Um Olhar Crônico sobre os dias de hoje e alguns de ontem. Um Olhar Crônico sobre a vida nas cidades, a vida na megalópole, a vida na roça, quando é dura, e no campo, quando é lírica. Textos, Idéias & Coisas diversas, aquelas que passam pela cabeça e a gente acaba registrando, sabe-se lá pra que ou mesmo porquê.
terça-feira, novembro 29, 2005
Notícias frescas da roça
Onça em Santa Rita do Passa Quatro!
Pois é, onça mesmo, mas não a pintada, maravilhosa, e sim uma suçuarana, a onça-parda, que aprendemos a conhecer nos filmes de Walt Disney e outros mais como puma.
Santa Rita do Passa Quatro tem umas belas áreas com florestas, ainda. Belas, mas não muito grandes, infelizmente. Numa delas está o grande e velho jequitibá, tido e havido pelos especialistas como o mais antigo ser vivo da América do Sul. O pessoal estima que ele tenha três mil anos de idade. Ou seja, quando Cristo nasceu ele passava da adolescência para a juventude, com mil aninhos de vida (tão logo eu crie vergonha na cara, vou de novo ao Vassununga visitá-lo e fotografa-lo, para depois mostrar aqui).
Essas reservas nos garantem visitas ocasionais de animais bem interessantes. Aqui mesmo republiquei a captura da sucuri num hotel-fazenda, depois de ter saboreado alguns gansos do hotel. No sítio, mesmo, temos alguns moradores permanentes e alguns turistas, como os macacos. Há muitos veados nos arredores, só não sei se dos campeiros ou dos mateiros.
Na semana retrasada, o pessoal duma fazenda próxima a uma das áreas de reserva avistou a bichinha. Chamaram a Polícia Ambiental e daí a parafernália toda. Conseguiram capturar a suçuarana, que estava estressada pelo ataque da cachorrada da fazenda. É uma fêmea jovem ainda, pesou 48 quilos e foi levada de volta para a reserva. Que seja feliz e não bote o narizinho pra fora da mata.
O assalto que me apavora
Nem muito longe, nem muito perto do sítio.
Valentim e Neusa dos Santos, e mais o filho, recém-tinham chegado no sítio e estavam tirando as compras da Saveiro, quando foram rendidos por bandidos. Um deles, magro e de voz fina, muito nervoso, com um revolver na mão, pediu as chaves do carro. Valentim jogou as chaves no chão, perto do bandido e tentou entrar em casa com a família. Irritado, o vagabundo de voz fina e com revólver deu um tiro na perna de Valentim, gritando que iria mata-lo. Apavorado e agindo por instinto, Valentim agarrou-se ao bandido e lutou com ele alguns segundos. Na confusão, com a gritaria toda, sua família entrou e ele também, fechando a porta. Gritando muito e fora de controle, o marginal deu vários tiros na porta da casa, conseguindo arrebentar com a fechadura, entrando em seguida. Um dos tiros que varou a porta feriu Valentim novamente, na cabeça. Por milímetros não morreu. Dentro de casa ele conseguiu pegar sua arma, um revólver, e quando o vagabundo arrombou a porta, atirou 3 vezes, atingindo-o na barriga pelo menos uma vez. Ferido, o bandido se voltou e fugiu, com a ajuda dos comparsas.
Valentim chamou a polícia que levou-o para a Santa Casa de Santa Rita do Passa Quatro. O delegado requisitou o Instituto de Criminalística para fazer a perícia.
Se o vagabundo aparecer, Valentim vai responder a processo, mesmo tendo agido em legítima defesa. E dizem, também, que ele será processado pelo porte de arma de fogo sem registro. Fico em dúvida sobre quem é mais assustador, se o bandido ou se a lei tupiniquim.
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Porco no rolete! E ferrovia, e história...
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Pois é, o dia de campo foi sobre as Jersey e seu manejo em piquetes rotacionados, mas o almoço foi um porco no rolete, preparado no restaurante Monjolinho, que faz parte da Fazenda Santa Maria.
Um pouco de história.
Na segunda metade do século XIX, o café começou a expandir-se do Vale do Paraíba para os sertões paulistas, terras de matas portentosas e índios ferozes. Terras de doenças, cobras e onças. De tudo isso, o que realmente mais afetava os colonizadores eram os insetos e as doenças, verdade seja dita. De Campinas em diante era sertão, terra bruta, matas virgens. E as fazendas começaram a ser formadas. Beneficiado pela terra fertilíssima e pela topografia amena, a produção desde cedo explodiu. Em pouco tempo tinha café demais e estrutura de menos. No último quarto do século (agora não recordo o ano), fazendeiros paulistas saíram dos sertões de São Carlos e foram para a capital imperial, a cidade do Rio de Janeiro. A cavalo, numa viagem de muitos meses. Em conversa com o imperador, foram claros: precisavam que a ferrovia saísse de Jundiaí e chegasse aos sertões. Precisavam escoar a produção de café e já não havia mulas e burros em quantidade suficiente para tal. Além disso, numa amostra do que seria o final do século XX e o começo do XXI, eram muitos os roubos de carga e as mortes de tropeiros. E, na viagem longa, eram também demasiadas as chuvas, que molhavam os grãos e prejudicavam o produto. O trem era uma necessidade vital.
Já mostrando que os problemas de hoje começaram muito antes de ontem e anteontem, Sua Majestade Imperial, Dom Pedro II, disse, de novo (outras visitas já tinham tocado nesse assunto), que não tinha dinheiro. Mas deu aos paulistas a concessão para a ferrovia.
Essa concessão foi entregue aos ingleses que, em troca de dois shillings por saca de café exportado durante 90 anos (o último pagamento foi feito na década de 50 do século passado) pelos seus trilhos, levaram a ferrovia e o progresso para o sertão paulista. E um ramal menor da Companhia Paulista – CP – cujo logotipo enfeitava trens, estações, armazéns e casas, o Ramal Douradense, foi construído e passou pelas terras da fazenda. E a estação Monjolinho ficou a cerca de 1 km da majestosa casa-sede.
Com o sucateamento e virtual destruição do sistema ferroviário tupiniquim nas últimas décadas do século XX, a antiga estação Monjolinho virou o agora restaurante Monjolinho, com uma lojinha anexa.
Os prédios construídos pela ferrovia estão lá, em pé, saudáveis, vigorosos, quem sabe esperando o reassentamento dos trilhos, a chegada de novas locomotivas e vagões, trazendo novos tempos gloriosos.
Enquanto isso não acontece, a gente vai saboreando o porco no rolete
e mais uma imensidão de pratos diversos ao longo do quilométrico fogão a lenha.

Hummmmmm... Minha boca está cheia d’água ao lembrar do almoço, ainda por cima num cenário delicioso e num dia com cara de britânico, combinando com a memória dos trens.
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Pois é, o dia de campo foi sobre as Jersey e seu manejo em piquetes rotacionados, mas o almoço foi um porco no rolete, preparado no restaurante Monjolinho, que faz parte da Fazenda Santa Maria.
Um pouco de história.
Na segunda metade do século XIX, o café começou a expandir-se do Vale do Paraíba para os sertões paulistas, terras de matas portentosas e índios ferozes. Terras de doenças, cobras e onças. De tudo isso, o que realmente mais afetava os colonizadores eram os insetos e as doenças, verdade seja dita. De Campinas em diante era sertão, terra bruta, matas virgens. E as fazendas começaram a ser formadas. Beneficiado pela terra fertilíssima e pela topografia amena, a produção desde cedo explodiu. Em pouco tempo tinha café demais e estrutura de menos. No último quarto do século (agora não recordo o ano), fazendeiros paulistas saíram dos sertões de São Carlos e foram para a capital imperial, a cidade do Rio de Janeiro. A cavalo, numa viagem de muitos meses. Em conversa com o imperador, foram claros: precisavam que a ferrovia saísse de Jundiaí e chegasse aos sertões. Precisavam escoar a produção de café e já não havia mulas e burros em quantidade suficiente para tal. Além disso, numa amostra do que seria o final do século XX e o começo do XXI, eram muitos os roubos de carga e as mortes de tropeiros. E, na viagem longa, eram também demasiadas as chuvas, que molhavam os grãos e prejudicavam o produto. O trem era uma necessidade vital.
Já mostrando que os problemas de hoje começaram muito antes de ontem e anteontem, Sua Majestade Imperial, Dom Pedro II, disse, de novo (outras visitas já tinham tocado nesse assunto), que não tinha dinheiro. Mas deu aos paulistas a concessão para a ferrovia.
Essa concessão foi entregue aos ingleses que, em troca de dois shillings por saca de café exportado durante 90 anos (o último pagamento foi feito na década de 50 do século passado) pelos seus trilhos, levaram a ferrovia e o progresso para o sertão paulista. E um ramal menor da Companhia Paulista – CP – cujo logotipo enfeitava trens, estações, armazéns e casas, o Ramal Douradense, foi construído e passou pelas terras da fazenda. E a estação Monjolinho ficou a cerca de 1 km da majestosa casa-sede.Com o sucateamento e virtual destruição do sistema ferroviário tupiniquim nas últimas décadas do século XX, a antiga estação Monjolinho virou o agora restaurante Monjolinho, com uma lojinha anexa.
Os prédios construídos pela ferrovia estão lá, em pé, saudáveis, vigorosos, quem sabe esperando o reassentamento dos trilhos, a chegada de novas locomotivas e vagões, trazendo novos tempos gloriosos. Enquanto isso não acontece, a gente vai saboreando o porco no rolete
e mais uma imensidão de pratos diversos ao longo do quilométrico fogão a lenha.
Hummmmmm... Minha boca está cheia d’água ao lembrar do almoço, ainda por cima num cenário delicioso e num dia com cara de britânico, combinando com a memória dos trens.
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Dia de Campo Jersey
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Sábado foi dia de aprender coisas novas. E foi, também, um dia de lazer. Sábado foi mais um Dia de Campo Jersey. Promovido pelo núcleo de Ribeirão Preto de criadores da raça, foi realizado na linda e histórica Fazenda Santa Maria, em São Carlos.

O que é um dia de campo? É um evento realizado numa propriedade rural, promovido por órgãos de pesquisa e extensão – como a Embrapa, a Fundação MT, a CATI e outras. Ou por uma ou mais empresas que produzem e comercializam insumos para a agricultura e a pecuária. Ou, ainda, por um grupo de criadores ou praticantes de uma modalidade de plantio. Naturalmente, a propriedade escolhida, sendo ela como um todo um modelo de administração e produção ou não, tem, no mínimo, alguma coisa muito boa para ser vista pelos visitantes e ligada ao tema básico do dia de campo.
Num dia de campo a gente aprende bastante, pois as palestras são bem feitas (geralmente) e, verdade seja dita, a gente aprende até mais com as perguntas que se seguem do que com a própria palestra em muitos casos. Dúvidas são manifestadas e esclarecidas. Novas informações circulam e abrem novos horizontes pra gente, como produtores. Vemos ao vivo e a cores, o que é sempre muito melhor, lavouras, animais, equipamentos, em condições reais de uso, idênticas às que temos em nossas fazendas e sítios. E conhecemos pessoas.
Muito embora eu mesmo não possa ser catalogado e arquivado na gaveta dos que amam o próximo acima de qualquer coisa (o próximo geralmente me irrita, e me irrita ao cubo ou à enésima potência, se for um burro investido de autoridade), acho que conhecer outras pessoas é uma das melhores coisas da vida. Nesse dia de campo, mesmo, fui enriquecido com o conhecimento de pelo menos duas pessoas muito interessantes: uma pesquisadora da Embrapa – uma das palestrantes do dia – e sua família (marido e filhos estavam presentes), que, além de tudo, é vizinha do Sítio das Macaúbas (sete mil metros de porteira a porteira, bem menos que isso em linha reta), e um outro criador de Jersey, esse em Rio Claro, pequeno como eu. Ele morou muitos anos na Costa Rica, imaginem, país do qual tenho as melhores informações, tanto por uma amiga que para lá foi e se apaixonou, como por uma amiga, costarriquenha, que casou-se com um amigo brasileiro e hoje mora por aqui (que provação, né? – deixar um país tão civilizado politicamente para morar num país em que a política está na pré-história de qualquer coisa que conheçamos).
Nesse dia de campo aprendi mais sobre o manejo em rotação de piquetes para o gado. Aprendi, também, algumas coisas muito úteis sobre as malditas anaplasmose e babesiose, as pragas que provocam a tristeza no gado e levaram a Primavera. Um pouco tarde para aprender, mas não tão tarde para evitar novas dores no futuro. Melhorei meu conhecimento sobre o ciclo de vida e o combate aos carrapatos. Visitei, novamente, os piquetes da Fazenda Recreio, ao lado e antiga parte da Santa Maria, onde vi, também novamente, a ordenha e o trato das Jersey. Isso é sempre muito bom, pois a gente vê, compara, analisa. Aprende, de novo e sempre. E mais um monte de informações e dicas, muitas das quais não recordo agora mas que estão anotadas. E serão usadas em momentos futuros.
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Sábado foi dia de aprender coisas novas. E foi, também, um dia de lazer. Sábado foi mais um Dia de Campo Jersey. Promovido pelo núcleo de Ribeirão Preto de criadores da raça, foi realizado na linda e histórica Fazenda Santa Maria, em São Carlos.

O que é um dia de campo? É um evento realizado numa propriedade rural, promovido por órgãos de pesquisa e extensão – como a Embrapa, a Fundação MT, a CATI e outras. Ou por uma ou mais empresas que produzem e comercializam insumos para a agricultura e a pecuária. Ou, ainda, por um grupo de criadores ou praticantes de uma modalidade de plantio. Naturalmente, a propriedade escolhida, sendo ela como um todo um modelo de administração e produção ou não, tem, no mínimo, alguma coisa muito boa para ser vista pelos visitantes e ligada ao tema básico do dia de campo.

Num dia de campo a gente aprende bastante, pois as palestras são bem feitas (geralmente) e, verdade seja dita, a gente aprende até mais com as perguntas que se seguem do que com a própria palestra em muitos casos. Dúvidas são manifestadas e esclarecidas. Novas informações circulam e abrem novos horizontes pra gente, como produtores. Vemos ao vivo e a cores, o que é sempre muito melhor, lavouras, animais, equipamentos, em condições reais de uso, idênticas às que temos em nossas fazendas e sítios. E conhecemos pessoas.
Muito embora eu mesmo não possa ser catalogado e arquivado na gaveta dos que amam o próximo acima de qualquer coisa (o próximo geralmente me irrita, e me irrita ao cubo ou à enésima potência, se for um burro investido de autoridade), acho que conhecer outras pessoas é uma das melhores coisas da vida. Nesse dia de campo, mesmo, fui enriquecido com o conhecimento de pelo menos duas pessoas muito interessantes: uma pesquisadora da Embrapa – uma das palestrantes do dia – e sua família (marido e filhos estavam presentes), que, além de tudo, é vizinha do Sítio das Macaúbas (sete mil metros de porteira a porteira, bem menos que isso em linha reta), e um outro criador de Jersey, esse em Rio Claro, pequeno como eu. Ele morou muitos anos na Costa Rica, imaginem, país do qual tenho as melhores informações, tanto por uma amiga que para lá foi e se apaixonou, como por uma amiga, costarriquenha, que casou-se com um amigo brasileiro e hoje mora por aqui (que provação, né? – deixar um país tão civilizado politicamente para morar num país em que a política está na pré-história de qualquer coisa que conheçamos).
Nesse dia de campo aprendi mais sobre o manejo em rotação de piquetes para o gado. Aprendi, também, algumas coisas muito úteis sobre as malditas anaplasmose e babesiose, as pragas que provocam a tristeza no gado e levaram a Primavera. Um pouco tarde para aprender, mas não tão tarde para evitar novas dores no futuro. Melhorei meu conhecimento sobre o ciclo de vida e o combate aos carrapatos. Visitei, novamente, os piquetes da Fazenda Recreio, ao lado e antiga parte da Santa Maria, onde vi, também novamente, a ordenha e o trato das Jersey. Isso é sempre muito bom, pois a gente vê, compara, analisa. Aprende, de novo e sempre. E mais um monte de informações e dicas, muitas das quais não recordo agora mas que estão anotadas. E serão usadas em momentos futuros.
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"- Que papo mais chato! Vai demorar muito?"
segunda-feira, novembro 28, 2005
Surpresa... De 1889
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Essa é a surpresa que a estradinha revelou: uma casa senhorial, uma sede de fazenda paulista construída em 1889, ano em que a República era proclamada por aqui.
As matas deram lugar aos cafezais e aos pastos.
Um ramal de estrada de ferro passou por essas terras, recolhendo o café e levando-o para outros mundos, em tudo diferentes desse.
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Uma curva de estrada...
Riacho no meio da mata
Café-da-manhã na roça
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Final de novembro...
O sol já aparece na cozinha pouco depois das seis da manhã, bem baixo no horizonte.
O cheiro da lenha queimando prepara o espírito pro cheiro do café que daqui a pouco estará sendo coado...
Depois de uma caneca pura, outra, agora misturada com leite de Jersey, e uma bela e gorda fatia de pão com manteiga.
Difícil começar o dia de um jeito melhor e mais gostoso.
Final de novembro...

O sol já aparece na cozinha pouco depois das seis da manhã, bem baixo no horizonte.
O cheiro da lenha queimando prepara o espírito pro cheiro do café que daqui a pouco estará sendo coado...
Depois de uma caneca pura, outra, agora misturada com leite de Jersey, e uma bela e gorda fatia de pão com manteiga.
Difícil começar o dia de um jeito melhor e mais gostoso.
sexta-feira, novembro 25, 2005
Skype, esse trem é bão!
Demorei, mas finalmente instalei o tal do skype ontem. Custou-me vinte reais, gastos na compra dum headset. Ontem não valeu como primeiro dia, só conversei com um amigo, para testar o funcionamento e pegar umas dicas. Hoje, entretanto, tudo foi diferente.
Chove em São Paulo desde cedo. E, naturalmente, desde cedo, muito cedo, a cidade está parada, congestionada, impossível para se locomover. E eu aqui em casa, precisando ir à luta e comprar sementes de capim para plantar no sítio. Já tinha um bom preço, numa cooperativa no Jaguaré, a uns 30 km de casa. Só de ida. O simples fato de pensar em encarar esse trecho já me deixava abalado. Fora isso, tinha de achar, se possível, uma outra semente para plantar junto. Procura daqui, procura dali, já estava pronto para sair quando fiz uma ligação para uma empresa de sementes em Ribeirão Preto. Em certo momento, o vendedor me pergunta se eu tinha skype. Surpreso e já contente respondi no ato: “Claro!” E em segundos passamos para o skype. Acabou o interurbano que me tomaria mais uns 10 minutos no mínimo. Acertamos tudo pelo skype, e comprei dele não só as sementes da leguminosa da qual estava atrás, como também o próprio capim, dezenove reais mais barato a saca com ele.
Economizei no capim, encontrei a semente que precisava e não achava em parte alguma e, ainda por cima e talvez o mais importante, economizei uma saída de 60 km na São Paulo chuvosa e congestionada de hoje.
Graças à net e ao skype.
Além disso tudo, já posso falar ao vivo e a cores via som com meu amigo que mora em Yokohama.
Beleza. :o)
P.s.: como nem tudo é perfeito, parece que as companhias telefônicas estão desenvolvendo um software que identifica e bloqueia as ligações interurbanas via skype, de um computador para um fone convencional, ligação que hoje sai a um custo meramente simbólico quando comparado aos preços que essas empresas cobram por aqui (lembrando sempre que mais de 40% do total da fatura são impostos).
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Chove em São Paulo desde cedo. E, naturalmente, desde cedo, muito cedo, a cidade está parada, congestionada, impossível para se locomover. E eu aqui em casa, precisando ir à luta e comprar sementes de capim para plantar no sítio. Já tinha um bom preço, numa cooperativa no Jaguaré, a uns 30 km de casa. Só de ida. O simples fato de pensar em encarar esse trecho já me deixava abalado. Fora isso, tinha de achar, se possível, uma outra semente para plantar junto. Procura daqui, procura dali, já estava pronto para sair quando fiz uma ligação para uma empresa de sementes em Ribeirão Preto. Em certo momento, o vendedor me pergunta se eu tinha skype. Surpreso e já contente respondi no ato: “Claro!” E em segundos passamos para o skype. Acabou o interurbano que me tomaria mais uns 10 minutos no mínimo. Acertamos tudo pelo skype, e comprei dele não só as sementes da leguminosa da qual estava atrás, como também o próprio capim, dezenove reais mais barato a saca com ele.
Economizei no capim, encontrei a semente que precisava e não achava em parte alguma e, ainda por cima e talvez o mais importante, economizei uma saída de 60 km na São Paulo chuvosa e congestionada de hoje.
Graças à net e ao skype.
Além disso tudo, já posso falar ao vivo e a cores via som com meu amigo que mora em Yokohama.
Beleza. :o)
P.s.: como nem tudo é perfeito, parece que as companhias telefônicas estão desenvolvendo um software que identifica e bloqueia as ligações interurbanas via skype, de um computador para um fone convencional, ligação que hoje sai a um custo meramente simbólico quando comparado aos preços que essas empresas cobram por aqui (lembrando sempre que mais de 40% do total da fatura são impostos).
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quinta-feira, novembro 24, 2005
Dolce far niente...
Imigrantes de sucesso
O Brasil é bem um país da América, uma terra que sempre acolheu bem aos imigrantes. Não tão bem assim, se pensarmos que muitos vieram para cá contra suas vontades, aprisionados e separados de suas famílias e terras na África. Outros, como meus bisavós maternos, vieram por vontade própria, deixando para trás a paupérrima Calábria - hoje não mais paupérrima, apenas pobre – e pegando o cabo da enxada nos cafezais do interior, numa vida dura e, à época, com poucas perspectivas. Da Terra do Sol Nascente veio muita gente, também, numa viagem ainda mais longa, verdadeira odisséia, gente com uma cultura em tudo e por tudo diferente da cultura dominante na nova terra. É, aquele pessoal de outrora tinha coragem, não se pode negar.
Nem só gente veio de fora e por aqui se deu bem. Muitos outros imigrantes aqui aportaram, estabeleceram-se e cresceram. Vou falar de alguns deles.
Há alguns meses, indo levar o leite pro laticínio num horário tardio, o sol já muito alto e velho no céu, deixei de fotografar uma cena muito interessante. Claro que, desde então, venho perseguindo essa bucólica cena em vão. Nela, eu tinha um bando de imigrantes bem sucedidos nas terras, águas e ares tupiniquins: búfalos asiáticos, garça africana e planta asiática, todos juntos, usufruindo harmonicamente das águas do córrego que cruza a fazenda do Tião, entra na Fazenda Pantanal e deságua no Rio Clarinho, que, por sua vez, vai desaguar na represa formada no Rio Claro.
Segundo muitos especialistas, a pequena garça branca que vemos atrás das vacas por toda parte hoje em dia, veio da África para a América do Sul. Não dizem como, mas tudo indica que isso, de fato, ocorreu. Elas andam atrás das vacas, cavalos e também búfalos, para comer os insetos que os quadrúpedes espantam enquanto pastam e, também, para saborear as gordas e nutritivas carrapatas cheias de sangue e ovos, penduradas, prestes a se soltarem para cair no chão, e ali prosseguir seu ciclo de vida, quando, cada fêmea, conforme a espécie, bota de três a cinco mil ovos que originarão igual quantidade de micuins. Santas garças!

Nessa foto, falta a garcinha. Mas estão presentes os outros dois imigrantes de sucesso: o búfalo e o lírio-do-brejo. Pena que esses exemplares da foto não tenham mais as bonitas flores brancas que fazem um belo visual às beiras dos córregos por boa parte do Brasil.
O lírio-do-brejo é interessante. Tanto já vi essa planta por todo o Brasil, que nunca, em nenhum momento, imaginei que ela não fosse nativa. Foi com surpresa que descobri, no Lorenzi (“Plantas Ornamentais no Brasil”), que sua terra de origem é a Ásia. Como ela veio parar aqui? Talvez trazida por algum funcionário da Metrópole, transferido quem sabe de Goa para o Rio de Janeiro e que trouxe na bagagem semente ou muda da planta que achava tão bonita nos rios da Índia?
É possível, provável, até. Seja como for, introduzida em algum jardim ou chácara nos arredores do Rio de Janeiro ou Salvador, ela expandiu-se velozmente e hoje é difícil a gente ver um trecho de beira-rio meio puxado pro brejo sem a presença maciça, bonita e cheirosa dos lírios-do-brejo, um imigrante de sucesso.(Há uma outra espécie, de porte um pouco menor e flor também menor, originário da Europa e Ásia, mas não tão difundido pelo Brasil como o primeiro, que chega a ser, em algumas áreas, uma verdadeira praga, pela agressividade com que invade áreas destinadas ao cultivo.)
Essas simpáticas senhoras, apesar da cara e do olhar assustador, são, também, asiáticas de origem. Em boa parte da Ásia elas são, ou eram – a Ásia mudou muito – parte das famílias que as criam, ou que elas na verdade criam, seria mais apropriado dizer, já que fornecem o leite para o dia-a-dia e o trabalho pesado nas lavouras de arroz, numa condição de clima absurdamente quente e úmido que somente esses animais conseguem suportar. A cara feia assusta, mas o coração é grande e generoso.
Suas primas mais claras e de caras mais simpáticas – e não tirem disso nenhuma ilação outra, por favor – são as búfalas-do-Mediterrâneo, responsáveis pela maravilhosa mussarela de Parma e, por extensão, dos mais fantásticos e deliciosos pratos já inventados pelo gênio humano, como o bife à parmegiana e a lasanha (a lasanha, sim, afinal, o que é uma grande lasanha senão um bom bocado de mussarela derretida envolvida por massa e molho?).
Para cá, vieram representantes das três raças asiáticas: Murrah, Jaffarabadi e Carabao. O grosso, porém, é das duas primeiras. Deram-se tão bem por aqui que parecem donas da terra desde sempre, como em Marajó e, principalmente, numa área no sudoeste de Rondônia, onde alguns animais abandonados há menos de um século, cresceram e multiplicaram-se nas ricas várzeas do Guaporé e afluentes, a ponto do governo ter permitido e estimulado o abate de animais para reduzir seu número. Sim, porque, por aqui, o único predador do búfalo é o homem. E olhe lá. A onça nem perto chega de uma fêmea adulta ou de um macho. Na Ásia, seus predadores são os tigres, principalmente, e crocodilos, em alguns casos. Mas nossos jacarés estão mais para calangos do que para crocodilos, se comparados com seus primos de África e Ásia. Assim como uma portentosa pintada é um gatinho perto de um tigre-de-bengala ou um tigre-de-Sumatra (dizem que ainda existem tigres-de-Sumatra na natureza;dizem).

Essa senhora e sua parceira da outra foto fazem parte do rebanho do Tião. É para ele que entrego o leite das minhas “jersinhas”, pois seu laticínio produz, também, mussarela mista e queijos diversos. Vira e mexe eu deixo o leite e passo a mão numa peça de mussarela e em alguns queijos. “Põe na conta, Mineiro!” Parte da minha produção, portanto, eu comercializo via escambo.
Elas gostam de água e barro. Pode não parecer, mas sua pele é sensível ao sol e à radiação solar inclemente dos trópicos. Elas, com toda certeza, já sabiam dos malefícios dos raios ultravioleta ainda antes da gente sair das cavernas e fazer a primeira choupana coberta de sapé ou similar. O barro em que se reviram tem o papel de protege-las dos pequenos piolhos que são seu tormento. Carrapatos, bernes e mosca-do-chifre passam longe ou pouco incomodam, mas os piolhinhos são terríveis. Para sorte delas, contudo, um bom banho diário e um bocado de lama é o bastante para manter as pequenas pragas sob controle.
O leite de búfala é branco, incrivelmente branco e gordo. Seu rendimento industrial é excepcional, e faz-se um quilo de mussarela com, praticamente, a metade do que se precisaria se fosse leite de vaca. Mesmo o rico e saboroso leite das minhas Jersey não é páreo pro leite das búfalas nesse quesito. Mas ganha no sabor, posso garantir. Outra coisa boa no leite de búfala é que seu teor de colesterol bom é maior que no leite de vaca, mas isso é um mero detalhe. Afinal, com um bocado de fibras e alguma atividade física, a gente controla bem esse trem assassino. E isso só passa a pesar na balança depois da puberdade. E, passada a puberdade, quem é que toma mais de um litro de leite por dia? Bom, meu amigo César... Mas também, pudera, o cara é um bezerrão não-desmamado. E como trabalha todo dia feito um burro de carga, apesar de proprietário de terra, um litro de leite não lhe faz a menor mossa nos índices colesterólicos. Ainda bem.
Pois é, aqui temos uma trinca de imigrantes muito bem sucedidos em terras de América. Desses, embora nenhum seja dono de padaria, nem tenha passado em primeiro lugar no vestibular mais concorrido, nem seja dono de metalúrgica ou supermercado, pode-se dizer que fizeram a América.
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quarta-feira, novembro 23, 2005
Flamboyant em flor
Graciosa, em recuperação
Teiú à vista!

Taí o bichão. Meio difícil de ver - a fêmea está presente, também, mas mimetizada - e arisco, muito arisco. Nesse momento da foto ele já estava de saída.
Certa vez, em Paulínia, gravei um ainda maior na área da Rhodia. E o bicho era bem maior que esse e já manso, por conta do trânsito intenso de pessoas por ali.
A moradia da família é relativamente próxima de nossa casa, e bem no meio da galinhada. Desconfio que eles vão além dos ovos e papam alguns pintinhos também.
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Pensando na morte da bezerra...
Numa das goiabeiras restavam duas goiabas. Perdidas, esquecidas pelos bichos, esquecidas pelos sanhaços, sabiás, tucanos & cia. Feia por fora, por conta dumas marquinhas, mas linda por dentro. Polpa firme, doce, no ponto exato de maturação. E a cor... Hummmm... Aquele vermelho forte, saudável, apetitoso. Quem a encontrou foi a Rosa. Perto dela, outra, mas ainda não estava no seu “dia perfeito”. Comer uma goiaba assim, no seu “dia perfeito”, é um prazer danado de grande. Só na roça mesmo.
O pé de grumixama está com sua primeira carga. Apesar da poda imbecil que um suposto jardineiro fez, o pequeno pé estava com uma carga até boa de frutas, muitas já amarelas, docinhas, suaves. Os passarinhos ainda não descobriram esse novo “restaurante”, mas é questão de dias.
Os teiús voltaram. Acompanhando a Rosa na horta, a Panda, cachorrinha do Esrael e da Maria, mas que já aprendeu a ficar conosco quando estamos em casa (ô, sina!), saiu correndo e espantou os dois bicharocos. No mesmo dia, mais à tarde, o sol queimando, lá estava o casal em meio ao capim ao lado da horta. O macho bem grande. Não consegui chegar perto o suficiente para uma boa foto, mas foi o bastante para ver sua língua bipartida explorando o ambiente. Mesmo um bicho como esse, inofensivo, provoca uma certa sensação de medo ao vê-lo de perto. Com certeza, os répteis estão em nossa memória ancestral ou coisa que o valha, como bichos a serem evitados. A fêmea, menor, ficou parcialmente escondida pelo capim. De repente, fugiram, achando que já tinham se deixado ver por tempo demais.
Gostam de ovos os danados, e como nossas galinhas vivem soltas e fazem ninhos nos lugares mais estranhos, tenho certeza que parte do belo porte do macho fica por conta dos ovos de nossas galinhas. A sorte dele é que o Valdir, por exemplo, não trabalha comigo no sítio, só nas gravações de nossos vídeos, pois, morasse ali, mais dia, menos dia eu seria convidado pra saborear um rabo de teiú assado ou cozido. Dizem que é uma carne muito saborosa.
Os pés de lichia não vão pra frente. Nem pra cima. Nem pros lados. Vão pra lugar nenhum. O jeito, portanto, é leva-los pro lixo orgânico e plantar outras árvores frutíferas. O mesmo aconteceu com os pés de caqui e abacate que plantamos. Como sou brasileiro e, portanto, nunca desisto (melhor que “não desisto nunca”, né?), vou comprar novas mudas de caqui, lichia, abacate e coco. E seguir tentando. Há coisas inexplicáveis, como essas. As mudas foram compradas em bom viveiro, foram bem plantadas e adubadas, etc e tal. Como não se desenvolveram, se as árvores próximas estão grandes e bonitas?
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E assim seguiria esse texto, em meio a amenidades diversas, inclusive alguns problemas, pois o problema de um costuma ser amenidade para outro, né? E ainda bem que assim é. Mas, tenho de mudar a rota e a escrita. O que comecei a escrever ontem já não tem valor hoje. Nessa manhã de 4a-feira, tudo mudou. Por causa do lulla? Não, não, dessa vez o infeliz é inocente, coisa rara, né? Tampouco por culpa do São Paulo, que segue treinando e se preparando pra disputar o Mundial Interclubes no Japão.
Mudou tudo porque perdi uma bezerra. A Primavera morreu nessa madrugada. Ela é filha da Imagem com o Safári, ou melhor, era. Uma bezerra bonita, que nasceu bem e estava se desenvolvendo sem problemas. Pegou tristeza, doença que na verdade pode ser uma de duas, ou até as duas: anaplasmose e babesiose. O nome tristeza é porque o bichinho fica fraco, abatido, jururu mesmo. Triste de dar dó. As duas bezerras Jersey tiveram o problema, pois a Graciosa, quase um mês mais nova, foi a primeira a apresentar os sintomas. O veterinário foi, cuidou das duas e deixou remédio e instruções para a seqüência. A baixinha recuperou-se bem, está bonitinha de novo, comendo e cabriteando no piquete. Já a Primavera não conseguiu se recuperar. Outro veterinário foi lá, quando o que primeiro tratou dela estava ausente, medicou, e nada. O quadro foi evoluindo e mais três visitas do veterinário em nada resultaram.
Criar é uma coisa muito boa, me dá prazer. Gosto de sair à noite e olhar as bezerras e novilhas. Estão sempre calmas, barrigas cheias, tranqüilas, dormindo ou ruminando. A gente se apega às bichinhas. Dar-lhes um nome significa individualiza-las, reconhecer suas características e gostos, significa traze-las pra vida da gente. Da minha, com toda a certeza. E uma bezerra tem um valor maior, não o comercial – que também existe, mas nesse momento nem conta – e sim o simbólico de representar o futuro e a continuidade.
Há dias que eu estou, também, meio jururu. Melhorei com a melhora da Graciosa, mas a morte anunciada da Primavera foi muito chata. Estou com tristeza, também. Mas a minha não é bacteriana.
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quinta-feira, novembro 17, 2005
Assoreia, assoreia...

Essa terra que se vê na foto é uma microscópica parte de toda a terra que escorreu do canavial acima. Não é um canavial ruim, teve até boa produtividade, pois a cana é adubada, etc e tal. Mas esse nosso solo arenoso em área inclinada não agüenta o tranco das chuvas: escorre.
Assoreou o “corguinho” alguns metros pra baixo. Cresceu capim na área assoreada. A Polícia Ambiental não deixou a prefeitura desassorear. Uma chuva forte provocou uma ruptura na estrada. Prejuízo: trânsito interrompido por 100 dias e uma despesa de quase meio milhão para a prefeitura de Santa Rita do Passa Quatro.
Tem mais: o corguinho leva areia em suspensão pro Rio Claro, que já recebe terra de outras áreas. O Rio Claro leva uma parte dessa terra pro Mogi-Guaçu, uns quilômetros abaixo, gerando mais assoreamento. O Mogizão deságua no Pardo, que logo depois deságua no Grande, que mais abaixo vai juntar-se ao Paranaíba e formar o Paraná.
Itaipu, pelo que sei mas nada oficial, tem uma vida útil meio curta, em função do assoreamento da represa.
A mesmíssima coisa, mas um pouco pior, acontece com o São Francisco, com o assoreamento matando os rios formadores nos planaltos de Minas Gerais e Bahia. Paraíba do Sul? Também com problemas. Mostrem-me um rio brasileiro e eu mostrarei um rio com problemas de assoreamento.
O Rio Taquari, em pleno Pantanal, tem inúmeros locais onde a gente atravessa caminhando, sem problemas, com a água mal e mal chegando à cintura. Nos pontos mais fundos.
Pantanal, ministra e governador: balaio de gatos
Não gosto da ministrinha Marina Silva (mas gosto de começar texto com um “não”, palavra que, segundo os especialistas, afugenta os potenciais leitores). Acho que ela é fraca politicamente, tem algumas posições equivocadas sobre a Amazônia, é omissa e covarde na questão da transposição das águas do São Francisco, o sonho de consumo de seu chefe, acho que ela fala muito e age pouco, não cuida dos seus fiscais, sabidamente corruptos em boa parte, acho que ela aparelhou o ministério e seu braço direito, o IBAMA, com gente cuja única qualificação é ser petista da linha certa. Entretanto, quando o elemento que é governador do Mato Grosso do Sul acusa-a de “falar besteira” sobre o Pantanal, sou obrigado a defender a ministrinha.
Primeiro, porque, ao que se diz e já foi levantado pela imprensa, Zeca do PT, além de nomear a parentada toda, tem, também, sua coleção de histórias mal explicadas. Embora a ministrinha também tenha as suas – como o seu marido, por exemplo, e outros mais – o estrago zequiano é maior e mais despudorado. E toda vez que gente assim abre a boca atacando alguém violentamente, eu fico curioso em saber o porque. Eu fico desconfiado.
Feita essa introdução, ao Pantanal.
Dias atrás, Francisco Anselmo de Barros imolou-se em praça pública, ateando fogo às próprias vestes, em protesto contra a tentativa de Zeca do PT aprovar a instalação de usinas de álcool nas cabeceiras de rios pantaneiros e em áreas pantaneiras. Não apoio, mas respeito o gesto do defensor do Pantanal. E sou, como ele, totalmente contrário à instalação dessas usinas; motivos para isso não faltam, pelo contrário, abundam.
Dos argumentos favoráveis apresentados por S.Excia., um foi decisivo, e nenhum outro me pareceu tão favorável como quatro. Sim, porque é um argumento tão forte que de um vira quatro: três usinas de álcool e uma distribuidora de combustível, que foram quatro dos cinco maiores contribuintes oficiais para a campanha de S.Excia. ao governo do estado no ano de 2002. Argumento de peso, este, dos bons.
Diz o governador que as usinas gerarão empregos e trarão renda. Não duvido. Conheço bem as usinas de açúcar e álcool, conheço suas práticas agrícolas, conheço o mundaréu de gente envolvida em suas operações. Mas também conheço o turismo pantaneiro, em franca ascensão. Conheço o mundaréu de gente envolvida nas lides turísticas de bem atender à Sua Majestade, o Turista. Conheço, também, os níveis salariais médios de um setor e de outro. E digo com tranqüilidade: melhor o turismo que o canavial.
A cana e as usinas podem ser plantada e implantadas por tudo quanto é parte do Mato Grosso do Sul. O que não falta no estado é pasto velho, degradado, pronto para ser preparado para o plantio da cana. Que gerará renda e empregos do mesmo jeito. Assim como as usinas implantadas em municípios não-pantaneiros. Portanto, Sr. Governador, não precisa quebrar lanças com a oposição em defesa dessas localizações.
Estou cercado por grandes usinas de açúcar e álcool. Usinas tidas e havidas como boas e eficientes. A maior parte da região tem solos parecidos com os solos do Pantanal e entorno, com grande teor de areia. Solos leves, solos fracos, solos facilmente erodidos e mais facilmente ainda transportados para os cursos-d’água, assoreando-os. Venho presenciando esse crime ano após ano na região, ao redor do Sítio das Macaúbas. Até fotos andei fazendo por conta duma chuvarada que destruiu a nossa linda estrada vicinal. O preparo pesado do solo abre as portas para a erosão. Vejo o areião arrastado das lavouras de cana cobrindo a estrada e assoreando os pequenos córregos. E nem vou falar dos malefícios do sol e do vento sobre os solos expostos, senão esse texto vira uma desgraceira só. E, como já me disse um agrônomo de uma das usinas, “eles se empenham e conseguem produzir preservando o solo”. Hum hum... É, bem vejo a preservação que eles praticam. Por conhecer tudo isto, não só ao redor do sítio, mas por todo o interior de São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, é que eu tenho certeza que a implantação dessas usinas próximas ou dentro do Pantanal vai comprometer seriamente, mais que isso, dramaticamente, a sobrevivência dos rios pantaneiros.
Voltando à ministra e ao governador, pra não perder a viagem ela deita falatório sobre os agrotóxicos e envenenamentos e não sei que mais. Ah, se todo o mal fosse esse, que bom que seria. Nesse quesito, movida pela posição ideológica, a ministrinha extrapola e fala inverdades, bobagens, meias-verdades. Mas isso, repito, é um mal que, se chegar a ocorrer, será inócuo sobre a natureza, pois as outras forças terão agido antes com muito maior virulência e eficiência destrutiva. Até porque, quem aplica defensivos absurdamente caros de forma delinqüente e perdulária, já fez coisa muito pior com o solo.
Há muito mais pra falar, mas nem eu tenho tempo e muito menos vocês teriam paciência. Em essência, é isso. Fui obrigado a defender a ministra do Meio Ambiente (quando teremos um ambiente inteiro nessa república?) porque uma força maior e mais sinistra se levantou. Fiz isso porque sou apaixonado pelo Pantanal, apesar de sua maldita fauna alada zumbidora e picadora, atraída por repelentes e assemelhados. Porque o inteligente, nesse caso, é preservar e até recuperar o Pantanal, pois é assim que ele rende muito para nós todos. Fiz esse texto e fiz a argumentação baseado em fatores puramente financeiros. Não falei de preservar borboletinha ou jacarezinho. Falo em preservar solos e águas como fatores de produção de renda turística. Não é um texto ambientalista, ou preservacionista, ou texto de bicho-grilo. Deus me livre! É um texto em defesa do ganhar dinheiro com a natureza. A curto, médio e longo prazo.
Afinal, eu sou um cara materialista e interesseiro. Mas eu ainda aprendo, e um dia hei de mirar-me em exemplos de desprendimento e pureza como tantos que hoje vemos nas manchetes. Um dos quais até mencionei aqui.
Ops, à guisa de post-scriptum: o governador que disse que a ministra “fala besteiras”, como diz seu “nome” – do PT – é do mesmo partido que a ministra, o PT; e fico me perguntando quais desconhecidos fatores teriam levado um governador de estado a falar assim de uma ministra de estado e colega de agremiação?
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