanidade. Hitler, Stalin, Mao, Franco, Salazar, Pinochet, nossos generais-presidentes, os assassinos generais argentinos, são todos iguais, claro que com diferentes números, amplitude e intensidade de malefícios. Coloquem os irmãos Castro nessa lista, podem colocar Chávez e outros déspotas menores e maiores. É tudo farinha do mesmo saco.


Querem progresso?

Querem uma vida melhor?

Querem maior renda e mais benefícios reais?

Simples: peguem a lista dos países mais ricos e mais desenvolvidos do mundo, sob todos os aspectos, e vejam o que todos eles têm em comum...


Democracia.

sábado, fevereiro 22, 2014

Vida marvada... ou não



Nesses últimos anos acostumei-me a vê-lo ao levar o Dito para sua casa, sempre com o chapelão tipo Stetson, sempre sentado no portão de sua casa ou na escadinha do alpendre e, principalmente, a ouvi-lo. Fosse cantando e tocando sua viola, ou ouvindo, em alto volume, músicas sertanejas num potente equipamento, daqueles que nos acostumamos a ver nos ombros de amantes do hip hop, rock, funk e – por que não? – sertanejo.
Seu nome é Mato Grosso, é o que sei. Nem creio que por nascimento (alguém já viu mato-grossense fora do Mato Grosso?), mas talvez por paixão a uma terra que povoa os sonhos de quem gosta dos grandes espaços dos sertões, terra que povoa as letras de músicas sertanejas, escritas por sonhadores ou saudosos dos sertões.
Na minha cabeça, o quadro do Mato Grosso ficou meio delineado: a viola, chapéu, o som e o carro na garagem, limpinho e brilhante, sempre o oposto do meu próprio e judiado carro. O carro foi a concretização brigada de um sonho. Quando recebeu um dinheirinho, tempos atrás, teve a opção de comprar a boa casinha onde morava. Não quis, preferiu o sonho, comprou o carro.
Coisas da vida.
Ultimamente, reparei que ele não estava lá na frente da sua casa. E o som não se ouvia. Estranho. Apesar disso, não perguntei ao Dito o porquê das ausências, por mero esquecimento ou porque estávamos no meio de alguma conversa e não queria mudar o assunto. Numa das vezes em que levei-o para casa, nessa semana, perguntei-lhe do Mato Grosso.
- Ué, o senhor não sabe? Ele estava se queixando fazia tempo de uma dor na perna (e o Dito aponta para a sua própria perna direita) e não ia no médico, não ia, não precisava, ia tomar um comprimido e foi levando. Aí, outro dia, a dor piorou e ele foi pra Santa Casa, só que não tinha mais jeito: mandaram ele pra Ribeirão Preto e cortaram a perna dele, logo aqui, ó (e mostra com o dedo um ponto pouco abaixo do joelho).
Bateu uma tristeza grande. Chateado, perguntei ao Dito que diabo era aquilo, como foram cortar a perna do cara assim, sem mais nem menos?
- Mas não foi assim sem mais nem menos, seu Emerson, a dor vinha atormentando ele há muito tempo.
- Puxa vida, mas que coisa, hein? E como ele está?
- Ah, eu perguntei a mesma coisa pra ele, outro dia, e ele respondeu que tava bem, tava sem a perna, mas tava sem dor.
E assim segue a vida, pensei cá com meus botões. Sem dor, o que deve ser muito bom. Mas, agora, de que lhe servirá o carrinho bonito e brilhante? Melhor teria sido comprar a casinha, não?
Vida marvada.
Será mesmo tão marvada assim?
Sei lá, já tive muitas respostas para muitas coisas em outros tempos, em outras eras. Hoje tenho muitas perguntas para muitas, infinitas coisas. E não tenho mais as respostas... que achava que tinha.

Gostaria de ver novamente sua figura, chapelão na cabeça, viola na mão, cantando e tocando. Curiosamente, nunca parei para ouvi-lo, mas, passando devagar, cada vez mais devagar, ouvia um bocado do que cantava. Deu saudade.

sexta-feira, fevereiro 21, 2014

Notícias de um campo que já foi bucólico... mas ainda tem seus momentos


O carro tem ficado ao relento. Ontem e hoje amanheceu sequinho, como se tivesse pernoitado numa garagem fechada. Duas madrugadas secas, mas frescas, o que não é bom para as plantas e animais, mas é confortável para nós, os humanos.
Durante o dia vi a fumaça de uma grande queimada, coisa estranhíssima, já que estamos em janeiro, a safra de cana acabou há muito, não há cana disponível por perto, pronta para corte, sem falar que as usinas queimam pouquíssimos talhões, cada ano menos, até chegarem à queimada zero (no ano que vem ou no próximo, não tenho certeza). Ao levar o Dito para casa, no final dessa tarde, vimos o estrago: o canavial de um de nossos vizinhos, na parte alta de sua propriedade, foi queimado. Tudo indica ter sido mais um incêndio criminoso e o fogo foi tocado num dia e hora em que o caminhão-bombeiro mais próximo (a usina Ferrari mantêm caminhões de plantão; um deles salvou meu pequeno canavial e a comida das vacas, ao avistar um fogo criminoso aqui no sítio; o motorista parou e, sozinho, com o potente canhão-d’água, conseguiu debelar o malfeito). Quando o caminhão chegou o fogo já se alastrara. Um prejuízo para a usina, um gigantesco prejuízo para o vizinho, que tem parte de sua renda oriunda do arrendamento da terra para a usina.

(A foto foi tirada de casa, com a resteva do milho em primeiro plano, onde será plantado sorgo; a fumaça ao fundo é do incêndio do canavial.)

Depois de deixar o Dito em casa fui para o Estrelão, o mercadinho do Sergio, no distrito de Santa Cruz da Estrela.
- E aí, chegou a carne? – perguntei-lhe, pois sexta-feira é dia do caminhão do Friboi abastecê-lo.
- Você não imagina o que aconteceu com a minha carne – respondeu-me.
- Que foi, roubaram os bois? – perguntei brincando.
- Um bando de caras armados parou o caminhão na estrada do Porto (Porto Ferreira) para cá, levou pro meio do canavial e roubaram a carne. Não sei se toda, mas roubaram.
- Caraca, Sergio! Sério mesmo?
Sim, era sério mesmo. Essa carne é fácil de roubar, transportar, comercializar. O caminhão já entrega cortada em peças, dentro de caixas de papelão pesando entre 24 e 30 quilos. Somem no meio dos canaviais, desembocam em outras estradas e aí é correr pro churrasco.
Assim vai seguindo a vida no varonil Brasil desse começo de século XXI.
Ah, é verdade, você está pensando por que diabos terá sido criminoso o incêndio no canavial, né?
Quando há motivo, é vingança, mas é raro. É apenas manifestação da doença que cresce a galope por aqui. Mas chamar de doença é perigoso, vão dizer que é psicopatia e não é caso de polícia e sim de tratamento.
Não é doença, é apenas o mal se manifestando por prazer. Nada mais.

Agora à tarde a Boneca pariu. Nasceu Cybele, que fará companhia para a Cynara. Que estava sem nome até essa tarde, mas como o Zé foi categórico com o Cybele... concordei. E tasquei Cynara na filha da Brahma, para quem um amigo indicara Didinha e, confesso, eu havia pensado em Devassa.
Pode isso?
Não, né? Cynara é muito melhor.



(Boneca e Cybele, uns quarenta minutos depois do parto.)

quinta-feira, setembro 12, 2013

11 de Setembro de 2001

11 de Setembro de 2001




Aquele 11 de setembro, o primeiro desse século XXI, era um dia comum e ainda estava ainda em casa trabalhando num roteiro, TV ligada, quando entrou a notícia do choque de um avião com uma das torres.
O susto foi enorme e fiquei pensando em qual das torres, pensamento meio besta, sei, mas essas coisas passam pela cabeça. Numa delas, a Torre Norte, a primeira a ser atacada, tinha um restaurante chamado Windows on the World, lá no alto, nas “nuvens”. Pensei e quase tentei ir até para um jantar, com Manhattan aos pés, mas os preços eram tão altos quanto a localização, definitivamente fora dos meus parcos orçamentos. Nunca fui. Pelo menos fui ao terraço uma vez, mas continuei achando o do Empire State mais bonito e charmoso, fora os filmes e o romantismo e o medo de ver o King Kong (o primeiro) ali no alto.
Digressões à parte, como um avião poderia se chocar com aquele prédio? Que coisa maluca! – pensava enquanto ouvia o pessoal pela televisão. Aí veio o segundo avião dos assassinos e tudo ficou claro: era um atentado terrorista.
Veio a informação de Washington e depois da Pensilvânia. Os Estados Unidos da América estavam sob ataque. O inimaginável acontecia.
Quando o segundo avião se chocou ficou claro que a História tinha mudado ali, naquele momento, aos nossos olhos.
De fato mudou, para pior.
Os assassinos de bin Laden conseguiram parte de seus objetivos, ao fazer o governo, o Congresso e a justiça americanos restringirem os direitos civis. Uma perda irreparável. Como irreparável foi a perda de milhares de vidas.
Esses assassinatos tornaram nossas vidas mais complicadas ainda hoje e por muito mais tempo.
Não reconheço nesses assassinatos valor algum. Foram atos da mais pura barbárie, simplesmente. Há muitos outros na História da humanidade e, infelizmente, outros virão, parece ser da nossa natureza.
Tudo que aconteceu só reforça a necessidade de defendermos e investirmos o que de mais precioso desenvolvemos: a ideia, o conceito, a prática da Democracia.


domingo, setembro 01, 2013

Sem choro, nem vela



O domingão começou tarde hoje (é domingão, pô!), pouco antes das seis da manhã. Mas o Zé já estava recolhendo as vacas para a ordenha.
Ontem ele picou cana demais para o trato das vacas.
Hoje, sobrou cana demais nos cochos, uma curiosa lei da natureza. 
Portanto, o marmitão aqui começou o dia pegando cana sobrada e jogando fora, deixando os cochos limpos para o trato da tarde. 
Isso feito, piquei um pouco de cana para duas vacas separadas das demais e para a bezerrada. Misturei com feno de alfafa e feno de tifton. Chique... E caro. 

Não vou almoçar na sogra, perderei o almoção dominical mais uma vez, pois quero começar o trato da tarde mais cedo, na esperança quase vã de conseguir assistir o São Paulo contra o Botafogo.
Felizmente, hoje à tarde termina o final de semana. Amanhã é segundona – Thank's God – e não terei que fazer o trato das vacas. 
Oba!
Aqui, no final de semana, empregado folga e o patrão pega no pesado braçal, pois ordenhar é tarefa especializada muito além de minha capacidade, suficiente apenas para pegar cana no garfão, jogar na carriola, misturar ureia e levar para os cochos. À noite meus ombros, meus braços, minha cintura, minhas costas, minhas isso, minhas aquilo, doem.
Sem choro, nem vela e nem gelol,


Segunda-feira é o dia de minha libertação semanal, menos quando é feriado santificado. Mas, nesse caso, diz o bom gosto, o bom senso e a boa educação que não é bom reclamar. Afinal, vai saber o que nos espera, né?

domingo, agosto 18, 2013

Águas dominicais


Esse é um domingão marcado pelas águas.
Levantei até meio tarde, final da madrugada, mas cedo para quem está na praia em “férias”. Depois de uma rápida caminhada pela praia, com vento gelado e garoa idem, entrei e tomei um banho quentinho. Reconfortante.
Mais tarde, já na casa de meu amigo Luiz Antonio, enquanto nos preparávamos para cruzar o Canal e visitar seu veleiro, o “Eleonora”, chegou uma mensagem de socorro de seu filho Francisco. Ele estava no meio do Canal, na água, depois que capotara velejando num pequeno catamarã. Saímos às pressas, Luiz e eu, no barco que fica guardado em sua casa.
O mesmo vento gelado da manhã encapelava as águas, que invadiam o barco conforme avançávamos. Um banho em regra, dos pés à cabeça, durante todo o tempo. Chicão capotou ao tentar uma mudança de bordo rápida. O leme escapou de sua mão e o vento fez o serviço inesperado.
Domingão meio cedo, vento leste, frio, garoa... Ninguém no mar e o socorro demorou para chegar. Com o celular encharcado (como disse Chicão, a eterna lei de Murphy: o celular estava fora da capa impermeável, deixada em São Paulo), tudo que restava era esperar a passagem de alguém ou por nós mesmos, ao cruzarmos o Canal de São Sebastião a caminho da Ilhabela. Felizmente, antes que saíssemos passaram uns pescadores e um deles ligou para o Luiz. Foi a deixa para sairmos às pressas.
Depois de localizá-lo e ele embarcar, tentamos desvirar o catamarã para rebocá-lo com o lado de cima para cima e o de baixo para baixo, naturalmente. Até não faria muita diferença, mas seria mais fácil por causa do mastro e das velas.
Tentamos desvirar o catamarã. As primeiras tentativas foram impedidas pelo vento, que na hora agá jogava contra e empurrava-o de volta para a água. Mudamos de lado e ficamos a favor do vento, mas tampouco deu certo, pois agora era o mastro, com as duas velas ainda presas a ele (felizmente), que impedia a virada. O jeito, portanto, foi rebocá-lo emborcado mesmo para casa, lenta e cuidadosamente, com a garoa forte açoitando o rosto, vira e mexe auxiliada pela água das ondas.
Quando saíamos para o mar, tocou meu celular. De um outro mundo, o Cesar chamava para falar sobre uma vaca no cio e perguntar se havia sêmen sexado disponível para ele inseminá-la no final da tarde. Sim, claro, passa por lá e pega. Amigos e vizinhos são para essas horas, mesmo, o que veremos logo mais em sentido reverso.
Curiosamente, uma coisa unia os dois mundos tão diferentes: o mesmo vento leste, cá e lá. Sei disso porque o Cesar falou do vento e perguntei-lhe de onde ele vinha. Do lado do Sandro, foi a resposta. Como a propriedade do Sandro está entre o Sol nascente e o sítio do Cesar...
Tudo resolvido, mais um banho – o terceiro da manhã. Haja água. Enquanto o Francisco desmontava e cuidadosamente lavava peça por peça de seu catamarã, um dedo de uísque, puro, cowboy, pra dar uma esquentada, junto com alguns dedos de prosa com o Luiz, que ainda levou-me para a casa da Carol e do Rodrigo.
Detalhe: a Rosa disse-me que fiquei melhor nas roupas emprestadas (secas, que maravilha) pelo Luiz que nas minhas.
Foi quando liguei para o sítio, para o Dito, para perguntar se estava tudo em ordem.
Tudo. Ou quase tudo: desde ontem a bomba do poço não está puxando água. Que beleza... Só pra variar, em pleno final de semana. Buenas, foi, então, a minha vez de ligar para o Cesar, que prontificou-se a dar um pulo até o Macaúbas e conferir a bomba (o Cesar entende muito de motores elétricos & acompanhamentos). Pelo jeito, porém, solução de fato só amanhã, segundona, dia de soluções para os problemas do final de semana.
A festinha de 4º aniversário (festinha... que trabalheira fazer festa para crianças hoje em dia, coisa de louco, sô!) do Felipe está para começar. E antes mesmo que ela termine estaremos retornando para São Paulo. Amanhã cedo, com a bomba do poço à minha espera, voltaremos para casa sem tempo para “curtir” algo de Sampa. Com sorte, ainda conseguirei pegar uma meia dúzia ou mais de pães italianos, de preferência na 14 de Julho, se o trânsito permitir.
Paro por aqui, nesse domingão marcado pelas águas, tanto as presentes e controladas dos chuvé ton aqui, pois auirei pegar uma meia dem tempo para "se a dar um pulo at auxiliada pela eiros, como a ausente na saída do cano do poço, mas, principalmente, pelas incontroláveis águas atlânticas empurradas pelo vento leste no Canal de São Sebastião.

Tudo isso é um pouco da vida como ela é, com seus imprevistos grandes e pequenos, junto aos amigos, fisicamente ou não, com o futuro sendo festejado na forma de um bolo e quatro velinhas, enquanto ao lado, ainda no útero aconchegante da mãe, outra parte do futuro estará presente, quem sabe (sim, quem sabe?) já participando do aniversário do priminho.


P.s. 1 – Cesar ligou; o problema da bomba está resolvido e a água está caindo nas caixas. Grande Cesar!
P.s. 2 – Dito ligou, falou que o problema está resolvido e que ele não botou uréia na cana, pois já começou a chover; grande Dito!
P.s. 3 – Vou dormir tranquilo.

terça-feira, agosto 06, 2013

Ele chegou, o agosto



O mês tinha começado há alguns dias, mas não tinha chegado. Era agosto, mas não era. Fazia frio durante a noite e os dias estavam frescos, agradáveis, bons para ficar trabalhando fora de casa. Não era agosto, não importa o que dissessem as folhinhas e agendas e sites internéticos.
Ontem, porém, o calor chegou. No meio do dia parecia que estávamos em pleno dezembro, não fosse a secura do ar já presente. Mas não ventava. Era quase agosto, mas ainda não era o agosto.
Hoje venta. Começou durante a madrugada e não parou.
A grama está seca, pode-se andar por ela de chinelo ou sandália e os pés permanecem secos em plena madrugada.
Está seco, tudo seco.
Já ontem o horizonte estava embaçado, sem a transparência cristalina de um governo europeu ocidental social-democrata, mais com cara e jeito da transparência brasiliana: opaca, pouco penetrável, decididamente fechada aqui e ali.
Isso, sim, tinha a cara de agosto.
Enfim, agosto chegou.
Quente, seco, ventoso, desagradável...
O mês do desgosto. Ameniza-o, e muito, os aniversários de meu neto e minha filha. Não bastam, porém, para mudar o estado dos pastos, a opacidade das folhas das árvores, a poeira depositada sobre tudo e toda parte, os olhos secos, vermelhos, irritados, fazendo do colírio ferramenta obrigatória durante o dia inteiro e até no começo da noite. Nesses dias, o lugar mais confortável da casa é o banheiro, durante o banho, com a umidade tomando conta de tudo. Pena que não pode durar muito.
Até na política agosto tem lá seus desgostos, maiores que os gostos. E na noite de ontem, típica noite agostina, um programa tradicional (que já foi muito melhor, mas continua sendo razoavelmente bom) abriu espaço para uns defensores e praticantes de uma tal “mídia ninja”. Foi bom, sempre é bom vermos cair a máscara de quem se traveste em democrata.
Somente num regime democrático é possível vermos os inimigos do regime falando com total liberdade. É chato, mas é bom à bessa (ou à beça, como bestamente quer a Academia).

Numa democracia há vida, o que não se pode falar do resto.

quinta-feira, julho 04, 2013

O inverno da radicalização útil


Hoje à noite estará bom para assistir ou ver de novo “Game of Thrones”.  Porque se por lá “the winter is coming”, aqui no Sítio das Macaúbas ele já chegou. A manhã de hoje foi mais uma a provar isso: fria, com uns onze graus na sombra e sensação térmica de seis ou sete, no máximo oito graus, devido ao vento constante, cortante, penetrante.
O céu está limpo, azul, bem transparente (ao contrário das contas de viagem da presidente da República) e o Sol não aquece, queima. Mesmo assim não deixa de ser gostoso senti-lo sobre o corpo.
Tempo bom para as vacas, que só começam a ficar desconfortáveis quando a temperatura cai alguns graus abaixo de zero, o que, felizmente, está muito longe de acontecer. Boa parte dos animais sofre mais com o calor do que com o frio, como as galinhas, por exemplo.
Inverno ou verão pouco importa, o trabalho é eterno, dentro do que nossa vã filosofia pode entender por eterno em termos práticos. Nunca ficou tudo feito, tudo pronto, sempre ficou alguma coisa, muitas coisas, na verdade, para amanhã. Ou depois, porque o amanhã, como hoje, não é suficiente para tudo fazer.
Dias atrás o Paul Krugman escreveu a respeito dos lucros gerados pela simples força das marcas. Taí uma coisa das mais perigosas. Gerar dinheiro em cima do nada nunca conduziu a nada saudável na história da humanidade, da mesma forma que concentrar toda a riqueza em poucas mãos. Aqui nessa Terra Brasilis temos muito dos dois e sem grandes perspectivas de mudanças concretas, sustentáveis, daquelas que vêm para ficar.
As manifestações diminuíram, arrefeceram, mas não pararam. Não demora muito e teremos outro pico, é só questão de tempo. Impressiona o quanto uma parte da população tenta diminuir a força e representatividade dessas manifestações, dizendo serem coisas de “elite” ou de “classe média”. Coisas de “direita”, vamos usar o adjetivo que já começam a empregar. Uso tolo, pois quem se opõe ao que o povo nas ruas exige está na contramão da história.
Essa radicalização, apesar da aparência negativa, é muito boa. Há momentos em que os lados precisam ficar mais definidos, mais claros, com menos zonas sombreadas.
Dois são os grandes inimigos do Brasil: a corrupção e a falta de educação, aqui entendidas a falta de educação formal, a falta de cultura, a falta de conhecimento. O pensamento é sempre muito raso e limitado às aparências mais gritantes, sem aprofundamento. Campo fértil para o maniqueísmo que imbeciliza e destrói.

É bom termos em mente que o radicalismo útil a que me referi nada tem a ver com maniqueísmo. São coisas distintas, que talvez aborde qualquer outra hora.

segunda-feira, junho 17, 2013


Madrugada molhada, trabalhosa, cansativa

Duas e meia da manhã. Camiseta seca sobre o corpo úmido de suor. Não vou tomar outro banho, minutos depois de ter saído do chuveiro. Horário estranho, não?
Pois é. Culpa de chuva extemporânea e, pior, mal prevista pelo serviço meteorológico, como de hábito.
Depois de um domingo extenuante tomado por trabalho braçal pesado, caí na cama pouco depois das nove da noite. Quando o sono parecia engrenar a segunda, despertei com a chuva chegando. Que coisa mais irritante! Afinal, no início da noite a Lua estava bonita e, apesar de algumas nuvens, não tinha cara de chuva. Chuva meio miúda, fiquei quieto. Dormi. Acordei às onze, pois a miúda engrossou. Passou a chover pesado. Adeus sono.
Nessa época do ano em que a seca (seca?), o frio e o menor tempo de luz paralisam o crescimento dos capins tropicais, a salvação do rebanho para quem não tem e$trutura para fazer silagem é cortar cana, picá-la, acrescentar ureia e fornecê-la para o gado. O problema é que a ureia pode matar uma ou mais vacas em caso de chuva sobre a cana. A água vai lavar a ureia da cana e acumular-se no cocho, formando uma sopa mortífera. O ideal, naturalmente, é fornecer a cana picada em cochos cobertos que não recebam chuvas, o que é fácil de preconizar e difícil de praticar. Aqui no sítio a maioria das vacas comem em um grande cocho em U, coberto. Ou melhor, descoberto desde julho do ano passado, quando um vendaval destruiu o teto completamente. Ainda não consegui recobri-lo, o que espero fazer nos próximos 60 dias. Enquanto isso, em caso de chuva o jeito é correr e tirar a cana porventura ainda existente, juntamente com a água.
Ué, não tem ralo?
Pois é... Ter, tem, mas não funciona, porque o sujeito que o construiu, autointitulado mestre de obras, simplesmente ignorava leis básicas da natureza e o ralo se situa num nível mais alto que o piso do cocho. Esse, por sinal, é um problema extremamente sério. Ainda não conheci pedreiro ou mestre de obras que faça pisos nivelados corretamente. Dizem que existem, mas sou meio cético. Só acreditarei vendo.
Por volta de uma e pouco a chuva amainou. Saí, agasalhado devidamente, lanterna na mão, boné na cabeça, e fui lá pra cima. Mais uma madrugada de trabalho inglório e parciamente infrutífero, no escuro, embaixo de chuva miúda que em certo momento parou (e agora voltou, escuto). E tome trabalho braçal.
Sem chuva, fiquei encharcado. De suor. Tanto que, serviço meio concluído, entrei e tomei a tal ducha. No meio da dita lembrei-me que não tinha ido olhar os cochos das “goiabeiras”. São de madeira, empoçam pouca água, mas...
Lá fui eu de volta para a madrugada úmida do Macaúbas. Parênteses: bota de borracha de cano alto: sem ela não haveria como existir vida na roça. A minha é dinamarquesa, chique, boa, confortável e carésima. Mas não comprei, ganhei. Bem na hora, pois as vacas já estavam voltando para comer o resto da cana e em um dos cochos tinha água empoçada. Mais trabalho. Para não deixar as moças frustradas, abri um piquete ao lado com um arremedo de capim, mas o bastante para elas se atirarem a ele sofregamente. Vaca adora capim, não há nada melhor, nada que se compare.
Agora, tentando fazer o sono chegar, fico aqui escrevendo, pois estou sem paciência para ler sobre a “primavera tupiniquim”.
Talvez ainda vire uma primavera política de fato, mas tenho dúvidas. Tem muita gente instrumentalizando, tem muita gente aproveitando para bagunçar, mas o sentimento difuso de oposição a “tudo que está aí” é forte. O saco anda cheio e não é só o de quem depende de transporte público.

Não demora muito o dia vai chegar e o meu sono não. Já vi esse filme antes.