domingo, agosto 26, 2007

Brasilianas de agosto de 2007


Ato criminoso

O governo lulla da Silva deteve e entregou às autoridades da ditadura castrista que domina Cuba dois atletas que fugiram durante os jogos Pan Americanos realizados no Rio de Janeiro. Foi uma atitude covarde e criminosa, pois nada mais foi que um crime aos direitos humanos, os famosos direitos humanos pelos quais esses indivíduos hoje no poder tanto clamaram quando na oposição. Direitos humanos pelos quais tantas pessoas de boa fé e crença na democracia lutaram por anos a fio, enfrentando a ditadura militar que então dominava o Brasil.

O governo lulla da Silva apóia-se em tecnicalidades para dizer que os atletas foram devolvidos à ilha-prisão por livre e espontânea vontade. Mentira.

Fidel decretou que os dois nunca mais poderão disputar competições oficiais e nunca mais poderão sair de Cuba. Tecnicamente, estão presos.

E descobre-se agora que o jato especialmente designado para levar os dois atletas de volta à prisão é venezuelano. Mais: parece ter sido o mesmo avião que levou oitocentos mil dólares clandestinos para a Argentina.

Chávez, lulla da Silva, Morales e, parece, o casal Kirchner...

Que futuro nos aguarda?


Cansei

Virou moda criticar o movimento.

É coisa de dondocas e de milionários.

Coisa de quem está bem de vida.

A pobreza intelectual e a indigência moral desses críticos é aterradora.

Uma prova que nada entendem de democracia.

Desconhecem o sistema, quer como prática, quer como filosofia.

Pior: sequer conhecem o significado da palavra, disponível em qualquer dicionário.


Chefes fora

O STF não vai processar o ex-primeiro-ministro Zé Dirceu. Tampouco processará Delúbio... Silvinho “Land Rover”... Zé Genoíno, o que nada sabia, antecipando a ignorância do chefe supremo.

O STF me deixa envergonhado e desesperançado.


Medo

Será que minhas palavras no texto anterior podem servir de base para que eu mesmo seja processado?

Afinal, será que é permitido a um brasileiro dizer que sente vergonha de sua Corte Suprema? Se não for permitido, estou frito.


Os mesmos de sempre

Renan continua na ativa. Continua presidindo o Senado da República.

Jader Barbalho está a mil por hora na Câmara. Articula a montagem de uma CPI contra a revista Veja – a essência é essa, o resto é conversa fiada – por “inspiração” de Renan. Todos os caras indiciados no Mensalão assinaram o pedido de CPI, assim como 59 deputados do partido dos trambiqueiros, também conhecido por pt. Ah, sim, redundei: um monte desses 59 também está na lista do Mensalão.

Esses caras nos governam, esses caras são o nosso parlamento.


50 milhões para Rainha

Pois é, o tal de Rainha, indivíduo com vasta coleção de processos nas costas e acusações mal desfeitas, se é que alguma foi desfeita, vai receber 50 milhões de reais do governo para fazer uma usina de biodiesel.

Vai ter festa no Pontal do Paranapanema.

Às custas sabe-se de quem.


Demorou...

... mas Dona Denise Abreu enfim renunciou.

Agora falta o restante, a começar pela mais alta posição.


Sim, estou meio raivoso hoje e nem li, ainda, o meu jornalão desse domingão.

Sabe Deus o que nele virá.


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segunda-feira, agosto 20, 2007

Domingão, dia de Estadão


Meu jornalão de hoje está especial.

Não é merchandising. Se alguém achar que é, paciência.

Dentro de dois meses farei 53 anos de idade. Leio o “Estado” desde os oito. Portanto, já lá se vão 45 anos de leitura semanal, no começo, mais adiante bi ou tri-semanal, até virar diária ainda na adolescência, em pleno regime militar.

Isso, entretanto, é outra história. Portanto, falar desse jornal pode ser tudo, menos propaganda.

Como é sagrado, começo pelo caderno de esportes. Não fala muito do meu time, apenas o normal. O cronista de futebol do domingo escreveu um texto interessante, até gostei, ao contrário do habitual. Dos cronistas do Estado, gosto, mesmo, de um só, o mais “futebolista” deles, digamos. Futebol é futebol, quando abro o caderno de esportes quero ler sobre futebol. Outras coisas embaralham e irritam. Pulo e passo adiante. O caderno de hoje traz uma matéria bonita, falando da escolinha que o Vasco mantém para seus jovens atletas. Muitos chegam sem saber coisa alguma, sequer, a bem dizer, escrever. Coisas de Brasil, claro.

No caderno Aliás, uma entrevista, ou melhor, uma “senhora” entrevista com o ex-correspondente do NYT no Brasil, Larry Rother. Uma entrevista como deve ser: nada menos que duas páginas do caderno. Uma introdução boa, no tamanho e com as informações na dose certa, e depois a conversa com o Larry. Como deve ser uma conversa inteligente. Ele fala de seus muitos anos de Brasil, em dois tempos, conta breves “causos” daqui e de outros países sul-americanos, fala um pouco sobre jornalismo e fala, muito, do estrepitoso affaire Governo x NYT, quando ele escreveu a matéria dizendo que o hábito de “bebericar” do presidente atrapalhava o governo. Dizem que a verdade dói, e essa matéria doeu. Mas o jornalista, com justiça, não conta tudo: reserva mais coisas para o livro que está escrevendo sobre seus anos aqui entre nós. Naturalmente, vou comprar e ler no lançamento.

No primeiro caderno, uma matéria sobre a Juréia.

E com ela meu humor balança. O Parque da Juréia é um lugar maravilhoso, extremamente bonito, onde a Serra do Mar encosta nas ondas do Atlântico, até literalmente, em alguns pontos. As praias são desertas e muito bonitas. A mata atlântica em todo seu esplendor original ocupa todos os espaços, morro acima, morro abaixo, nos vales e planícies.

Correção: ocupava todos os espaços. Palmiteiros, madeireiros e bananeiros devastam parte da área do Parque. E, a auxiliá-los e livrá-los da prisão, índios guaranis.

Ah, os índios têm direito, né?

Pois sim. Esses índios foram aqui introduzidos pela FUNAI, trazidos de não sei onde, tal como foi feito com os pataxós do entorno do Parque Nacional do Monte Pascoal, no sul da Bahia. Instalados na Juréia, os guaranis, tão logo viram as costas dos burocratas governamentais, mudaram-se com armas e bagagens para as cidades mais próximas, no Vale do Ribeira. Nenhum deles quis saber de morar na mata. Mas todos vão até a mata. Derrubam palmeiras juçaras, coletam orquídeas e bromélias, e postam-se à beira dos “asfaltos” vendendo o fruto da pilhagem. Proibido por lei para todos, menos para os índios. Que ganham algum dinheiro com o corte de mais juçaras. É assim: uma palmeira juçara com mais de 4 metros de altura e que demorou dez, doze ou mais anos para chegar àquele ponto, é encontrada por um palmiteiro que, em seguida, simplesmente bota-a abaixo. Seu ponteiro é cortado e dele tirado o tolete de palmito com cerca de 40 centímetros de comprimento. Tanta destruição por meros quarenta centímetros. A destruição não se limita à palmeira em si, fonte de alimento para dezenas de espécies animais, mas se estende ao seu redor, pois, ao cair, ela destrói outras pequenas árvores, arbustos e cipós. Depois de abaterem mais de duzentas palmeiras, em recantos cada vez mais remotos, os palmiteiros pegam a estrada e levam o fruto do crime para fabriquetas clandestinas ou para vendedores de palmito fresco. Em cada viagem, em cada deslocamento do caminhão, um índio guarani está junto, pronto a dizer que o palmito é seu e sobre ele tem direito legal. De fato, tem direito legal.

Bom, a matéria segue por outras coisas, como plantações ilegais de banana sob a sombra das grandes árvores. A subvegetação é cortada e mudas de bananeiras são plantadas. Quando elas ficam adultas, as árvores são derrubadas, dando lugar a um bananal que, em breve, será ponto de início de erosões.

A matéria é boa e rica. No site tem mais fotos, ainda. O jornalista a tudo vê e documenta. As autoridades nada vêem e nada fazem.

E assim prossegue o jornal

Cada domingão um novo jornalão com coisas de um velho e lamentável Brasil.

A cada domingão procuro pelas boas notícias, e até encontro. O diabo é que o peso das más notícias é mais e mais avassalador.

Bom, depois dessa lembrança sobre a Juréia perdi a vontade de falar do resto. Economia, explicando o recente quase-crash, Metrópole, com mais informes sobre o CAN – Caos Aéreo Nacional – e a vergonhosa, para não dizer criminosa, ação ou inação das autoridades, o “mistério” acerca da pilhagem dos cadáveres e bens pessoais das vítimas do 1907 (que vergonha, a que ponto de degradação moral chegamos!), Cultura, com alguns livros ótimos na seção de lançamentos, etc.

Ah, claro, tem também as últimas sobre o caso Renan, outra vergonha nacional, outra amostra da degenerescência de nosso sistema e de nossos “representantes” no parlamento.

E pensar que, mesmo assim, com tudo isso, eu ainda anseio e não tomo meu café de todas as manhãs sem o meu jornal, aos domingos um jornalão.

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sábado, agosto 18, 2007

Raiva e Desânimo versus Indignação

Tenho escrito pouco porque tenho tido muitos momentos de raiva.

E, acreditem, raiva e escrita não são coisas que combinem.

Quando a raiva passa vem um sentimento de desânimo, outro poderoso impeditivo da escrita com um grau mínimo de legibilidade.

Um sentimento que ajuda a escrever é a indignação. Victor Hugo, muito provavelmente, estava indignado quando sentou-se e escreveu “J’Acuse”. Estivesse ele enraivecido e teríamos uma obra-prima a menos na literatura universal. Mas a indignação precisa de um ambiente propício, não para aparecer, mas para se impor. E o nosso problema, hoje, partindo desse ponto de vista, é que vivemos em terreno fértil para indignações mil, mas, justamente por serem tantas, tão abundantes, tão diversificadas, uma sucedendo a outra em velocidade vertiginosa, nenhuma indignação consegue empolgar, consegue sobrepor-se às demais por um tempo mínimo que seja para surtir efeito.

E aqui, possivelmente, pode estar a chave do sucesso governamental: afoguemo-los com indignidades, uma maior que a outra, serão tantas que, num certo momento, deixarão de ser percebidas como tal e simplesmente farão parte da paisagem, estarão incorporadas aos usos & costumes sociais.

Essa teoria explica muita coisa, sem dúvida, mas não me ajuda a escrever algo decente e legível.

Ontem à noite, mesmo, dedilhei um irônico e virulento comentário sobre a diretora da ANAC, aquela senhora flagrada em alegre festa soteropolitana fumando respeitável charuto, enquanto milhares de brasileiros penavam nos aeroportos da vida. E porque escrevi tal ataque? Porque Dona Denise citou um de meus ídolos, Winston Spencer Churchill, ao defender-se e explicar-se sobre o porque do charuto. E, ao citá-lo, Dona Denise disse que ele, Churchill, provinha de família humilde.

Ora, faça-me o favor! Como pode tão alta autoridade republicana, dona de currículo de 13 minutos de duração para ser lido em audiência do Senado, dizer tamanha abobrinha? Nem o fato não-curricular de ter sido colega de faculdade de Zé Dirceu, ex-primeiro-ministro e atual primeira-eminence-grise da República, a perdoa por erro tão crasso. Quanto ao resto, prefiro nada falar, pode ser mais saudável.

Porém, como dizia, ontem à noite escrevi um monte sobre e contra Dona Denise. Reli, reli, reli e deletei. Aí fui dormir, coisa até meio custosa, pois ainda estava raivoso.

As manhãs têm sempre o dom de deixar-me motivado. Um novo dia é sempre o habitual clichê, na linha de promessas que com ele nascem, patati patatá. Clichê ou não, um novo dia é sempre algo animador, além de bonito. Mesmo que logo cedo eu dedilhe algumas mal traçadas e nelas entre Dona Denise.

Estou indignado? Apenas o de sempre.

Mas não estou raivoso. Nem enraivecido.


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sexta-feira, agosto 17, 2007

Voando no CAN - Primeira Parte

Congonhas estava ótimo na noite de terça-feira, dia 14.

Céu claro, estrelado, pouca gente no desembarque, pouca gente no embarque.

O check in foi rápido e tranqüilo, o vôo estava no horário, tudo estava bem. Parecia que tínhamos voltado dez anos ou mais.

Pouca gente na livraria e assim circulei com calma, vendo um livro aqui, outro ali. Tudo tranqüilo também na passagem pela revista eletrônica, exceto pela desatenção ou prepotência da funcionária com o detetor manual.

Uma mulher logo à minha frente disparou o alarme ao passar. E a funcionária desatenciosa ou prepotente ou tudo junto, o mais provável, mandou-me passar novamente. Ciente que com essas pessoas investidas de alguma autoridade todo cuidado é pouco, reclamei que o alarme não tocara para mim já obedecendo, como bom carneirinho. Passei novamente, olhando-a diretamente nos olhos, com a cara fechada, recém-terminando uma frase sobre aquilo ser um absurdo.

Grande coisa. Ela nem deve ter dormido de tanta preocupação com meu olhar “assusta burocrata” número 27.

O piso superior de Congonhas é muito bonito e, por que não dizer? – bem luxuoso. Chega a ser chique mesmo. Custou caro e, aleluia, as cadeiras têm descanso para os braços independentes, portanto, dá para sentar sem ficar encostado, disputando espaço com o cara do lado. Pensei em comer um sanduíche, mas desisti. O preço é tão luxuoso quanto as instalações e achei um abuso pagar onze reais e não sei quantos centavos por um sanduichinho bonitinho, mas, provavelmente, ordinário.

Tudo caminhava bem, eu estava sentado, lendo um livro fascinante quando meu sexto ou sétimo sentido (o mesmo que uma única vez falhou e por causa disso voltei de Porto Alegre de jatinho) alertou-me para um aviso: devido a remanejamento de aeronaves, patati, patatá, o embarque para o meu vôo dar-se-ia por outro portão. Meno male que seria, também, num dos portões que dão acesso direto aos aviões, via “finger”.

Ok, vamos para o outro portão. E lá se foi a manada, termo exagerado, claro, mas que, posteriormente, revelar-se-ia muito adequado. E chega de mesóclises nesse texto. Duas já é passar do limite do razoável.

Outros vôos também mudavam de portão. Aliás, pelo jeito da coisa, todos os vôos estavam mudando de portão de embarque. Uma festa.

Falemos a verdade: se colocar esse pessoal da INFRAERO e da ANAC num serviço de estacionamento, a empresa vai à falência no primeiro mês. Os caras não conseguem sequer distribuir os aviões pelas duas dúzias de vagas, o que dirá de estacionar duzentos carros em hora de pico? É um mais perdido e mais incompetente que o outro. Ainda não me saiu da cabeça o “técnico” de não sei qual das duas que deveria verificar a lâmina d’água de Congonhas e o fez de dentro do carro, quebrando o galho para o encarregado do serviço que tinha faltado.

De volta à sala de embarque.

O vôo atrasou.

Normal, não? Faz parte, claro. Sem comentários adicionais.

Atrasou pouco, quase uma hora, apenas. Embarcamos e decolamos já batendo onze da noite. Péssima notícia, claro, afinal, ainda teríamos de pegar um táxi para nos levar de Curitiba até Araucária. É perto, mas mesmo assim chegaríamos de madrugada. Eis que em pleno vôo vem a boa notícia: Joinville estava fechado e pousaríamos em Curitiba.

A notícia pegou a tripulação de surpresa, com o serviço de bordo em andamento e que precisou ser interrompido às pressas. Tive sorte, consegui comer meu sanduíche e enganar a fome que não valia onze reais.

Pena que não consegui comer lendo meu livro. Não cabia, o espaço era insuficiente. Antes, tinha tentado ler a revista de bordo, com bela matéria sobre Bonito e o Pantanal – aliás, matéria para ser vista, pois a leitura, descobri, era pouca e fraca, típica das revistas de bordo ou típica da nova era, apesar dos calhamaços que são cada um dos Harry Potter? – e tampouco consegui. Como o passageiro da frente reclinou sua poltrona, o espaço que sobrou não era suficiente para manter a revista aberta. Isso, dirá a companhia aérea, foi porque eu não reclinei minha poltrona. Verdade, eu não gosto, minha coluna é chata e prefere os encostos mais próximos de um ângulo reto. Bom, como o novo ministro da defesa já tocou nesse assunto do espaço, tá tudo resolvido, ou seja, nada mudará, exceto se for para pior.

Descer direto em Curitiba foi sorte para uns, azar azar para outros. O pessoal que contava estar nas camas joinvilleanas antes de uma da manhã iria de ônibus para a bela cidade catarinense. Cama mesmo, que é bom, só depois das quatro.

E foi assim que o vôo chegou em Curitiba, onde um táxi e seu motorista já meio cansado e sonolento aguardava os passageiros de São Paulo.

Fim da primeira parte.


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domingo, agosto 12, 2007

E se...


Peguei o jornal no gramado em frente de casa.

Sobre ele, uma flor amarela caída do ipê dava um toque de cor mais viva às notícias da primeira página.

Em destaque, uma grande foto da presidente da Argentina, Cristina Kirchner, chegando em Brasília para a posse presidencial. Dividindo o espaço com a presidente hermana, a foto mostrava o café da manhã da família presidencial: à cabeceira, em seu último dia de mandato, o presidente Luiz Inácio Lulla da Silva. À sua direita, em seu último dia como primeira-dama, a presidente-eleita, Dona Mariza Letícia da Silva.

Senti um frio na barriga, uma dor no peito, uma congestão na respiração. Meus olhos ficaram cheios de lágrimas: era tudo verdade, não era um delírio.

A dor no peito aumentou e a falta de ar ficou pior.

O medo me tomou, associado a uma desesperança mais dolorosa que as dores.

Meu ombro começou a se agitar, estranhamente.

Emerson... Chamava uma voz, suavemente, repetindo mais algumas vezes.

Atendi ao chamado da voz.

Acordei. Era a Rosa me chamando, preocupada com meus tremores, gemidos e agitação.

Estava em minha cama, ao lado da minha mulher que me olhava preocupada, já com a luz acesa.

Estava de volta à realidade aconchegante da minha cama.

O susto passou. Tranqüilizei-a, mas não contei o pesadelo. Disse que tinha esquecido.

Tentei relaxar a cabeça sobre o travesseiro.

Que bom, foi tudo um pesadelo, não passou de um sonho mau, muito mau.

No íntimo do meu ser, contudo, uma fagulha de medo persistia...

E se...


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domingo, agosto 05, 2007

Cunha


Depois de muitos anos, estive ontem em Cunha, nos altos da Serra do Mar, entre Guaratinguetá e Paraty.
Uma cidade gostosa e bonita.

Fiz várias fotos das torres da igreja matriz, motivado pelo azul do céu, os fiapos brancos de nuvem cortada por fortes ventos de entrada de frente fria, as cores da igreja e os galhos desfolhados de uma árvore.


Tão pelados como os galhos dessa árvore estão os inumeráveis morros que cercam a cidade, aliás, não somente essa, mas todas as outras do Vale do Paraíba.

Apesar de tudo que já sabemos sobre a necessidade de conservar as matas nos topos de morros e imperiosa necessidade de não mexer com o solo em encostas muito íngremes, os morros, sistematicamente, ficam carecas e as encostas perdem o verde protetor e mostram tons de cinza e amarelo do solo exposto e, em muitos casos, do próprio subsolo.

Assustador.




A eterna corrida contra o relógio não me permitiu mais fotos.

Quem sabe um dia?


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sexta-feira, agosto 03, 2007

Bom dia? Como assim?


Bom dia.

Bom dia. Ué, que que houve? Tá com cara de quem comeu e não gostou.

Quase isso. É que o café-da-manhã foi triste, meio chato, e isso apesar do meu time ter jogado e vencido ontem à noite, o que bastaria para tornar o desjejum de hoje delicioso, independentemente do que estiver à mesa.

Ora, mas por que, então, essa tristeza?

Porque hoje, por um desses insondáveis mistérios da vida, a gigantesca máquina que monta meu jornalão esqueceu de pôr o caderno de esportes no meu exemplar. Tive que fazer minha primeira e mais importante refeição do dia sem a minha leitura predileta. Foi traumático.

Ah, mas que exagero! O jornalão é grande, pega qualquer outra parte e leia!

É, isso é fácil de falar para quem não liga, para quem não presta atenção ao que lê ou simplesmente não lê. Não é o meu caso.

Você está exagerando, tá over reacting, como se costuma dizer.

Não, não estou over não-sei-o-que coisíssima nenhuma!

Claro que está, cara! Imagina só se todos os problemas do mundo se resumissem a isso!

Pois é, imagine que mundo quase perfeito não seria. Você é que não está entendendo a importância do caderno de esportes no desjejum do brasileiro médio amante de futebol e leitor de jornais.

Ah, é? Eu que não estou entendendo?

Exatamente. Você enxerga o detalhe e perde o todo, fica cego para tudo o mais que cerca o detalhe, que, como se sabe, é apenas uma pequena parte de algo muito maior.

Ah, sei, sei... Como o gol, né? Um mero detalhe ou, como você diz, uma mera pequena parte de algo maior que é uma partida de futebol. Sei, eu só queria entender mesmo.

Ora, essa ironia barata não pega bem, esse lance do gol ser detalhe não é bem assim, é uma deturpação, e além disso você atropelou meu pensamento e não me deixou terminar.

Tá bom, embora meu time não tenha vencido ontem à noite eu estou bem humorado hoje. Go ahead.

Gol de quem?

Larga a mão de ser palhaço, você fala inglês melhor que eu. Desembucha logo isso aí.

Ah, é verdade, go ahead é sinônimo de desembucha logo. Aliás, desembucha e logo são meio sinônimos, não são? Afinal, quando a gente solta um “desembucha”, já tá implícito que tem que ser já, agora, imediatamente, logo, no sentido de já. Portanto, desembucha logo é uma redundância. Você precisa aprender a ser mais econômico com as palavras. Fala demais.

Minha nossa, ninguém merece. Eu preciso ser mais econômico e você gasta meia hora com essa baboseira... Fala logo aí do... Do que mesmo? Tá vendo? Você fala tanto e desvia tanto que eu já esqueci o assunto. Ah, lembrei, o negócio do jornal.

Ok, vamos lá. Tempos atrás o Sulzberger disse que não estava preocupado com o próximo, na opinião dele, fim do jornal impresso, tal como o conhecemos hoje. O importante, segundo ele, era que o NYT continuasse vivo e informando as pessoas, não importando sua forma.

Sim, é verdade, acho que ele falou isso em Davos, no inverno.

Exato. Bom, embora eu viva em frente ao computador, opinião reforçada e aumentada por algumas línguas familiares, simplesmente não gosto muito de ler meu jornal numa tela. Gosto das folhas, gosto de abrir uma a uma e deparar com notícias as mais diversas possível. Isso é parte do encantamento de ler jornal, a surpresa no virar de cada página.

Descambou pra poesia... Isso vai longe.

Não, já tô acabando. Então, essa coisa do jornal logo cedo tem todo um ritual, sabe? Geralmente escuto quando o motoqueiro chega e joga o jornal. Se está chovendo, levanto correndo e, mesmo sob chuva e no escuro, corro até a frente de casa e pego o jornal. E você conhece minha casa, portanto sabe que tenho que vencer uns bons “par” de metros até o portão, abrir o dito cujo e andar mais alguns metros até chegar à zona de pouso do jornal, quase sempre no gramado embaixo do ipê-amarelo, quase sempre meio alto, o que me deixa com pés e barra da calça molhados. Veja só a que sacrifícios me submeto, sem tugir, nem mugir.

É verdade, estou impressionado. Tua mulher, com certeza, adoraria que você se sacrificasse a metade disto e fosse ao teatro com ela.

Ehhhhh, pode parar, estou falando do jornal ao café-da-manhã e lá vem você com teatro. Agora fui eu que perdi o fio da meada. Ah, encontrei, o ritual. Pois é, tem um ritual e ele começa com essa caminhada matinal...

Hahahahahahahahaha... Cara, fala sério, você chama de “caminhada” ir até o gramado da frente pegar o jornal? Mais um pouco você nem vai precisar caminhar pra isso, basta ir rolando! Hahahahahahahahahahahaha...

Realmente, uma mente não privilegiada como a sua não é capaz de entender as sutilezas da vida. Bom, sorte tua que estou quase bem humorado também, apesar dessa tristeza difusa. Como dizia, começa com essa caminhada e aí vem todo aquele lance do café, sabe? Todo o processo: pão com manteiga, leite com nescafé, uma fatia de pão com requeijão, um copo de suco, coisas assim, simples, singelas. E o jornal ali, sobre a mesa, o caderno de esportes dobrado e encostado em algum apoio, facilitando a leitura, deixando a comida ainda mais gostosa do que já é, e, isto é muito importante, deixando-me pronto para começar bem o dia. E com isso, eu também colaboro para a preservação do jornal em seu formato atual. Vai ser muito chato botar o computador em cima da mesa com o café-da-manhã.

(Virou delírio, mas, vá lá.) Certo, e daí? Hoje não veio o caderno de esportes, mas o resto do jornal estava lá. Então, qual o problema?

O problema, meu amigo, é que apesar de bem humorado, graças à vitória do meu time, estou com um terrível processo de indigestão e fortes cólicas. Por culpa da maledetta máquina que não me mandou o caderno de esportes!

Mas, como assim?

Como assim? Pô, eu tive que ler o jornal propriamente dito e fui obrigado a começar o dia lendo as patacoadas desse presidente e os desmandos e inações da camarilha que o rodeia! Pombas, foi isso. E isso acaba com o dia de qualquer vivente!

Mas, poxa, você sempre lê tudo isso todo dia.

Sim, leio tudo isso, todo santo dia, infelizmente, mas leio já amortecido, preparado, vacinado, digamos, pela leitura das coisas do futebol, por mais torpes que sejam. A verdade, meu amigo, é que não estou preparado para ler sobre o Brasil de hoje sem antes ter o preventivo esportivo. É ele que me protege disso tudo que está aí.

É, é verdade... De repente, perdi meu bom humor.


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quarta-feira, agosto 01, 2007

sexta-feira, julho 27, 2007

A guerra dos beija-flores

Não gosto de esteira, a menos que possa exercitar-me assistindo à televisão. De preferência com um programa esportivo. Simplesmente andar numa esteira é coisa chata demais, embora saudável.

Da mesma forma não gosto de academias. Mesmo que a paisagem interna tenha atrativos interessantes... Com todo o respeito, é claro, afinal, sou moço sério.

Bom mesmo é caminhar. Para quem tem a sorte de à beira-mar morar, caminhar pela praia bem cedo ou no crepúsculo é uma delícia e é atividade sempre interessante, porque na pior das hipóteses tem aquele marzão besta de grande pra olhar. E o mar é algo que a gente nunca se cansa de olhar.

Por aqui, caminho pelas ruas da Fazendinha, bairro da Granja Viana recheado de casas e condomínios. E com muito verde, ainda, apesar do construir incessante por suas ruas. E a cada casa que se ergue, um pedaço de verde, um pedaço de mata ou capoeirão, encontra seu fim. É o progresso.

Mas o povo que ergue as casas costuma plantar novas árvores. Um deles plantou cinco ou seis pés de unha-de-vaca, ou pata-de-vaca, nome que lhe é dado por causa do formato de suas folhas. Ela também é conhecida como bauínia, aportuguesamento chique de seus nomes científicos, Bahuinia forficata – nativa do Brasil, de flores brancas – e B. variegata, nativa da Ásia (Índia, Burma), de flores cor-de-rosa a arroxeadas. Há outras bauínias, igualmente exóticas, mas essas duas são as mais comuns.

Uma das coisas boas das patas-de-vaca, além da beleza, é o fato de serem muito apreciadas pelos beija-flores. Indoutrodia fiquei olhando um deles no haras da Mônica, em Santa Rita do Passa Quatro, e até tentei fotografá-lo, mas o danado escapuliu. Aqui na Fazendinha, já terminando meu circuito de caminhada de 8 quilômetros, a cada dia mais demorado por causa das paradas para as fotos, ouvi o zunir de objetos voadores em alta velocidade. Não, não, felizmente não eram balas perdidas, e sim beija-flores em briga, um perseguindo o outro, espantando-o de seu território. E o bichinho deve ter os olhos maiores que a barriga, pois se não consegue dar conta sequer das flores de meia pata-de-vaca, não deixa por menos e é senhor absoluto de nada menos que quatro pés dessas árvores, todos carregados de flores. Isso é o que se pode chamar de um senhor estoque de alimentos, despensa de respeito até pelos padrões das casas senhoriais do Brasil Colônia. Eles voam em alta velocidade e com uma agilidade impressionante. Dado o carreirão no intruso, o senhor das árvores volta para seu pouso predileto e fica por ali, vigilante.

As cenas de perseguição lembram-me os relatos de batalhas aéreas protagonizadas pelo Barão Vermelho, o ás alemão da I Guerra, e, mais ainda, as lutas encarniçadas entre os Spitfire ingleses e os Messerchmit Me 109 alemães durante a Batalha da Inglaterra, na II Grande Guerra. Essa luta desenvolveu-se ao longo de 1940 e 41, diminuindo de intensidade a partir de 42 e sendo substituída mais adiante pelas “bombas-voadoras”, os foguetes V1 e, principalmente, a temível V2, o primeiro míssil da história, precursor dos ICBM americanos, russos e chineses. Foram os pilotos da Royal Air Force que, mesmo em número menor, conseguiram impedir a destruição de importantes indústrias e usinas, além de quartéis e portos, mantendo as tropas nazistas no continente, sem condições de cruzarem a Mancha e invadirem as Ilhas Britânicas. Sobre eles, Churchill disse uma de suas mais famosas frases:

- Nunca tantos deveram tanto a tão poucos.

Bonita frase, forte, significativa, pronunciada em discurso no Parlamento, mais conhecida por essa forma reduzida, mas que, completa, é:

“Nunca, no campo das lutas humanas, tantos deveram tanto a tão poucos.”

No Brasil essa frase não tem muita força, pois já estamos cheios, lotados ao máximo por quase infinitas frases na linha do “nunca esse país isso, nunca esse país aquilo” ou “nunca um governo isso, nunca um governo aquilo”, “nunca se cresceu tanto” e por aí vai.

De volta aos beija-flores.

O senhor das árvores levanta vôo e vai se alimentar. Visita algumas flores, vai para outra árvore, repete as visitas, volta para seu galho predileto e fica ali, à espreita. Que nenhum outro colibri se atreva a entrar em sua despensa.

E com essa visão, guardo a câmera já sem bateria, e saio caminhando e pensando que estadistas como Winston Spencer Churchill não mais existem.

E justamente agora precisamos de um como ele num certo palácio brasiliense.


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Julho chuvoso e diferente


Bem diferente do normal, esse mês de julho foi molhado, aliás, muito molhado.

Estava para comentar esse fato quando se deu o acidente com o vôo 3054.

Hoje, fica mais ou menos claro para mim que, tivéssemos vivido um julho dentro da normalidade, o acidente não teria ocorrido. Com falha humana ou não, falha mecânica ou não, a verdade é que a pista não estava preparada para operação em dias chuvosos. E o grooving estava programado para ser feito agora, nesse período. Com as ranhuras na pista, muito provavelmente não teríamos, também, o acidente.

Não escrevo isso para tirar culpa alguma, apenas tentando clarear minhas próprias idéias a respeito. Quando terminou a reforma da pista principal, ficou faltando o grooving, que só pode ser realizado decorrido um tempo mínimo depois da conclusão da pista. Como historicamente esse período do ano tem sido cada vez mais seco em São Paulo, os responsáveis por Congonhas chegaram à conclusão que não haveria riscos. Uma decisão normal, sem maiores contestações.

Complementando essa postura, o Ministério Público pediu e a Justiça concedeu liminar proibindo pousos em dias chuvosos. Essa medida, para infortúnio de passageiros e seus familiares, bem como do pessoal que trabalhava no prédio da Express, foi derrubada. E os pousos foram liberados para dias de chuva. Tinha uma determinação de verificação in loco de hora em hora, mas... Puxa vida, ir pra chuva de hora em hora só pra olhar de perto o que já se vê bem (sic) de longe? Pois é.

Um mês gostoso

Frio e chuva, muita chuva, por sinal, fizeram desse julho um mês delicioso. Mês para sopas quentes, pão italiano, vinho tinto um pouco mais encorpado. Mês de ganhar peso, infelizmente.

Choveu no sítio, também, embora menos que em São Paulo. Chuvas boas, nem tanto para ajudar a vegetação ou para fazer o capim crescer – os dias continuam frios e mais curtos, ainda. Crescimento de capim, mesmo, só com os dias mais longos e mais quentes, ou seja, a partir da primavera, desde que haja umidade no solo. Esse é o drama: as chuvas de primavera chegarão na hora certa? Teremos veranico prolongado?

Mas chuvas em julho são sempre muito bem-vindas. A poeira acaba, os reservatórios subterrâneos são reforçados, algumas plantas tiram proveito dessa umidade e crescem, enfim, mal não fazem, pelo contrário.

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sábado, julho 21, 2007

Contra as condecorações da FAB!


No post anterior, Asco e Vergonha, o Rui postou um comentário dizendo que mandou um e-mail pra Força Aérea Brasileira protestando contra a condecoração desse povo da ANAC.

Puxa vida!

Pelo menos isso!

Tão logo acabei a leitura do comentário já estava procurando o site da FAB, onde o Rui achou o Fale Conosco.

O endereço para e-mail é esse:

drp@fab.mil.br

E, na mesma hora, mandei meu protesto pra Força Aérea.

Vai servir para alguma coisa?

Não sei, espero que sim.

Confesso que seria bom demais ver a FAB pedindo as medalhas de volta.

Os blogs Um Olhar Crônico e Um Olhar Crônico Esportivo manifestam seu total repúdio a essas condecorações.

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Asco e Vergonha



O comportamento do Presidente da República - assim mesmo, com maiúsculas - foi uma vergonha.

E daí?

A quantas outras vergonhas fomos submetidos por esse ser?
E não me refiro aos erros de português, até porque eu mesmo cometo os meus e vou sobrevivendo.

Ainda no dia seguinte ao acidente eu me manifestei em alguns blogs e ponderei que era cedo para pôr a culpa no governo. Porque a pista em si talvez não fosse a culpada.
Eram muitos os sinais estranhos a respeito e o mais correto seria dar ao governo, a esse governo, o benefício da dúvida.

Hoje ainda penso parcialmente dessa forma, mas a cada minuto tornou-se claro que esse governo tinha muita culpa no cartório. Pelo conjunto da obra, digamos.
E que obra!

O sumiço presidencial - não foi detectado nem pelos radares sucateados do CINDACTA - e a ausência de resposta, pior, sequer a leitura da carta do governador do estado e do prefeito da maior cidade do país, e ainda pior, muito pior, a covardia moral e política, o nome verdadeiro para o comportamento presidencial, deram a dimensão exata da pequenez moral desse presidente, seus ministros e assessores.

O gesto obsceno e indecente do super-assessor do Presidente da República é a contrapartida gestual das recentes palavras da Sra. Ministra do Turismo - também obscenas, diga-se de passagem, embora aceitas sem maior pudor pela sociedade - sobre a crise aérea, da qual o triste acidente do vôo 3054 é apenas mais um episódio. O pior, sem dúvida, mas apenas mais um.

Não bastasse a omissão, o sumiço, a desculpa imbecil - sim, eu sei que me refiro à desculpa dada pelo Presidente da República, mas ela foi imbecil - do terçol para não conversar com o governador do estado, e hoje, além do pífio pronunciamento de S.Excia., fomos agredidos como pessoas, como povo, como nação, com a condecoração do presidente da Agência Nacional de Aviação Civil com uma medalha qualquer. Dela não sei o nome, não me dei e não me darei ao trabalho de pesquisar. Há limites para o controle da náusea.

Arrependo-me de não ter vociferado contra esse governo desde o primeiro minuto. Procurei seguir minha consciência, e ela, bem ou mal, dizia-me que era justo esperar por mais informações. Pois bem, as informações estão todas aí, quase. Ao que tudo indica tivemos uma somatória de erros, como sempre acontece, e a resultante foi a tragédia.

Congonhas não deveria ter tantos vôos.
Os sulcos da pista poderiam ter auxiliado o avião em sua frenagem.
A pista não deveria estar liberada para pousos naquele momento.

Que sei eu? Não sou piloto. Não sou engenheiro aeronáutico.
Mas o acompanhamento de tudo que foi informado nos últimos dias forneceu-me o bastante para rever minha posição e sentir, mais que vergonha, verdadeiro asco por S.Excia., o Presidente da República, seus ministros e assessores.


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terça-feira, julho 17, 2007

Os peixes se vão...


Dias atrás meu irmão veio nos visitar. Depois de longo tempo desempregado, conseguiu voltar ao Ceasa, trabalhando na venda de peixes durante a madrugada. A empresa para a qual trabalha compra os peixes que vêm do Sul e do litoral próximo de São Paulo e revende-os aos varejistas. Como nunca vem de mãos vazias, dessa vez trouxe algumas anchovas muito bonitas. E muito, muito deliciosas. Acabei de saborear o que sobrou da última agora, assada com capricho, sem tempero algum, exceto um pouco de sal, azeite e, gosto meu, limão por cima dela já pronta. Anchova tem sabor próprio, pronunciado, gostoso, assim como o salmão e a truta. Colocar temperos nesses peixes é, para mim, puro desperdício de tempo para preparar e de ingredientes que poderiam ser usados em outras coisas. Aliás, são raros os peixes que gosto de comer com temperos & similares. Para mim, basicamente, peixe é frito, grelhado ou assado, e só limão pode entrar na brincadeira. E entra. No mais, gosto de uma ou outra moqueca e caldeirada, mas...

Bom, mas não é por isso que estou escrevendo esse texto. As anchovas estão ótimas e abundantes esse ano, um tanto atípico, até. As tainhas estão abundantes, também, e boas, mas seu futuro imediato não é brilhante. Ainda há poucos dias, muitas toneladas delas simplesmente perderam-se em Santa Catarina, apodrecendo e criando um problema para seu descarte. Só os urubus apreciaram o mal-feito. Foram pescadas em excesso e não havia como armazená-las. Uma perda estúpida.

Pior ainda, meu irmão comentava sobre o crescimento da comercialização de ovas de tainha e de qualquer coisa que nade. Um verdadeiro crime. Muitas vezes o peixe sequer é aproveitado, apenas suas ovas. Crime pra pegar cadeia. Recuso-me a comer ovas de peixes. A menos que tenham origem em criatório, coisa que não acontece, pois tainhas são “do mar”. Sendo assim, não como, simplesmente. É o mínimo que se pode fazer. Parece que o Extremo Oriente é o destino para boa parte dessas ovas, assim como é das barbatanas de tubarão.

Naturalmente, meu irmão queixou-se da situação. O fornecimento de peixes está muito reduzido. Conseqüência direta das reduções de estoque provocadas pela pesca desenfreada. Quando ele começou no Ceasa no final dos anos setenta, o número de caminhões que chegava toda madrugada era enorme. Ele trabalhava um bocado e ganhava muito bem, tanto que conseguiu comprar um belo apartamento, além de carro e de sua paixão, uma moto imponente com a qual transformou-se em um Abutre juramentado e de carteirinha. Foram os peixes, também, que pagaram o monte de tatuagens que ele tem.

Um verdadeiro Abutre (tribo urbana de motoqueiros, a maior do Brasil).

Hoje, contudo, o peixe é pouco e o dinheiro que dá para ganhar não basta para as despesas mínimas da casa. Se sua companheira não trabalhasse, também...

O Atlântico Sul não é o pior dos cenários nessa história. A coisa está feia para valer no Atlântico Norte, onde o bacalhau caminha para a extinção, e nas áreas de pesca do Pacífico, também com várias espécies sumindo. Entre elas o peixe preferido dos japoneses, o atum-azul.


E à medida que esse magnífico animal desaparece, seu preço explode e um único exemplar, em 2004, chegou ao preço de US$ 200,000.00! Como ele pesou 200 kg, ficou em mil dólares por quilo de carne de atum. Quem quiser pode ler a matéria a respeito aqui.

Bom, essa loucura por sushi – e eu me confesso pecador nesse caso (alô revisão, pecador e não pescador, ok?) – é o que explica a maior parte de sua rápida desaparição.

E assim vamos caminhando sobre nossas duas pernas – por falar nisso, trabalho interessante de pesquisadores da Universidade da Califórnia, liderados pelo Dr. Michael Sockol, descobriu que a origem do bipedalismo, o nosso caminhar sobre duas pernas, deve estar associado ao menor consumo de energia requerido em relação ao caminhar sobre quatro patas – e fazendo tudo errado, destruindo o que encontramos pela frente. E seguimos nos multiplicando aceleradamente. E os que não mais se multiplicam, talvez em função dos confortos excessivos, que sei eu, aumentam... seu conforto e seu consumo de prazeres. E segue a destruição, mas a vida vai bem, obrigado.


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quarta-feira, julho 11, 2007

Uma leitura dezesseis anos atrasada

A noite parecia longa à frente. Já cansado das telinhas, procurei um livro para ler antes de dormir. Nos tempos pré-internet estava sempre com dois, três e até quatro livros em leitura. Agora esse número caiu, porém, mesmo assim, tem sempre um ou dois na cabeceira. Ontem, nenhum.

E agora?

Talvez por conta de alguma síndrome, não durmo sem antes ler.
Não há chance. Nem que seja por meros três, quatro minutos, assim mesmo preciso da visão prazerosa das páginas de um livro pela frente, como última visão antes do negrume da luz desligada. E não serve revista ou jornal, tem que ser um livro, mesmo. Já aconteceu de me flagrar em algum lugar pequeno no interior do Brasil sem nada para ler. O pânico bateu, simplesmente. E lá saí eu pelas ruas de cidades pequenas à procura de uma livraria – nem pensar – ou de uma revistaria, onde geralmente encontramos alguns livros. Sempre tive sorte e consegui dormir.

Olhei para as estantes...

Todos lidos, muitos já relidos.

Outros, nem tanto, mas estão ali para referências e consultas, coisas ainda muito úteis apesar da internet e do google. Entre esses, todos os volumes da Britannica e da Mirador. Puxa, demorei tanto para comprá-las, paguei tão caro e, de repente, da noite para o dia, tornaram-se obsoletas.
Como muitas outras coisas, tantas que é melhor não começar a citar.

Aí apelei e fui para a "seçao" dos livros há muito guardados e ainda não lidos. Tenho alguns nessa categoria, inclusive os sete volumes de “Em busca do tempo perdido”. Algo me diz que já está na hora de ler essa obra que todos descrevem como prima. Passo por Proust, dou uma rápida olhada num Thomas Mann, nem sequer olho para um Machado, um dos poucos que ainda não li, e deparo com um Kundera. Talvez seja esse, penso, enquanto olho para “A Imortalidade” e lembro de uma ou duas críticas meio demolidoras feitas sobre o livro, não sei se feitas antes ou depois da compra, que fiz porque era um Kundera, que escrevera o belíssimo “A insustentável leveza do ser”, transformado em filme igualmente muito bom e bonito, ainda por cima. Ficou a impressão que Milan Kundera atingiu seu auge com uma só obra, justamente essa, e o que veio depois ficou longe dela. Bom, vamos ver, vamos ver.

Deito-me e,. ao abrir o livro, tiro o marcador de página para deixá-lo ao lado. Só que não é um marcador propriamente dito, é o canhoto de um cartão de embarque de uma viagem há muito passada e esquecida. Olho o cartão, é da VASP. A empresa nem existe mais, na prática. Vejo que ele me garante o embarque (é, leitoras e leitores, naqueles tempos distantes você tinha certeza de embarcar num vôo; e, acredite, você ia correndo pro aeroporto, preocupado com o horário, fosse lá perder o avião por conta de um atraso de minutos... é, as coisas já foram assim por aqui) no VP 141, saindo às 16:30 com destino a Porto Alegre no dia 17 de março de...

Viro e reviro o cartão procurando o ano e nada encontro. Pego o livro e procuro por alguma indicação. O canhoto é da Laselva, a santa e maravilhosa livraria de Congonhas e Cumbica. Com certeza vi esse livro no balcão de lançamentos. Com certeza porque o tempo é sempre curto para ficar andando e olhando nas prateleiras, e também porque só fiz isso em raras ocasiões, mas aí foi à procura de livros policiais. Esse Kundera jamais me levaria às estantes. Portanto, quando comprei-o era um livro recém-lançado. Procuro alguma data nas páginas iniciais e nada. Recorro à última página e lá está: a editora Vozes comunica que imprimiu-o para a Editora Nova Fronteira, em janeiro de 1991.

1991... Isso significa que comprei-o em março do mesmo ano, no dia 17, como atesta o cartão de embarque. E fiz isso numa de minhas últimas viagens pela empresa multinacional onde trabalhava, de onde viria a sair no dia 31 de julho do mesmo ano, já como efeito da abertura econômica promovida pelo governo Fernando Afonso, mais conhecido como Governo Collor. Todavia, se a gente usa esse nome, todos associam a bandalheiras & correlatos, numa pequena, mísera e triste antecipação dos dias e governo que correm. Como foi um governo com algumas iniciativas interessantes e importantes, fico com Governo Fernando Afonso. É sonoro, tanto quanto, e até meio imperial – como “elle” gostaria que fosse de verdade.

Desde então, dezesseis anos se passaram e “A Imortalidade” ficou parado na minha estante, mudando de São Paulo para a Granja Viana e sobrevivendo à fase “vendedor de livros pela internet”. Um livro resistente, sem dúvida. O mínimo que ele merece, agora, é uma leitura honesta.

Ainda antes de começar a ler pus-me a pensar na falta de informações do cartão de embarque. Ora, ali estavam somente o dia e hora do embarque, o vôo, o portão e o lugar no avião. Não tinha o ano! Falha imperdoável, uma vez que todos sabem que viajantes-leitores e cronópios usam seus cartões de embarque como marcadores de páginas dos livros que compram por impulso nas livrarias dos aeroportos e que só serão lidos muitos anos depois, quando a primeira coisa que o leitor atrasado quererá saber é: “Desde quando esse pobre livro está à espera da minha leitura?” E a resposta para tão importante pergunta deveria estar presente, indelevelmente, no cartão de embarque. Mas, não está, comprovando o eterno descaso das companhias aéreas com seus passageiros, que também são clientes. Inclusive os cronópios, seres que sofrem terrivelmente se não conseguem resposta a uma pergunta.

Sobre o livro? Vai indo, vai indo...
Talvez dê notícias dele, mais pra frente.


P.s.: ao ou à comentarista que falou dos erros: revisão feita; gracias.

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sexta-feira, julho 06, 2007

O Senhor das Flores - II

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Olhando de longe ele não é grande coisa.


O que mais chama a atenção é sua velocidade e a precisão nos movimentos.




Quando a luz favorece, podemos ver suas cores brilhantes, como se fossem metálicas.



A Maria Helena chamou-o de “visitante”. Errou, Maria Helena, ele é morador permanente, está mais para proprietário mesmo. Acho que o visitante por ali sou eu.


Como boa parte dos beija-flores,
ele é territorialista ao extremo e

toma conta zelosamente de seu domínio. Leva uma vida boa, o maganão. Não precisa se esforçar em busca de comida, pois a ela é farta em volta de casa.

Seu domínio envolve o entorno da nossa casa, e compreende, principalmente, o cipó-de-são-joão que subiu pela figueira e deitou suas flores no alto, vistosas e saborosas até para nós, os macacos-sem-pelo que ficam por ali em estranhas atividades.

Da figueira, pousio também muito apreciado por sabiás, saíras, sanhaços & cia. bela, ele voa sobre o telhado de casa e pousa no timburi. A seus pés, ou a seu bico, um bom e variado estoque de comida: a russélia, a diadema, os camarões e a mini-grevílea. Isso agora, claro, pois em outras épocas há, também, a caliandra, hibisco e outras. Sem falar nas flores das muitas laranjeiras e também

dos mamoeiros da horta.

Seu nome é Eupetomena macroura, mas pode chamar de tesoura ou tesourão.

Com o frio desses dias, ele começa a trabalhar meio tarde para um pássaro – na verdade ele não é um pássaro, pois os troquilídeos não fazem parte da ordem Passeriformes (a mais numerosa entre as aves), e tem sua própria ordem, a Trochiliformes, com várias famílias -, pois espera o sol esquentar um pouco e aquecer sua musculatura.

Nosso jardim está desfalcado. A russélia cresceu de forma assombrosa e tivemos que cortar boa parte dela. Os camarões estão meio em recesso e precisamos plantar mais, assim como as lanterninhas e sininhos. E mais um monte de flores outras. E vamos ter que espalhar mais, para evitar a competição por um mesmo território. Passando por ali, mesmo ocasionalmente, vemos freqüentes brigas, com o nosso pequeno e veloz senhor feudal voando ligeiro atrás dos invasores.

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quinta-feira, julho 05, 2007

O Senhor das Flores

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Na flor de mini-grevílea...




Na flor da russélia...



De volta à mini-grevílea...



Em repouso, mas alerta, ninguém pode chegar perto de suas flores.

Numa das varandas do Sítio das Macaúbas, em 4 de julho de 2007.


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sábado, junho 30, 2007

Evolução exemplar e anômala

Pelo que sabemos hoje, o Homo habilis é a espécie mais antiga do gênero Homo, ou seja, nosso ancestral direto mais antigo, que viveu no leste Africano entre dois e duzentos e um milhão e seiscentos mil anos atrás.
Os poucos fósseis descobertos foram o bastante para mostrar o aumento do tamanho do cérebro.

O Homo erectus é considerado uma evolução em relação ao habilis e viveu entre dois milhões e quatrocentos mil anos atrás. Além do cérebro mais desenvolvido, o Homo erectus já apresentava como característica a locomoção bípede e foi, também, o primeiro de nossos ancestrais a explorar e transformar seu ambiente, graças ao provável aprendizado de como fazer fogo e também algumas ferramentas e armas. Pelo jeito, foi com ele que tudo começou.

Há cerca de quatrocentos mil anos, surgia, em toda sua glória e esplendor, o Homo sapiens. Supostamente o auge de nosso desenvolvimento evolutivo, só supostamente, como veremos a seguir.

Uma subespécie do Homo sapiens, é o Homo sapiens var. assessorium, ou burocratus ou politicus de baixo clero. Se com o Homo erectus desenvolvemos nossa locomoção bípede, importante para alargar nossos horizontes em busca de mais comida e abrigo, além de facilitar a detecção de inimigos, com essas modernas subespécies desenvolvemos a paradoxal arte da locomoção bípede de quatro. Sim, de quatro, pois são seres que se curvam e assim desenvolvem suas vidas e carreiras, curvados aos desejos e interesses de outros. Um animal muito interessante evolutivamente, ainda que asqueroso pessoalmente. Como as baratas de esgotos.

Outra evolução do Homo sapiens é o Homo sapiens var. profissionalis, que na vida real são conhecidos por executivos, geralmente de empresas multinacionais. São tidos e havidos como um dos pontos culminantes da evolução, a mesma que nos gerou Gisele Bundchen e Lula, Lorelai Gilmore (Lauren Graham) e George Walker, Pelé e Sandro Goiano. Nenhum desses é executivo, mas são, também, assim como o companheiro Chávez, pontos altos de nossa evolução, provando que ela não tem o sinal de positivo acoplado, e muitas vezes, até na maioria dos casos, aparentemente, o sinal acoplado é o negativo.

A complexidade evolutiva, associada à complexidade do mundo moderno e suas exigências, trouxe o desenvolvimento de uma supespécie de Homo muito interessante. Ela tem vida curta, e nasce e cresce como Homo sapiens sapiens e depois, no final da adolescência e começo da vida adulta, muda para Homo sapiens var. estagiarius, até que, meses ou anos depois transforma-se no Homo sapiens var. profissionalis.

Ser interessante esse estagiarius. Aparentememente dotado de bom cérebro e habilidades, é mais usado como um servidor de café para os profissionalis de seu habitat. Os estudos mais recentes mostram três perfis distintos entre esses indivíduos:

- os pró-ativos, que são fuçadores, workaholics e provêm, em sua maioria, de lares com o mesmo perfil; desse grupo saem milionários diversos e donos de jatos executivos, poluidores atmosféricos em alto grau;

- os ativos, que desembocam em profissionalis típicos, relativamente bem remunerados, inseguros, infelizes, pagadores de pensões alimentícias e mantenedores dos chamados bares single;

- os pegadores de café; subcategoria interessante, muito interessante; seus membros têm três destinos: o olvido, puro e simples; ou a glória, transformando-se em líderes políticos de primeira grandeza aos olhos da plebe ignara; e ainda, finalmente, transformar-se em eméritos sevandijas, já na subespécie burocratus ou politicus ou assessorium; de acordo com a literatura especializada, Bush, Chávez e Lula são bons exemplos dessa subcategoria.

Falando ainda um pouco mais dessa subcategoria dos pegadores de café, estamos hoje às voltas com um de seus representantes. Ao contrário da média, esse começou sua carreira e transformação um tanto tardiamente, já na fase adulta plenamente instalada. De Homo sapiens foi transformado em Homo sapiens var. estagiarius num momento até certo ponto natural, desde que precedido por rituais específicos da área. O individuo em questão não só não passou pelos ritos e deveres prévios, como foi transformado, por ordens superiores, em um profissionalis de alta responsabilidade e alta remuneração, num caso não só anômalo como totalmente desprovido de lógica e coerência. Estou falando do treinador da seleção brasileira, o ex-jogador Dunga, que embora tenha o cargo de técnico, não passa de um estagiário.

- Ô, Dunga! O Dr. Ricardo pediu um cafezinho urgente. Pega lá e leva pra ele.

Esse rapaz vai longe.

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