sábado, setembro 29, 2012

Chegou o fim de ano - é o que diz o chocotone




Opa, mas é 29 de setembro ainda! – já sei que tem gente falando, até consigo ouvir. Sim, ainda estamos no mês de começo da primavera (com uma cara de inverno atrasado depois de um final de inverno com cara de verão antecipado), mas há pouco, no sacrossanto café da manhã já passei da metade do primeiro chocotone dessa temporada.
Isso mesmo, para mim chocotone é sinônimo de fim de ano, mesmo chegando ao mercado em pleno setembro, apenas para reforçar o caixa da empresa com o dinheiro dos gulosos impacientes. Obviamente, estou mais que dentro dessa categoria, como já foi possível perceber.
Apesar do acepipe natalino achocolatado, ainda faz frio, ainda restam 12 rodadas para o Campeonato Brasileiro acabar, meu bolso e minhas contas ainda não estão assustados com a necessidade de caixa para o 13º e nada mais distante de Papai Noel e suas gastanças do que minha cabeça... E meu bolso, é claro.
Opa, opa, falei de bolso duas vezes num único e mísero parágrafo... Preocupante. Mas hei de sobreviver, porque sobreviver, mais que verbo da moda, é a saída melhor.
Mais uns trinta ou quarenta dias e já poderemos desmamar as últimas bezerras: Carminha, Menina, Teimosa e Valentina. Estou relutando muito em fazer uma permuta de todas as bezerras por algumas novilhas que estão por parir agora em outubro. Embora um reforço no leite fosse muito bem-vindo, a verdade é que será muito agradável passar quatro meses inteiros sem a necessidade de cuidar de bezerras novas duas vezes por dia, todo dia. Além disso, mais dia, menos dia, as chuvas voltarão para valer. Com elas, o barro e os mosquitos e os carrapatos e o calorão e mais um monte de coisas que mais atrapalham do que ajudam quem cria vacas e bezerras e produz leite. Portanto, não ter bezerras novas tem um forte lado positivo.
As chuvas e o calorão têm, entretanto, um maravilhoso lado positivo: os pastos voltam a ser pastos. O capim cresce aceleradamente, o volume de massa verde enche os olhos da gente e o rúmen das vacas, a produção de leite sobe um pouco... E o preço cai um bocado.
Com as chuvas vêm as tempestades e com essas vêm as quedas no fornecimento de energia.
Como os dias já estão ficando mais longos, o Sol nascendo mais cedo e se pondo mais tarde, teremos a volta do tenebroso horário de verão.
Ó, céus... – diria Hardy, a hiena. Quando morava na grande cidade eu gostava, todos nós gostávamos imensamente do horário transtornado, digo, mudado. Era uma delícia ver o dia de serviço acabar tão cedo, passava uma sensação gostosa de férias ou antecipação das ditas cujas. Hoje, morando na roça e dependente mais do que nunca dos ciclos e tempos da natureza, acho esse horário besta uma tremenda amolação, um atraso de vida.
E paro por aqui, começando, mais que uma sentença, todo um parágrafo com uma conjunção aditiva. Paciência.

terça-feira, setembro 25, 2012

Declaração de voto e posição




Há muitos anos uma frase marcou época e marcou também a mim:
“Bandido é bandido, polícia é polícia.”
Seu autor foi um dos mais famosos bandidos da época, ainda nos anos 70, Lucio Flavio, referindo-se ao fato de que devem manter-se separados e quando se misturam coisa boa não sai.
Estado é Estado, Igreja é Igreja.
Não devem, não podem sob hipótese alguma misturar-se.
Sempre que isso ocorreu os resultados foram péssimos, nos casos mais leves, e trágicos na maioria das vezes.
Religião é questão de foro íntimo, nada é mais pessoa que a fé e a prática religiosa de uma pessoa.
Estado é o braço operacional da sociedade. De toda a sociedade, nunca de uma parte dela.  Seus membros devem obediência e lealdade à constituição, vale dizer, portanto, ao povo, a cada um dos cidadãos.
Claro que o Estado extrapola, por meio de seus funcionários, mormente em países atrasados cultural, política e socialmente, como é o caso dessa Terra de Vera Cruz. Mas corrigir os desmandos do Estado é muito menos difícil que corrigir os desmandos de uma instituição religiosa.
No que me diz respeito, igrejas não devem possuir meios de comunicação de massa. A doutrinação e a pregação são individuais ou em grupos de quem pensa e sente de forma semelhante.
O alcance da Igreja, qualquer que seja ela, deve dar-se somente em relação às pessoas, jamais à sociedade em seu conjunto.
Por tudo isso e muito mais, não consigo enxergar nada de bom na candidatura Russomano na cidade de São Paulo, independentemente até da qualidade do candidato – que deixa muito a desejar.
Penso da mesma forma em relação a candidato que represente qualquer religião, qualquer uma.
Se ainda morasse em São Paulo meu voto seria, uma vez mais, do PSDB e de José Serra. No mais, que Chalita crie juízo e mude sua prática partidária. É um bom candidato perdido pelas más, pelas péssimas companhias.

terça-feira, setembro 18, 2012

Um caronista falante sob o Sol queimante


Nesse setembro com cara de agosto, o Sol parece multiplicado, o calor maior que nunca. Claro que não é bem isso, mas é essa a nossa percepção imediata. Às dez e meia da manhã a estradinha que desce a “serra” da Conceição parecia queimar, sensação aumentada pela poeira e pela secura do ar. Mais à frente, vi um homem descer de um trator, que em seguida entrou numa propriedade. Tão logo me aproximei o homem acenou-me, pedindo carona.
Falante, ouvi-o ainda antes de parar a bravíssima Tempra 94, veterana a caminho do milhão de quilômetros. Entrou, ajeitou-se, ajeitou suas tralhas, típicas de quem deu um pulo até a cidade e agora volta para casa com algumas comprinhas. Conversa vem e conversa vem, pois com certa frequência dou descanso à minha boca e trabalho aos meus ouvidos, contou-me o básico sobre ele.
Aposentado, mora com sua “velha” no sitio do “seu” Fulano, com quem tinha um bom acordo. Já tentara morar na cidade, mas seu salário de aposentado revelou-se muito insuficiente para pagar o aluguel de uma casinha, mais as contas de luz e água. O que sobrava mal dava para a comida de meio mês e, com muito esforço, bastava para comprar os remédios. É, tem uma fase na vida de todos em que remédios são mais importantes que todo o resto.
Pois foi então que surgiu o “seu” Fulano, o dono do sítio. Meu passageiro, sabedor que o sítio do dito cujo estava sem gente, procurou-o e fizeram um acerto: ele moraria no sítio, que tem uma casa muito boa para empregado e receberia a luz sem pagar. Quanto à água, provinda de fonte própria e infinitamente melhor que a água “química” da cidade, era só uma questão de ligar a bomba elétrica.
E o acordo foi feito para a felicidade e, quem sabe, a sobrevivência do meu carona e sua “velha”.
Meu falante passageiro tem todo aquele jeito tranquilo de um cara gente boa e leva jeito de quem trabalha tão bem quanto fala.  Vi o sítio ao deixá-lo na porteira. Bem cuidado, cercas em ordem, gado tranquilo, ruminando pachorrentamente, a parabólica ao lado da casa, a casa sede (que certa vez, há alguns anos, conheci por dentro) parecendo em excelente estado.
Disse meu passageiro que a vida vai bem, obrigado. Seu salário mínimo de aposentado é o bastante para os remédios e umas comprinhas de coisas que a roça não dá. Não são muitas. Carne ele tem e não é pouca. Tem seus porquinhos, galinhas e frangos. O “seu” Fulano matou um porco outro dia e, como sempre faz, deu para ele um quarto do bicho e mais as miudezas suínas, que os povos urbanos desdenham, tal como desdenham as miudezas galináceas. Aliás, como desdenham as coisas miúdas da vida e só têm olhos para as grandes coisas, grandes somas, grandes compras... E grandes dívidas que alimentam e retroalimentam o processo e o sistema. Parece meio falso, não parece. E é, mas deixa quieto, mexe com isso não.
Agradeceu-me efusivamente, além, muito além do necessário. Gentil, claro, mas até meio chato. Embora prolixo no escrever, em certos casos e ocasiões sou amante do resumo resumido. Assim pensando e sob suas bênçãos, lá fui eu buscar mais feno para as bezerras no sítio da famosa e simpática atriz.

sexta-feira, agosto 31, 2012

Luar, Gonzaga e Armstrong


Uma das bezerras novas começou a berrar à meia-noite, praticamente em ponto. Sei lá, parece coisa de lobisomem, ainda mais que foi no momento que o dia mudou de quinta pra sexta-feira e num mês de agosto. Só faltava ser dia 13...
Calcei a bota, coloquei uma blusa e fui lá fora dar uma olhada. Sem lanterna, coisa totalmente desnecessária.
Depois de amanhã, oficialmente, teremos Lua cheia, a última desse inverno, mas há algo errado nessa história. No final da tarde ao levar o Dito reparamos que ela, Jaci, já estava alta sobre o horizonte, um disco prateado perfeito com as manchas de sempre – lembram que diziam que as manchas eram um dragão? E o seu brilho depois que a noite caiu de vez estava intenso. Talvez, que sei eu, sejam as luzes da rave (existe rave ainda?) realizada para receber Neil Armstrong, com todos os holofotes ligados.

E quando vejo um luar assim, não deixo de lembrar da poesia de Luar do Sertão, de Luiz Gonzaga:

"Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão
Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão"

Oh! que saudade do luar da minha terra
Lá na serra branquejando folhas secas pelo chão
Este luar cá da cidade tão escuro
Não tem aquela saudade do luar lá do sertão

Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão
Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão

Se a lua nasce por detrás da verde mata
Mais parece um sol de prata prateando a solidão
E a gente pega na viola que ponteia
E a canção é a Lua Cheia a nos nascer do coração

Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão
Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão

Mas como é lindo ver depois pro entre o mato
Deslizar calmo regato transparente como um véu
No leito azul das suas águas murmurando
E por sua vez roubando as estrelas lá do céu

Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão
Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão

quinta-feira, agosto 23, 2012

As laranjeiras em flor e o brilho da noite enluarada




Ontem voltei a sentir um perfume que está se tornando raro: a florada das laranjeiras. Quando levei o Dito para casa senti-o ao passar pelo laranjal vizinho, um dos poucos que restam em bom estado, às custas de tratos intensivos. O aroma cítrico entrou pelas janelas do carro e reduzi a velocidade, saboreando o momento.
Mais tarde, na casa da Rose e do Cesar, todos nós lamentando a situação atual, ficamos muitos minutos conversando fora da casa, a poucos metros do pomar do “seu” Antonio, pai do Cesar, deixando o perfume das flores de suas laranjeiras conduzir a conversa. Que já não era sobre os graves problemas que, principalmente eles, estão enfrentando. Não lembro mais sobre o que falamos, mas uma parte foi sobre a minha “habilidade” saladeira. Tenho devorado pés e pés de alface americana, devidamente regada a azeite e, mandatório e condição básica, aceto balsâmico. Sem aceto, sem salada. Sou radical (também nesse ponto).
Anteontem os caminhões levaram mais uma partida de frangos dos dois galpões do Cesar. Apesar disso, ele ainda não recebeu a partida anterior, cujo pagamento está atrasado mais de sessenta dias. E entregou a nova. Enquanto isso, as despesas correm e comem o dinheiro pouco que possuem (com dois filhos novos, estudando, os custos são muito altos). Só a despesa com eletricidade atinge valores enormes e a “dona” Elektro não quer saber se o produtor recebeu ou não o que lhe é devido. O que não a impede de manter sua rede sucateada, acarretando-nos prejuízos e aborrecimentos.
E os laranjais vão desaparecendo. Em seu lugar, canaviais. É o custo das doenças, principalmente o greening. A bactéria que o causa já teve seu DNA desvendado genoma por genoma pelos pesquisadores do Biológico, em São Paulo. Mesmo assim não se conseguiu, até agora, a cura ou a prevenção dessa verdadeira maldição, cuja aparição é retardada, mas nunca evitada, por sucessivas pulverizações de inseticidas para controle das cigarrinhas que transmitem as bactérias para as árvores.
Não é somente o perfume gostoso dessas tardes quentes de inverno que corre o risco de desaparecer, mas toda uma imensa e essencial atividade econômica que sustenta uma grande cadeia produtiva com empregos na casa de centenas de milhares de pessoas.
Nessa altura, bom, nessa altura do campeonato não vou falar de meus próprios problemas como produtor de leite.
Ao fim e ao cabo, o perfume das laranjeiras em flor foi sucedido pela visão de um céu absurdamente estrelado, apesar do brilho forte de uma Lua Nova a duas noites de virar Crescente, devidamente observado enquanto aguardava, com resignação cansada, o retorno da luz artificial, cara e falha. Felizmente a luz do luar derreteu a raiva e comer à luz de velas, ainda que sozinho, teve lá seu sabor especial.
Desculpem pelo título enganador. Ao invés de cálida poesia, para a qual não tenho nem o gosto e nem a capacidade, relatos de dramas econômicos. Creio que pratiquei o que se chama de propaganda enganosa. Sorry...

domingo, agosto 19, 2012

A infra podre e o fim de semana perdido



Aviso aos navegantes I: o céu é de brigadeiro, mas o meu humor é cinza-chumbo.
Aviso aos navegantes II: não acreditem nas maravilhas que os políticos entoam sobre nossa infraestrutura e sobre nossa economia. É tudo fake.

Temos tido esses céus tenebrosos céus de brigadeiro há algumas semanas, o tipo de tempo que faz a alegria dos cidadãos urbanos, especialmente nos finais de semana. Não faz a minha alegria, embora as noites sejam espetaculares. Noites de inverno, noites de dias secos, noites estreladas, noites sem orvalho. No final da madrugada, ao ir de um lado para outro aqui no sítio, o calçado não fica molhado, as pernas das calças não ficam encharcadas e geladas. Bom para começar o dia de trabalho, mas, uma chuvinha viria a calhar, nem que fosse só para tirar a poeira de tudo.
Em tempo de chuva temos tempestades, algumas muito pesadas (e diz minha percepção, que pode estar enganada já que é só percepção, que essas tempestades terríveis vêm aumentando na quantidade e na intensidade; e meu bolso concorda com minha percepção), com os inevitáveis problemas no abastecimento de energia. Já nesses dias secos...

Também temos interrupções no fornecimento de eletricidade. Foi assim na sexta-feira, repetiu-se ontem e, acreditem, tornou a acontecer hoje. E o que deveria ser uma plácida manhã dominical, viu-me enfurecido ao celular, perigosamente perto de romper o famoso limite da irresponsabilidade. Não rompi, controlei a fúria e o vocabulário e disse ao atendente da concessionária de energia que se era o caso deles cortarem a luz, que cortassem de uma vez por todas e não ficassem com aquele nhenhenhém destrutivo de luz pisca-pisca. Porque esse vai e vem energético destrói tudo quanto é equipamento eletrônico e motores elétricos.

Nos últimos catorze ou quinze meses tivemos três problemas com o tanque de refrigeração do leite, duas vezes com o sensor de temperatura e uma com o ventilador, provocados por sobrecarga ou oscilação forte na corrente ou. Posso dizer que tive sorte, já que o compressor nada sofreu. Naturalmente, como sói acontecer em Pindorama, a concessionária nada ressarciu.

O pisca-pisca de anteontem varou a noite e começou o sábado. Nessa altura, já tinha levantado em plena alta madrugada para desligar tanque na tomada. Por volta de cinco e meia da manhã religuei-o e comecei a preparar o trato das bezerras, que tão logo estivesse terminado seria o sinal de largada para começar minha viagem para São Sebastião, onde o aniversário de três anos de meu neto, o primeiro aniversário que terá um significado maior para ele, teve lugar. Não somente isso, pois também já havia marcado uma conversa com um amigo, talvez até em meio ao Canal, com a Ilhabela de um lado e a Serra do Mar do outro, todos os sentidos ligados ao drapejar das velas e às batidas ritmadas das marolas no casco do Eleonora.

Não aconteceu nada disso, pois quando a luz voltou Inês era morta, no caso, a minha viagem.

Minhas conversas foram com a concessionária de energia. Num primeiro momento pareceu que o sensor do tanque havia pifado novamente, e lá fui eu, em pleno sábado – tudo acontece nos finais de semana ou feriados – a correr atrás de sensor. Que revelou-se desnecessário  felizmente.

E o domingão amanheceu como o sábado: céu de brigadeiro e seco.

E como no sábado a luz piscou e piscou e piscou... Dali a pouco piscou, piscou, piscou e...
Acabou.

E assim (há quem diga ser deselegante iniciar frase com a conjunção e; é mesmo?), ao invés de cantar Parabéns a Você para o meu neto, repeti a cantilena de reclamações para os atendentes da concessionária.

O que deve ter sido apenas um exagero de minha parte, já que todos sabem que nossa infraestrutura, até no fornecimento de energia, é o “bicho”.

Não é. É pobre, insuficiente, de má qualidade, eleva custos, maximiza perdas, destrói vidas, além de sonhos e esperanças.
Está longe de ser meramente digna de ser chamada de infraestrutura, mas há quem acredite nela, assim como se acredita que céu bonito e bom é o céu de brigadeiro.

Paciência.

sexta-feira, agosto 10, 2012

O poluente poder público - I



                                                
O Tanque do Hugo era um local meio sagrado nos tempos de infância e começo de adolescência, especialmente nos tórridos dias do verão da Alta Paulista. Ficava próximo de Padre Nóbrega, pequeno distrito de Marília onde passei boa parte de meus melhores momentos da primeira parte da vida. Íamos lá para nadar, melhor dizendo, “nadar”, pois tanto seu tamanho quanto a profundidade não permitiam mais que meia dúzia de braçadas. Além disso, só dois ou três da turma sabiam dar umas braçadas mambembes, aceitáveis somente no velho e gostoso Tanque.

O local em si era apenas um trecho alargado do pequeno córrego que descia da divisa da Fazenda das Amoreiras e ganhava mais uns tantos litros d’água depois de passar pelo “asfalto”, como todos se referiam à estrada que saía de Bauru e terminava na mítica Panorama, na margem do Rio Paraná ou, simplesmente, Paranazão, esse sim, nosso ambicionado sonho de consumo, onde iríamos algum dia para fazer as mais fantásticas pescarias que alguém pudesse imaginar.

Por falar em pescaria, era esse o nosso objetivo em muitas das vezes que íamos para o Tanque. Tudo que pegávamos eram lambaris e acarás, mas ouvi muita gente arrotando grandezas de traíras e bagres. Pois sim...

O tempo passou, Nóbrega cresceu, o Tanque ainda foi se mantendo mais ou menos como era e deveria ser, até que o Estado chegou e construiu um presídio bem na cabeceira do Córrego do Hugo. O presídio meio que destruiu o distrito, que ao invés de crescer, inchou. E de maneira nem um pouco agradável ou saudável, é bom que se diga, embora isso seja mais verdadeiro para a metade “de baixo” da pequena vila.

Ainda antes da abertura de suas instalações, o tenebroso monstrengo já emporcalhava o Córrego e o Tanque, naturalmente.

Em pouco tempo mais, também o ar estava emporcalhado, especialmente naqueles já citados dias de verão; agora tórridos como sempre e mal cheirosos como nunca antes haviam sido. 

Porque, naturalmente, o poder público, o Estado, esse ente que 
deveria ser nosso e amigável, mas cujo melhor adjetivo é tenebroso, como a sua obra, fez do Córrego do Hugo o esgoto do presídio. Assim acabou o Tanque do Hugo, assim acabaram as brincadeiras e as grandes pescarias.

Fim da história.

sábado, agosto 04, 2012

Pequenas complexidades da vida simples



A vida aqui no sítio é relativamente simples, um tanto quanto às antigas a um primeiro olhar, mas nem tanto a uma segunda olhadela, mesmo que ligeira. 
Meu notebook fica conectado cerca de dezoito das vinte e quatro horas do dia, às vezes mais, dependendo dos gigabytes a serem baixados. Assisto algumas séries quase que no mesmo dia em que vão ao ar nos Estados Unidos.  A miniparabólica traz não sei quantos canais de televisão, daqui e de outros países, mas a rigor nada vejo, exceto o futebol e a novela, esta assistida pela Rosa e por mim, dia sim, outro não. Pois é, apesar da gritaria, a Carminha nos pegou. Mas, confesso: meu herói é o Cadinho (e... não, não quero ser como ele; nunca teria tanta energia e paciência, sem falar do dinheiro). O celular recebe chamadas e eu mesmo as faço vez ou outra, pois prefiro as ligações pela internet, muitas com mais de 50 minutos e custo quase zero (viva o Skype!).
Sim, é roça, com as coisas da roça, mas também com alguns teretetês da grande cidade, exceto o pão italiano. 

Esses teretetês, todavia, não invalidam o que falei sobre vida simples, querem ver?
Alguém que lê essas mal digitadas faz compra no mercadinho com caderneta?
Ah, sei, só com cartão de crédito ou com cheque ou com dinheiro.
Sei, sei, sei...

Bom, eu também não faço compra com caderneta, mas por mera preguiça e comodismo. O dono do armazém do pequeno distrito vizinho marca num cadernão dele e me dá um pedacinho de papel da calculadora com o valor da compra do dia, sempre um final de tarde, aproveitando quando levo o Dito de volta para sua casa. E assim vou pegando o gás de cozinha para nós e pro Zé e sua família, a sacrossanta mussarela para o lanche de quase toda noite, que só troco por uma pratada de cereais, com banana e leite ou por uma pizza... de mussarela, claro, parte dela com atum impregnado de ômega 3 (coisa herdada da grande cidade).
Aí, no começo do mês, pego a comprinha do dia, peço pra somar com todas as outras e pago com cédulas e moedas de real. No dia seguinte ou no outro o ciclo recomeça e já terei mais umas coisinhas marcadas.

É a velha caderneta de crédito, menos chique que os cartões, mas infinitamente mais prática e humana, como provam os habituais dois, às vezes três, dedos de prosa, quando trocamos novidades sobre os arredores ou comentamos alguma coisa do distante grande mundo cheio de luzes, trânsito e barulhos.

Então, atrevo-me a dizer que ninguém mais com os olhos nessas telinhas faz compras com caderneta de crédito. 
Sim, eu sei, seria meio complicado pro “seu” Diniz ou pro “monsieur” Carrefour marcar nossas comprinhas nas cadernetinhas. 
E se com as caixas-registradoras metamorfoseadas em potentes computadores (on line full time com tudo quanto é banco e cartão) as filas já são quilométricas e demoradas o bastante para algum condenado ouvir de cabo a rabo um discurso de Chávez ou Fidel, imaginem se as meninas dos caixas tivessem que escrever numa cadernetinha item por item, com os nomes complicados das coisas de hoje em dia e seus valores estratosféricos?

Não, não imaginem, a menos que já tenham uma aspirina ao lado, pronta para ser engolida, pois a simples imaginação de tal hipótese é o bastante para bela enxaqueca – herança, presumo, da minha vida pregressa na grande cidade.

Observação: a foto é apenas o registro de bucólico e corriqueiro momento aqui no Sítio das Macaúbas; por sinal, foto já meio velha; dizem os técnicos que textos precisam de fotos para ficarem mais atraentes, despertando o interesse do leitor; então tá, taí a foto.

sexta-feira, agosto 03, 2012

Noites de luar sobre o Macaúbas




O nascimento da Lua ontem foi perfeito. O céu invernal estava limpo e o brilho de Jaci apareceu no horizonte muito antes que ela mesma surgisse, luminosa, intensa, puxando para o vermelho ao “rés do chão”, antes de tornar-se prata pura já alta no céu.

Não vi o nascimento da Lua cheia hoje, mas há poucos minutos saí e caminhei um pouco, tomando um “banho de lua”, como dizia antiga canção dos tempos d’eu menino.

Essas noites de luar pleno são mágicas. A palavra é meio batida, reconheço, mas ela readquire seu significado original quando caminhamos silenciosamente pela estradinha de acesso à casa, saindo da sombra de uma das mangueiras ou da paineira para a luz do luar e entrando em outra sombra de outra mangueira ou da mamica-de-cadela, nome meio feioso para árvore muito bonita. E cheia de espinhos, que com um pouco de boa vontade lembram as maminhas de uma cadela ou de uma porca, outro nome para ela.

A luminosidade é intensa a ponto de gerar sombras muito bem definidas. A vista alcança longe e apesar de enxergarmos tudo, muito mais fica apenas num vislumbre tão passageiro quanto enganador.

Um velho pedaço de tronco poderia parecer um capanga de outros tempos, emboscado, à espera do incauto viajante ou do alvo para cujo fim foi contratado. A luz do luar engana e do engano nascem histórias as mais incríveis.

As cachorras aproveitam a noite fresca, quase fria, e dormem sobre seus panos quentes e aconchegantes. Mal e mal abrem uns olhos curiosos para mim e tornam a fechá-los, já estão acostumadas com minhas andanças noturnas.

O citadino perdeu essas noites, desconhece essa magia. 
Ignora o falso silêncio das noites sertanejas, das noites na roça, desde que não haja mais colheita de cana nas proximidades. 
Perdeu, também, outra magia, a das noites escuras, enganadoramente escuras, pois é só questão de tempo para os olhos se acostumarem à claridade tênue, difusa, proporcionada pela luz das estrelas. 
Em noites assim, a estradinha em solo de areião facilita a vida. Enxergamos tudo e caminhamos sem risco de um tropeço ou de um pisão numa pedra.

Nessas noites parece que o Universo está mais presente.
Não sinto nossa insignificância, mas sinto que há muito a conhecer, a entender.


sábado, julho 28, 2012

Pensamentos ao léu na beira do caminho




A saca do farelo de soja chegou a oitenta reais. Inacreditável.
O milho sobe, não dá para saber o quanto mais subirá.
Milho e soja respondem por quase um terço dos custos de produção, em média. Não há fuga, têm que ser usados. Eventuais ou possíveis substitutos têm custos parelhos, ligeiramente menores, mas com qualidade inferior. Melhor pagar um pouco mais e ficar com o que é bom.

Voltando para o sítio depois de ter levado o Dito para sua casa, no pequeno distrito de Santa Cruz da Estrela, antiga Jacirendi, tive o Sol bem à minha frente. Mas não ofuscou e nem estava com óculos escuros. A linha do horizonte escondia a maior parte de seu disco e deixava somente um semicírculo alaranjado, puxando para o vermelho. 
No alto do morro antes de chegar no sítio do Sandro, parei o carro por alguns minutos, enquanto o Sol “descia” e escondia-se no horizonte. Nenhum carro passou, as vacas num pasto próximo não se dignaram a perder mais tempo que o suficiente para um rápido olhar de avaliação. 

Um final de dia gostoso, a temperatura em confortáveis vinte e quatro graus e a vista tomada por sítios e fazendas, lavouras de cana e um pouco de laranja, pastos e eucaliptos, aqui e ali manchas do que já foi mata nativa. Com jequitibás e pau-d’alhos imponentes, muitas vezes centenários, hoje reduzidos a um aqui, outro muito longe. 

Na outra encosta, em meio ao canavial recém-brotado, uma velha e retorcida copaíba, que ficou solitária quando a mata foi derrubada. Foi cercada pelo café e depois pelo pasto. Que cedeu lugar a grande pomar de laranja, até que as doenças chegaram e o pomar se foi, doente, degradado, ocupado por dezenas de vacas em busca do que comer. 
Não faz muito tempo os esqueletos que um dia perfumaram o ar nas floradas e carregaram-se de amarelo na safra, foram reunidos e empilhados em montes pelas lâminas dos tratores e a fumaça das fogueiras tomou conta de parte do céu. 
As vacas foram embora, prefiro não saber para onde, e a cana, mais cana, cerca agora a solitária copaíba, que a tudo isso sobreviveu.

O Sol sumiu no horizonte, ficou somente sua claridade morna e suave de um fim de tarde invernal.

Voltei para o carro e o preço da soja reocupou seu lugar perdido enquanto dirigia os três quilômetros finais até chegar em casa. 
E apesar de parar, descer, fechar a porteira, voltar para o carro e dirigir mais trezentos metros ou pouco mais que isso, como todo dia útil, tive a consciência de que vivera um momento único. 
Como todo momento que vivemos. 
Banal, simplesmente único.

domingo, julho 08, 2012

Chuvas, inverno e pastos


Chuvas, inverno e pastos

À guisa de introdução e escrito para um amigo que anda pensando em saltar de São Paulo para a roça: essa história de deixar Sampa e vir pro sítio, bom, só digo uma coisa: ainda bem que arrependimento não mata, pois já estaria mortinho, tão grande é meu arrependimento ao pensar nos muitos anos que fiquei em SP adiando a vinda para cá. Enquanto escrevo, termina a ordenha, dá pra ouvir a Prata FM com sua programação sertaneja, as angolas aporrinhando de tanto dizer que “tão” fracas, passarinhada cantando pelas árvores e outros clichês, todos eles bons demais. O dinheiro é curto e o trabalho é muito, mas é “bão” demais.

Acordei no meio da madrugada com o barulho da chuva. Mais pra chuvinha do que pra chuva, uma garoa metida a besta, digamos. Depois de um junho com várias chuvas dignas desse nome, devidamente acompanhadas pelo barro, esse garoão de início de julho é outra bênção dos céus para nós. Não para todos nós, como sempre, pois, mesmo fraco, irá atrapalhar um pouco o final da colheita do café de muitos produtores, bem como dos talhões de milho que ainda restam. Mas os nossos pastos continuarão verdinhos, bonitos de ver e... quase sem utilidade real, pois não terão massa, não terão volume suficiente de capim para as vacas se alimentarem.
Tudo seria diferente se eu tivesse feito uma sobressemeadura de aveia e azevém, porém, como era de se esperar e de acordo com as Leis de Murphy, não fiz. E choveu. Se tivesse feito... não teria chovido e teria perdido o dindim das sementes, caras pra burro. É assim que é e o jeito é navegarmos de acordo com essas verdades imutáveis.
Aqui cabe uma explicação: nossos pastos, como a maior parte dos pastos brasileiros, são formados por capins tropicais: mombaça e tanzânia, que são varietais do famoso colonião, e braquiária. Ora, capins tropicais precisam de muita luz, muita água e muito calor para crescerem. Os coloniões diversos precisam, também, de muita fertilidade no solo. Na verdade isso é falso, é lenda urbana, pois todo e qualquer capim precisa de solo fértil para render alguma coisa, seja colonião, elefante, gordura ou braquiária. Baixa fertilidade, pouco capim. Alta fertilidade, muito capim. Falando ou escrevendo é simples, mas na vida real é diferente. Muita gente ainda hoje acha que pasto é pasto, basta pôr a vacada em cima e tchau. Triste, cara e empobrecedora ilusão.
Voltando ao tema: como disse, tivemos chuvas em junho e agora esse garoão julino e o capim tá verdinho que dá gosto, mas sem massa. Porque faz frio. Não importam os vinte e tantos graus do meio do dia, o que importa é a mínima, que nessas Terras Altas Paulistas anda na faixa dos doze aos catorze, às vezes quinze graus. Ora, com uma mínima de dezoito graus os capins tropicais diminuem o ritmo de crescimento. Com uma mínima de quinze eles, muito simplesmente, param de crescer.
Aveia e azevém são gramíneas de climas temperados, pouco suscetíveis a esse friozinho tupiniquim. Se tiverem fertilidade, luz e água crescerão, mesmo com o frio. Daí a tal sobressemeadura, que nada mais é que botar um balde com calcário e sementes das duas gramíneas, tudo bem misturado, e todo dia, antes de abrir um piquete para a entrada de suas senhorias, as vacas, botar o balde aninhado junto ao sovaco esquerdo e caminhar pelo piquete, jogando a mistura calcário/sementes com as mãos.
Esqueçam as luvas, elas não funcionam, o serviço tem que ser feito com as mãos nuas, mesmo. O diabo é a brisa que sopra bem na hora em que estamos arremessando as sementes em  gracioso arco (muito bonito em slow motion, nos documentários agrícolas, apesar do pó), o que acaba trazendo um mundo de calcário direto para o nariz e a boca, aberta a troco de nada. Mania mais besta essa, sô!
O calcário é para facilitar a mistura, a pegada e o arremesso, além de marcar onde já jogamos. E fazer o serviço todo dia, antes de abrir o piquete, é para que as vacas pisoteiem as sementes e completem o serviço.
Teria que ter feito a sobrressemeadura em abril, comecinho de maio. Não fiz, pois pensei que as chuvas parariam como pareciam que iam parar. Coisas da roça e da vida.
Seja como for, é muito bom ser acordado no meio da madrugada pelo barulhinho gostoso da chuva. Nem se compara ao acordar com câimbras ou a maldita coceira da psoríase. Ouvi um pouco, o suficiente para perceber que era mansinha, sem ventos e, principalmente, sem raios e trovões, o que teria me obrigado a levantar para ir desligar o tanque de refrigeração do leite. Embalado por essa cantiga tão antiga como o mundo voltei a dormir, pensando, com uma pontinha de amargura, no azevém e na aveia que não sobressemeei. Ano que vem será diferente.
Ou não... Afinal, quem já ouviu falar em dois anos seguidos com invernos chuvosos nesses tempos de aquecimento global e previsões acuradissimas?
Eu é que não.

sábado, junho 23, 2012

Notícias de um abacateiro


Notícias de um abacateiro

A safra de abacate se encaminha para o final aqui no Sítio das Macaúbas. Na verdade, é a safra de um solitário abacateiro, por enquanto. A árvore já tem uns par de anos e desenvolveu-se a partir de uma muda nascida do próprio caroço de um fruto colhido e há muito saboreado. Provavelmente por cavalos, pois ela veio de um haras lá longe, em Itapecerica da Serra, onde montei durante algum tempo sob o olhar atento da amiga e instrutora Claudia. E por lá ficou a minha velha sela, modelo de adestramento, que já comprei bastante experiente, para não dizer velha. Coisas da vida e suas mudanças, quando sempre deixamos coisas para trás, inclusive coisas queridas.
Mudas de pé franco, ou seja, de semente, são lentas no crescimento e no frutificar, mas sai estação, entra estação, uma hora elas frutificam, até porque isso aqui ô ô, é a Terra de Vera Cruz, na qual, segundo a crença luso-tupiniquim, em se plantando tudo dá. Coisa que o abacateiro e a democracia provam ser verdade, embora essa última deixe muito a desejar, talvez porque verdolenga, ainda. 
Mas há de frutificar, como esse abacateiro, cujos frutos continuam caindo, grandes, compridos, pescoçudos, verdadeiras girafas entre os abacates, de sabor mais do que razoável, tanto adocicado como salgado. As bezerras, Jersey e mestiças, não perdem um. Comem todos, chegando mesmo a ter um ou outro bate-boca, até algum barraco, como se a novela das nove ora em cartaz tivesse se mudado do Divino para esse Sítio das Macaúbas. O Tufão é, com certeza, o Negão, nome do filho da Lindoia. Carminha não deve ter, afinal, né por nada, não, mas minhas bezerras têm boa educação. Ia dizer, também, que elas têm berço, mas, sei lá, alguém pode reclamar e dizer que isso é uma barbaridade preconceituosa e nem um pouco politicamente correta. Então, temente que sou às línguas ferinas, desisti.
Bom, nessa altura os leitores que não me conhecem e os que me conhecem, mas já esqueceram de meu prolixismo, estão se perguntando: E daí?
Ora, daí nada, apenas estou escrevendo e jogando essas palavras aos ventos, porque ao olhar o abacateiro lembro-me que há muito não cavalgo e ando com uma baita saudade de sair galopando ou troteando mundo afora. Poucas coisas há tão boas como simplesmente montar e olhar os arredores com a visão de cavaleiro, mais ampla que a do motorista, sempre focada, estreita, como se cerceada por uma viseira. Mais ampla, também, que a do pedestre, embora não tão rica em detalhes só perceptíveis quando as pernas param e contemplamos alguma coisa. Quem caminha e olha sabe que o mundo está cheio de coisas interessantes, não importa por onde caminhemos. As caminhadas também estão cheias de cercas, pelo que vejo, pois os caminhantes estão tão concentrados em seus fones de ouvido ou na contagem de passos dados, metros percorridos, calorias perdidas, que é como se seus olhos, todos eles, os reais e os da imaginação, estivessem contidos por cercas.
Enfim, não é mais possível trotear e galopar como nos tempos d’eu ainda menino, pois a cada meia dúzia de passos encontramos uma cerca, uma porteira, um mata-burro, todos e cada um me matando de raiva.
Tem gente demais, tem cerca demais nesse mundo de hoje, tem liberdade de menos.
Em compensação tem internet, um mundo sem cerca, que me permite contar a quem conheço e a quem não conheço que o abacateiro que ganhei no haras em Itapecirica vai bem, obrigado.
Acho que compensa.

sexta-feira, janeiro 13, 2012

Mangas para dar e vender, mangas para vacas e gentes

A manga, grande e amarela, bonita, destacou-se facilmente na frente do carro, no meio da estradinha que dá acesso à nossa casa. Há muitas mangas nesse ano, em alguns dias o trajeto do carro fica cheio delas, derrubadas pelos ventos fortes das tempestades de verão, em parte.
As mangueiras ladeiam a pequena estrada, dos dois lados, cresceram, em alguns pontos formaram um túnel. O caminhão do leite, com seu tanque alto e as guardas para proteger o operador no alto do tanque, faz e refaz um verdadeiro túnel a cada entrada que faz por aqui, sempre depois das chuvas que impedem seu acesso pela outra entrada. Ao formar o túnel, quebrando galhos, derrubando folhas, também joga no chão enorme quantidade de grandes frutas. É o responsável pela outra parte das frutas caídas.
Dá dó, a perda é grande. Essa é uma das coisas que ainda existem no Brasil rural, mas não mais em todo, já que boa parte das propriedades não tem mais essas alamedas formadas por árvores frutíferas. Quando árvores existem, são eucaliptos, pinheiros, grevíleas... Sem graça, mas comportadas. Não atraem muitos pássaros, assim como tampouco atraem marimbondos, vespas, moscas e toda a passarada que gosta de insetos e frutas. É uma escolha, típica dos novos tempos.
Paro o carro, desço e pego a grande manga amarela. Já está com dois ou três buracos onde insetos diversos fazem a festa depois que os passarinhos começaram e deixaram para trás. É pesada, tem muito mais de meio quilo, deve estar próxima do quilo cheio. A poucos metros, do outro lado do cordão eletrificado, a Bonita e a Alvorada observam. As vacas estão viciadas em mangas nessa temporada. Algumas delas ficam com os focinhos amarelados quando pastam na sombra das mangueiras. Não pastam, chupam mangas. Ponho a pesada fruta no chão, ao alcance da boca da Bonita que não perde tempo. Perto tem outra, menor, que pego e dou para a Alvorada. Pronto. Justiça social feita, acepipes distribuídos igualmente, volto para o carro e vou para casa. O dia termina.

As variedades de mangas são muitas. De nome, conheço somente a borbon, a velha rainha das mangas. As outras são das variedades modernas, com nomes ingleses: Keith, Palmer, Haden (não é americano esse) e outras. Ignoro quem seja quem, não peço identidade na hora de saboreá-las. Com tanta manga dando sopa, é comum termos travessas cheias de gordos pedaços amarelos dessa fruta tão gostosa. Gosto dela firme, madura, mas não muito. Algumas até prefiro na passagem inicial de verde para maduras. Questão de gosto. Alguns minutos na geladeira são o suficiente para deixar os pedaços no ponto exato. Prazer puro que refresca e alimenta. Parece frase de propaganda, mas é o que saiu da minha cabeça.
Paro por aqui, afinal, a barriga está cheia, satisfeita e, depois dessa frase publicitária, sei lá o que sairá dessa cabeça.

sábado, dezembro 31, 2011

Feliz amanhecer, feliz 2012

Todo amanhecer é como um recomeço, que muitas vezes é o que nos faz seguir em frente, sem esmorecer. Não há, para mim, melhor horário no dia que o amanhecer. Gosto de levantar durante a madrugada, há um silêncio todo próprio daqueles momentos, um silêncio cheio, se é que posso usar tal termo. Cheio da vida que se agita prestes a saudar o novo dia, cheio de expectativas e promessas.
E à medida que a luz do Sol vai surgindo lentamente no horizonte, a passarinhada começa a fazer sua algazarra. A temperatura da madrugada também é própria dela, diferente. Nesses dias de verão, o frescor é um bálsamo e anima o corpo. Nos dias de inverno, um agasalho e o primeiro café trazem conforto e uma felicidade diferente, especial, a cada novo dia igual e diferente, a felicidade de cada amanhecer.

O ano novo é como o amanhecer para o dia, a melhor parte do ano, aquela sucessão de nomes e números que vemos marcados nas folhinhas penduradas nas paredes. Ou víamos, já que hoje só se sabe em que dia estamos depois que o computador ou o celular cheio de teretetês é ligado.
O novo dia é algo natural, fruto do casamento da Terra com o Sol, primitivamente falando (ou, quem sabe, sabiamente falando?).
Assim também é o Ano Novo, mas ele não é natural, foi criado pela nossa mente metida a catalogar e organizar tudo, até a vida e o tempo.
Por isso, organizadamente, é nele que mais crescem as promessas, sonhos, ilusões, desejos...
É o momento em que a Esperança toma conta.
Esperança... Talvez o mais humano dos sentimentos, fusão do irracional profundo com o racional.
É esse o sentimento de todo novo ano, a cada novo ano.
Esperança de manter a felicidade, de ser mais feliz, de encontrar a felicidade, que muitas vezes está bem próxima, bem juntinha, mas nós teimamos em não vê-la. Ou vemos, mas não sabemos que é ela que está ali do lado, meio sorridente, meio como quem nada quer, quietinha e discreta.
Talvez porque crescemos e vivemos num mundo em que felicidade é conjugada com o verbo ter, mas, acreditem, foi falha de impressão no Manual de Busca da Felicidade.
Felicidade se conjuga com o verbo ser.
Ser.
Sejam felizes em 2012.

quinta-feira, agosto 25, 2011

E a Mel se foi...

Aviso aos navegantes: é meio triste.

Se quiser passar batido, passe.

Muitas vezes eu faço isso.

Ela nasceu quando há pouco morávamos na Granja Viana, filha da Belinha com o Bilbo.

Viveu conosco por 17 anos - dizem que isso equivale a 120 dos nossos anos.

De um jeito ou doutro era uma senhora.

Ranzinza, chata com estranhos, ainda a fêmea alfa aqui, apesar da idade.

Desde que mudamos para cá ela dormia dentro de casa. Às vezes, de madrugada, a bexiga apertava e ela ia até nossa cama pedir para sair.

Uma "delícia" nas madrugadas geladas desse Sítio das Macaúbas, mas, ora bolas, era a Mel.

Começou a sofrer e a ter uma série de problemas em rápida evolução.

Hoje cedo a Rosa levou-a ao veterinário, novamente, e voltou com ela e alguma esperança.

Em vão.

Nesse começo de noite voltamos à clínica e ali, com a Rosa acarinhando sua cabeça, foi sacrificada.

Parou de sofrer.

Digo a mim mesmo, à Rosa e aos outros que "tudo bem, ela viveu bem e bastante, chegou sua hora" e coisa e tal.

Tudo verdade, mas, assim mesmo, triste pra burro.

Cachorros fazem parte da minha vida desde que era bebê.

A mesma coisa com a Rosa.

E, pouco depois de nos casarmos, passaram a fazer parte da nossa vida e das vidas de nossos filhos.

A gente sofre nesses momentos, mas é assim que é.

Por aqui estão a Sophia, a Neguinha, a Lily e o Abobrinha, todos eles achados pela Rosa (três) e por mim (o Abobrinha) e recolhidos.

Cada qual com sua própria personalidade.

O veterinário, cara legal, gentil, atencioso conosco e carinhoso com os cachorros, perguntou-nos se queríamos deixar a Mel lá e depois ele mandaria enterrá-la.

Não.

Não é assim que somos, é inconcebível para nós deixar o bichinho partir sem o conforto da nossa presença.

Não sentem medo, não muito, acho, pela frieza do ambiente estranho.

Amanhã vamos enterrá-la aqui, ao lado de seu pai, o Bilbo.

Besteira ou não, é assim que nós gostamos.

E, sei lá, né, vai que ela tem seu espírito...

terça-feira, agosto 23, 2011

As agruras da seca – a queimada criminosa

“É calor de mês de agosto, é meados de estação
Vejo sobras de queimadas e fumaça no espigão
”

Os versos que abrem “Terra Tombada”, de Carlos Cezar e José Fortuna, cantada por Chitãozinho e Xororó, retratam bem esse mês que é sempre chato. Faltou falar do vento, que seca e resseca tudo ainda mais.

O monte de palha que tiramos da cana antes de ser picada para as vacas queima de forma instantânea, mal se encosta nele a chama do fósforo. As labaredas crepitam, a fumaça corre meio deitada no rumo do Sol ainda alto, levada pelo pouco de vento do começo de tarde. Em questão de segundos fica sobre o chão apenas pequeno monte de cinza, fumegando. O ceu, para os lados do oriente, está opaco, tomado por um cinza escurecido com uns toques meio avermelhados, tudo efeito do ar tomado por partículas as mais diversas, sólidas, nem é preciso dizer, que irritam os olhos, a garganta e até a boca.

É agosto.

Dias atrás, dia amanhecendo, o Dito chegou e disse-nos, com ar preocupado, um pouco até assustado, que alguém tocara fogo no capim do barranco na beira do asfalto e as chamas tinham quase chegado no nosso pequeno e salvador canavial, comida única das vacas nessa seca. Só não pegara fogo na cana porque um caminhão da usina jogou água e apagou o incêndio em seu começo. Tudo isso ele viu e deduziu em segundos, enquanto seu ônibus passava ao lado, já reduzindo a marcha para ele descer.

Ordenha finda, fomos lá dar uma olhada. De fato, tudo deve ter acontecido tal e qual disse o Benedito, para não ficar “disse o Dito”. O fogo começou na divisa do acostamento com a estreita faixa de terra antes da cerca. Passou pelos arames e mourões rapidamente, mas deixando suas marcas. Subiu o pequeno barranco tomado por capim e arbustos e entrou no carreador que margeia o canavial.

Foi nesse ponto que apareceu o caminhão-bombeiro salvador. O pessoal da usina sabe dos malefícios que mentes criminosas espalham nessa época e os motoristas dos seus caminhões-bombeiros têm liberdade para debelar esses princípios de queimada. Santa providência! Graças a ela, não perdemos a comida das vacas, o que seria simplesmente catastrófico para nós.

Os caminhões são usados para prevenir e controlar eventuais excessos nas queimadas de cana para colheita, processo em fase de extinção no estado de São Paulo, reduzido mais e mais a cada ano. No alto do tanque, atrás da cabine, é montada uma estrutura com um canhão-d’água. O motorista sobe, senta-se atrás da peça de artilharia aquática e dirige um jato poderoso contra os pontos com fogo. A força da água foi tanta que tombou toda a primeira linha de cana, e também boa parte da segunda. Tombou, mas salvou, e graças ao canhão-d’água da usina minhas vaquinhas Jersey e mestiças continuam comendo a sagrada cana picada duas vezes por dia.

Bom, voltando ao crime propriamente dito: como de hábito, ninguém viu, ninguém nada sabe. Falar com a polícia é tempo perdido, pois nunca fizeram e tampouco virão a fazer algo para prevenir ou punir esse tipo de crime. Pensei em falar com a Polícia Ambiental, que ainda chamamos de “Florestal”, mas seria igualmente inútil. Como seguro morreu de velho, pensei, e nisso fui apoiado pelo Zé Divino e pelo Dito, que seria até melhor não ter polícia enxameando por aqui, olhando, fuçando, pois o resultado mais provável seria apenas atiçar a vontade criminosa, que, certamente, voltaria à carga para terminar o serviço que foi interrompido.

Como de hábito, novamente, e temos muitos desses hábitos, fiquei “na minha”, apenas torcendo para nada acontecer. Claro que à mercê da bandidagem, contra quem não temos defesa. Ter uma arma em casa e disparar meia dúzia de tiros é procurar, e achar, chifre em cabeça de cavalo. Ora, como bem sabemos que cavalo não tem chifre...

Fizemos ligeiro aceiro na beirada do carreador e mudamos o corte da cana. Em poucos dias tiramos toda a cana mais próxima do asfalto, recuando o início do canavial em vários metros.

Para ajudar, caiu chuvinha miúda, raridade para agosto, que ajudou a dormir sem grandes receios.

A seca, porém, ainda não terminou e não sabemos quando isso acontecerá. Tanto gastamos em tantas coisas e não temos um satélite meteorológico próprio, posicionado para cobrir unicamente o que de fato interessa ao Brasil. Se não tivéssemos tantos ministros, tantos assessores, tantas malas (além de cuecas, meias e outros cofres) circulando pelos corredores e ante-salas brasilienses, sem dúvida sobrariam rios de dinheiro para gastarmos em coisas como um satélite meteorológico.

sexta-feira, julho 29, 2011

As agruras – algumas – da seca

Um amigo de Brasília, em troca de mensagens sobre o futebol, sugeriu-me o uso de colírio, ironicamente. O objetivo seria melhorar minha visão da realidade, em sua opinião. A verdade, sem ironia, é que já uso colírio, abundantemente, tanto ou até mais que ele, novamente sem ironia. Afinal, essa Santa Rita do Passa Quatro anda tão ou mais seca que a capital federal, terra de pessoas simpáticas, trabalhadoras, honestas, por nascença ou adoção, e terra de uma gente que mais infelicita que beneficia essa Terra de Vera Cruz. Claro que essa gente última à qual estou me referindo por último, são os muitos, os inúmeros membros das elites de plantão na condução dessa Pindorama.

Elites... Pois sim.

A seca por aqui anda braba, coisa feia, mesmo. A poeira tudo cobre. Uma mera corrida dum galo atrás de uma galinha, para a prática do nobre esporte reprodutivo, levanta nuvens de poeira onde antes havia gramado. As noites secas e frias, não poucas vezes geladas, permitem-nos avistar estrelas a mais não poder, e mais a Via Láctea, esplêndida, fascinante. Pena que bate um vento chato, que seca ainda mais o que já seco está.

Haja paciência, haja muita paciência e perseverança, pois ainda temos agosto a atravessar e setembro. O mesmo setembro que em tempos idos era o mês de plantar, pois é quando começa a primavera e é quando as chuvas chegavam.

Não chegam mais, a não ser por acaso, chuvas perdidas, sem constância.

Ora, como parte das ironias muitas que a vida nos apresenta, é justamente nessa época que a bomba da mina queima. O que aconteceu porque trabalhou tempo demais no seco, vibrou demais, caiu do suporte, quebrou a caixa que armazenava a água que ela bombeava cá para cima e, por fim, entrou em curto e queimou. Adeus bomba.

Comprar nova bomba não é difícil, embora o dinheiro não permita o luxo de cobrir imprevistos, afinal, já não cobre nem mesmo os previstos. O problema é comprar nova caixa para armazenar a água a ser bombeada. O ideal é que tenha ao menos 2.500 litros de capacidade. Ora, como dispor de tal soma é hoje mera ilusão, o jeito foi apelar e fazer uma gambiarra, conduzindo a água do poço que abastece as casas para abastecer, também, os bebedouros das vacas e os demais usos e necessidades.

Embora com 16 metros de profundidade, o poço, responsável por uma água deliciosa que bebo aos litros, literalmente, todo dia, tem sua produção limitada pela seca. Então, anteontem, aconteceu o que eu esperava e temia: ele secou.

Ó ceus, ó vida...

Chamei o Toninho, o homem da água. Foi ele que furou esse poço há 11 anos. Diziam os vizinhos que não tínhamos água por aqui. Alguns poços já tinham sido furados, em vão. Mas o Toninho, ou Tonho, como também é chamado, disse que isso era bobagem. Confiei na sua confiança e contratei-o.

Lembro como se hoje fosse... Ele chegou, desceu do carro, pegou um pedacinho de ferro em Y e disse que era aquele trem que ia dizer-lhe onde furar.

Ai ai ai... Pensei com meus botões, onde é que eu fui botar meu dinheirinho... De repente, num lugar bastante improvável para todos nós, leigos, e pertinho de casa, ainda por cima, a varetinha segura por suas duas mãos apontou para baixo. E com força, aparentemente. É aqui – disse ele. E aqui estamos nós, onze anos depois, a beber e a usar a santa água do nosso poço. Mas agora ela secou. Demos uma noite de descanso, ligamos a bomba... Vinte minutos depois, secou de novo. O jeito foi apelar e chamar o Toninho. Ao telefone já disse-me: Qual seca, nada, seca é só em agosto e olhe lá, o poço tem água, sim.

Santa confiança, e nela confiei, mais uma vez.

Bom, resumindo o que já está muito longo, ele tinha razão: a bomba estava puxando água demais, acima da capacidade de reposição do poço. Regulagem feita, a água voltou a cair e a encher as duas grandes caixas, uma para nós, os macacos sem pelo aqui habitam, outra para as quadrúpedes de muitas tetas e grandes “peitos”, comedoras de capim e cana.

Com a vazão no volume que está, demoraremos uns dez dias para encher as duas caixas com 5.000 litros cada uma. Isso porque ligamos a bomba por duas a três horas e desligamos, para uma parada de duas ou três horas e nova ligação. Durante a noite nem pensar, ela fica desligada. Os banhos dos humanos e a sede das bovinas gastam à noite o que foi acumulado de dia.

Não faz mal, o bom é que temos água. Bendita sensação essa.

sábado, julho 23, 2011

Vãs reflexões

Vãs reflexões

O Brasil está podre, a sociedade está anestesiada, as mais diversas autoridades de todos os tipos e escalões parecem ser cada vez mais, cada dia mais corruptas e descompromissadas com o bem-estar das pessoas, essas que vêm a formar o famoso povo, e pior ainda com a ética, com a moral, com bons princípios.

Ando pensando sobre essas coisas, mas, sei lá, quanto mais penso mais desanimado fico.

Nos anos 70 tudo parecia muito claro: havia o bem e o mal. O bem tinha uns arranhões, o mal tinha uns lampejos bonitinhos, mas era tudo muito claro.

Na verdade não era, mas parecia.

A União Soviética era um modelo, mas descobrimos ser totalmente furado.

Os Estados Unidos eram a encarnação do mal, o que viemos a descobrir não passar de uma grande tolice.

O mal simplesmente é parte em tudo.

A Igreja já era contestada, mas ainda impunha respeito em uns, temor em outros. Hoje, respeito e temor são apenas parte do passado.

O materialismo era combatido, mas era o materialismo histórico, marxista ou, pior ainda, marxista-leninista. O primeiro era meramente reflexivo, o segundo só podia ser ativo ou não era.

O materialismo hoje é dominante, mas não é o histórico, é o reles e vil materialismo do ter por ter, ter muito de tudo cada vez mais usufruindo nada de tudo cada vez mais.

Sentar para conversar e jogar fora, séria ou divertida, só existe se dúzias de cervejas do comercial mais atraente estiverem presentes e forem consumidas. Se litros não forem consumidos individualmente, a conversa não rolou, a festa foi um fiasco, nada se aproveitou.

Não existe o parar para pensar, simplesmente. Pensar incomoda.

No carro, para não pensar, nada melhor que o rádio ou o emepê alguma coisa no máximo volume. Se, assim mesmo, algum pensamento insistir em dar as caras, o jeito é apelar e sacar do celular e falar nada com um monte de pessoas que nada dirão da mesma forma, exceto meia dúzia de frases e expressões consagradas pelo uso e ausência de significados, pois tudo significam, servem para qualquer coisa, mesmo nada dizendo ou justamente por isso.

A internet é parte disso tudo. É agente e é sintoma. Busca-se o mínimo mais e mais, a ponto de ser perigoso que a próxima grande conquista seja a ingestão de comida já digerida, bastando engoli-la e pronto.

sábado, julho 09, 2011

Manhã de sábado

Mais um dia que amanheceu gelado, literalmente. A Tempra, uma vez mais, coberta por uma capa de gelo, assim como os pastos baixos e gramados. Nos termômetros, zero grau. Vacas e bezerros levantando com preguiça e alongando os músculos lentamente. É o que podemos chamar, para seguir o modismo, de inteligência biológica.

O café quente desce gostoso e reanima, estava quase escrevendo ressuscita, mas os dois verbos não são corretos: hoje, ele anima, simplesmente.

Que me perdoem os certinhos de todos os hemisférios, mas cafeína é um motor fantástico.

Eu sou um cara caffeine powered, assumo, desde criança, com 5 ou 6 anos de idade. Bebia café frio e doce em copo, mais de dois por dia. Nos tempos de militância mais pesada, saía de casa de madrugada, depois de duas ou três horas de sono, levando no estômago um copão de café frio da tarde do dia anterior e um pedaço de pão com bastante manteiga. Era a energia que me mantinha ativo até as duas ou três da tarde. Aos 18 anos fazemos coisas impensáveis aos quarenta, cinquenta...

Por sinal, café doce nem pensar, só quando visito alguém que o faz já adoçado. Gosto do café puro, mudança adquirida perto dos trinta, provocada pela eterna gastrite. Sem açúcar, a bichinha diminuiu e desde então temos convivido mais ou menos bem.

Enquanto preparava a cana para picar e fazer o trato da manhã, a Rosa chamou-me para mostrar os Tucanos. Ou melhor, tucanos, pois eram 4 a comer mamões nos nossos mamoeiros carregados. Figuraças. Comem de tudo: frutas, coquinhos, ovos, filhotes de passarinhos e aves... Os Tucanos, denominados T-27 pela FAB, também povoam nosso ceu e, às vezes, fazem manobras bem em cima de nossas cabeças. Em algumas, o barulho é ensurdecedor e dispara a injeção de litros de adrenalina no nosso sistema. Imagino esses bichinhos e outros parentes atacando de verdade, disparando mísseis terra-ar, bombas e tiros de metralhadoras .50. Por pior que consigamos imaginar ainda estaremos a anos-luz da sensação real.

Hoje foi difícil chegar à NewBooks, onde o Leandro até agora não deu as caras. É o frio, ainda bem que a Michele e a Monica não deixam a peteca cair e, mesmo feriado, aqui estamos. Já tomei um expresso e comi um pão-de-queijo bem quente.

Chega um rapaz, mulato alto, forte pra burro, bem falante e começa a conversar com a Monica. A horas tantas, comentando o feriado, dispara que é referente a quando “São Paulo quis se separar do resto do Brasil”.

O mito persiste, devidamente manipulado e perpetuado Brasil afora por interesses paroquiais. Em outros tempos teria feito um discurso e colocado a verdade na cabeça dele. Ou assim pensaria. Hoje, ouço, penso e volto a escrever e liberar comentários no OCE. Desencanei.

A gloriosa prefeitura santarritense – gloriosa, carésima (hummmmmmmm...) e inútil – dividiu a cidade em duas partes. Para chegar aqui tive de dar uma volta enorme, metade dela despejando palavrões cada vez mais cabeludos à medida que novas ruas apareciam bloqueadas, para desespero da Rosa. Paciência.

No OCE, um sujeito escreveu um comentário imenso, mais de 50 linhas, bem mais. Nas quatro primeiras já tinha me ofendido sei lá quantas vezes, inclusive falando dessa bela faccia que ostento. Na quinta ou sexta ofendeu até meu pai, grande pequena figura, a quem devo, em boa parte, ser são-paulino, algo que está no meu DNA. Aí não deu, nem li o restante, deletei tudo. Minha vingança foi dizer ao imbecil que ele escreveu um monte e eu li um tiquinho só. Trabalhou à toa, deu-me chance de dar uma resposta do tipo que gosto e ainda rendeu assunto para encher meia dúzia de linhas com linguiça.

E segue o sábado e outro expresso está a caminho.

terça-feira, junho 28, 2011

Gelo matinal

Os dois graus das duas e meia da madrugada, quando fui dar uma olhada nas bezerras mais novas, evoluíram para menos um grau às seis da manhã, que persistiu até poucos minutos atrás.

Agora, quase sete e meia, já está quente: zero grau.

A Tempra amanheceu coberta por uma crosta de gelo.

Parte dos pastos e o gramado estavam igualmente brancos.

A bezerrinha caçula, nascida na madrugada de sábado, filha da Alvorada e batizada de Madrugada (é, não sou muito criativo nos batismos), resistiu bem: acordou e veio em busca da mamadeira.

Essas temperaturas baixas não são ruins para as vacas e os bezerros, embora já fora de sua zona de conforto.

Dormem bem, permanecem confortáveis, mas consomem mais energia para manter o "aquecimento central" funcionando, daí o fato de estarem fora da zona de conforto.

A partir de menos cinco, entretanto, a situação pode mudar.

E vacas doentes ou subnutridas já sofrem e até morrem com zero grau.

Comida é conforto. E saúde, etc, etc.

Eu já estou confortável, agora: meia caneca de café, seguida por uma caneca de café com leite e um belo pedaço de pão italiano cheio de manteiga.

"Dez quilos" de colesterol... Vou ter que trabalhar um bocadinho pra queimá-lo. A cafeína deve ajudar, eu acho. Sou movido a cafeína desde o berço.

:o)

Antigamente era pior. Ao invés de começar o trabalho às 05:45 ou alguns minutos mais, começava-se às 03:30 ou 04:00.

Coisa de louco, mas ainda há muitos nesse esquema.

Por mim, começaria pouco antes das sete, no inverno, mas há coisas imutáveis na cultura das pessoas.

Pra começar pouco antes das seis já foi uma luta.

Cede-se um pouco aqui e um pouco de lá e pronto.

É o que se chama de negociação e consultores cobram caro à bessa das grandes empresas para ensinar aos executivos que tudo que se precisa, na verdade, é bom senso e respeito às vontades alheias.

Se eu escrever "à beça" o word não coloca o traço vermelho.

O word está errado, valem as duas formas.