quarta-feira, abril 27, 2005

Respeitosamente, vá se catar!

Ridículo!

Grotesco e ofensivo.

Poucas vezes vi ou ouvi um homem público falar tão grande asneira como o fez dessa vez S. Excia. , o presidente Luiz Inácio da Silva. Lembrando que, por força de sua vitoriosa e muito incensada carreira sindical, acrescentou Lula ao seu nome.

S. Excia. não trabalha há décadas. Desde que virou dirigente sindical. A partir daí, sua vida foi uma sucessão de reuniões e conversas. Ficou uns dias preso, é verdade, bem tratado, visitado e paparicado. Esse período de férias de alguns dias rendeu-lhe bela e polpuda aposentadoria precoce – não sei de que, mas enfim... – além de enriquecer seu currículo.

Sua filha mais velha estudou em Paris, com tudo pago por representante da burguesia tupiniquim.

Morou de favor em bela casa cedida por amigo durante muitos e muitos anos.

Com tanta falta de despesa, é claro, conseguiu comprar apartamento de bom padrão e chácara idem. Nada contra, muito antes pelo contrário. Tudo justo, muito justo, justíssimo.

S. Excia. só levanta o presidencial traseiro da poltrona do palácio para acomodá-lo na poltrona do AeroLula, brinquedinho que custou a bagatela de 70 milhões de dólares (57 da compra e 13 das adaptações e equipamentos, valor que a imprensa nunca lembra de citar e acrescentar ao valor da compra).

S. Excia. desconhece o que é a vida comum, corriqueira, de quem não é, como ele, um privilegiado. Não paga escola, não paga cartão de crédito, não paga aluguel ou prestação de casa, tem aposentadoria boa e gorda garantida, enfim, S.Excia. desconhece a vida real. Há décadas vive em um mundo de fantasia falando e opinando sobre o mundo real, cada vez mais distante, cada vez mais esquecido e deturpado.

S.Excia., depois de falar um monte de asneiras por terras d’África, Ásia, Américas e Europa (faltam Oceania e Antártida) e uma infinidade de tolices na Terra de Vera Cruz, pronunciou, agora, a maior e melhor de todas, seu atestado de incompetência: mandou-nos levantar os traseiros, abandonar o comodismo e procurar outro banco com taxa de juros mais barata, ao invés de xingar de noite e pagar os juros de dia. S.Excia. foi mais além, ao dizer que a gente reclama dos juros num bar. Oras, Sr. Presidente da República, faça-me o favor! Ao contrário do senhor, cujo gosto pela bebida é conhecido até nos "Isteitis", eu não bebo, muito menos em bares, até porquê o dinheiro anda escasso para isso. É, isso mesmo, afinal, na vida real e no meu pobre caso, se eu beber e comer num bar terei uma conta para pagar. Não há 175 milhões de bobos pagando também essa conta para mim.

Por último, mas não menos importante, S.Excia. esqueceu que uns 54 milhões de comodistas levantaram os traseiros e foram às urnas votar justamente no senhor para mudar “tudo isso que está aí”. Pobres eleitores.

Ah, quer saber duma coisa? Sr. Presidente, com todo o respeito, vá se catar!

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terça-feira, abril 26, 2005

Cansaço, miopia e experimentação

Tá no Estadão de hoje: “Uso exagerado de computador causa fadiga visual” (não coloco um link para essa matéria porquê o acesso é restrito a assinantes do jornal impresso). Resumidamente, pesquisa realizada pelo Instituto Penido Burnier, de Campinas, revelou que o uso do computador piora a visão das pessoas. Nesse pesquisa, 75% dos usuários tiveram fadiga visual, conhecida pela sigla CVS – Computer Vision Syndrome.

Isso ocorre porquê, segundo um dos especialistas, nunca nossa visão de perto foi tão exigida como nos dias de hoje e nosso olho não foi feito para ficar duas horas olhando no mesmo foco (só duas horas?). Possivelmente, o uso do computador pode estar ligado ao aumento de casos de miopia infantil.

Outro problema – e esse vai me gerar uma tremenda mão à palmatória: nosso olho pisca, em média, 20 vezes por segundo (a matéria diz por segundo). Na frente do monitor, porém, essa freqüência cai para 5 vezes. A piscada lubrifica o olho e é um instrumento de defesa. Mais um problema: os monitores modernos têm até 16,7 milhões de cores, e isso resulta num problema para a visão: a variação de luminosidade sobrecarrega a musculatura que regula a entrada de luz para a retina.

Tudo isso acaba provocando dor de cabeça, olhos vermelhos, sensação de poeira nos olhos, olho seco. Tenho tido tudo isso, vira e mexe uso colírio, e desde o começo minha mulher falou que eu ficava tempo demais em frente ao computador. “Vê lá!” – foi a minha resposta. Ela estava certa e eu, pra variar, errado. Saco!

Bom, ameniza um pouco reduzir o brilho, usar protetor de tela, trabalhar sempre com luz acesa sem incidir diretamente nos olhos ou na tela.

A matéria é muito boa. Se houver interesse posso tentar colocá-la aqui ou posso enviá-la via e-mail para quem tiver interesse.

De minha parte, acabei de aumentar o corpo das letras, o tamanho delas. Estavam muito pequenas, exigindo ainda mais esforço para a leitura (como se já não bastasse o esforço pra ler um monte de coisas que escrevo).

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Vale enevoado

A estrada estreita, uma curva em seguida à outra, me levava cada vez mais para cima. O sol forte e brilhante não chegava a esquentar, o frescor e a umidade da mata deixavam a temperatura agradável. Até que não tinha mais subidas, já estávamos no topo da serra, dali pra frente, se prosseguisse, começaria a descer no rumo do mar, no rumo de mundos diferentes em tudo daquele ali, no alto, as nuvens ao alcance dos dedos.

A estradinha de terra estava do lado esquerdo, entrada apertada. A estrada deserta permitia qualquer manobra mas entrei direto, só reduzindo um pouco a velocidade. A estradinha seguia em frente como se fosse um túnel, fechada pelos lados e pelo alto pela vegetação. Pouco depois a mata terminou. À minha frente, se estendendo por uns dois quilômetros, um vale bonito, tomado pelo capim dos pastos. Bem mais comprido que largo, à esquerda terminava em morros cobertos pela mesma mata, verde-escura e fechada. À direita, os morros mais suaves um pouco, estavam tomados pela pastagem, pontilhada aqui e ali por algumas vacas.

Parei o carro. A paisagem combinava com o silêncio e a placidez geral. As vacas pareciam não se mover, e os cantos dos passarinhos chegavam de longe, suavizados pelas árvores e misturados com o murmurejar gostoso da água do pequeno riacho escondido pelo capim. Os diferentes tons de verde combinavam com o azul intenso do céu. Um momento perfeito. Ainda não sabia, então, que aquele seria só o primeiro momento perfeito daquele dia. Lembro que, naquele momento, senti um pouco do perfume do capim-gordura.

Foi difícil voltar pro carro, ligar o motor e seguir para o fundo do vale, na direção da sede. Na verdade, por ali a gente não seguia para o fundo e sim para a cabeceira do vale. A sede, a casa do empregado, o curral pequeno e ajeitadinho estavam a cavaleiro do vale, encarapitados numa pequena elevação. Uma pequena subida, uma curva, outra subida curta e mais uma curva e parei em frente à sede, velha, com jeito aconchegante.

Não lembro do que conversamos. Mal e mal lembro, também, de ter andado um pouco pelo pasto, de ter entrado no curral, ter olhado uma vaca ou outra. Meus olhos se interessavam pelo conjunto, pela paisagem. O pasto não precisava de minhas passadas para saber que estava, como todos os outros, semi-degradado, precisando de matéria orgânica, precisando de adubo, precisando de proteção.

Fiquei feliz quando voltamos pra sede. Se espantaram comigo porquê não quis entrar e sentar na sala, preferi ficar sentado na varanda, de frente para o vale, sentindo o frio e um pouco da umidade do fim da tarde subindo e chegando, tomando conta do corpo. Mais de um café tomei não pra espantar o frio ou acompanhar os biscoitos, mas pra alongar o prazer. Que ficou maior quando a neblina apontou lá embaixo, justamente onde eu tinha parado e descido do carro pra admirar aquele pequeno mundo escondido do asfalto.

Ela chegou de repente, densa, como uma grande manta de algodão cinza claro, escondendo a paisagem, escondendo as árvores e logo em seguida escondendo o pasto e as vacas. Minutos depois, nós mesmos estávamos escondidos do mundo, envoltos por ela, a neblina do alto da Serra do Mar. Minha paixão por aquele vale só aumentou. Tudo que eu queria da vida, naquele momento, era me deixar ficar, acender o fogão a lenha, puxar um livro e deixar o tempo passar, conversar mais, ouvir mais histórias e estórias, deixar a vida seguir até o próximo nascer do sol, o desmanchar da neblina, e o renascer da paisagem.

Pena. Tudo que fiz foi entrar no carro e pegar o rumo de casa, na distante cidade grande. Tenho certeza que um pouco de mim ficou ali, naquele pequeno vale. Ou, quem sabe, foi um pouco dele que veio comigo e comigo está até hoje, tanto tempo passado, tantas sensações vividas, tantas paisagens vistas e aquele vale nunca perdido.


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segunda-feira, abril 25, 2005

Contrastes


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A moto do Israel (sim, Israel, o outro é o Ismael e o irmão do Israel chama-se Ismael, mas a gente chama o garoto de Polaco; meio confuso, né?) está parada ao lado da cerca elétrica perto do curral. Indiferente ao monstrengo tecnológico, o Brioso come um pouco de grama na margem do carreador.

Na cozinha do sitio, cara a cara com o fogão a lenha está o freezer. No outro canto, a geladeira modernosa. A gente pouco, ou quase nada, usa o gás no outro fogão. Quando comprei o sítio, “herdei” um bujão de gás que já ia quase pela metade. O mesmo bujão que foi roubado quase 4 anos depois da compra, ainda com gás. Pelo menos nesse ponto economizamos petróleo, pois o gás é o GLP.

Diariamente, exceto nos finais de semana, o Brioso leva o leite até o laticínio. Depois vai até a capineira de napiê “paraíso” e leva o capim cortado para cima, onde será picado. Capim que ele mesmo come com gosto. O Israel vem trabalhar de moto e nos dias em que não trabalha traz o Polaco. Já o Ismael, embora tenha bicicleta de marchas, prefere vir a pé. O Zé quando trabalhava com a gente, ora vinha de bicicleta – boa pra treinar e manter os músculos afiados pra montar nos touros dos rodeios – ora de moto, ora de cavalo.

A vida é mais interessante quando convivemos com coisas tão contrastantes.

Isso tem algo a ver com diversidade, pluralidade, democracia, até, por que não? Onde nada é uniforme talvez seja mais fácil aceitar o diferente.

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quarta-feira, abril 20, 2005

Jávea


(Essa história é verídica, com algumas frases reconstruídas de memória. É uma história sobre paixão e futebol, mais sobre futebol, mais sobre paixão, sei lá.)


Jávea, uma história de amor...
(esse título termina no final do texto)


Trabalhar em cartório de registro civil já foi mais fácil do que é hoje. Tá certo que antigamente não havia computador, tudo era escrito a mão mesmo, boa caligrafia era essencial. Mas tirando um ou outro Anfilóquio & assemelhados, os nomes eram fáceis e poucos, a maioria esmagadora com um santo padroeiro, o que tornava tudo ainda mais fácil. Era Amélia, Hermengarda (essa acho que não tem santa), Paulo, Maria das Dores, Ernesto, José, João, Bento, Helena, Manoel ou Manuel, Ernestina, Bertolino, Adélia, Aparecida, muitas Marias. Lá uma vez ou outra aparecia uma Edwige, mas era raro. Por volta dos 50, a coisa começou a mudar e os nomes passaram a ficar, digamos, mais sonoros. Influência da guerra, decerto, e dos americanos, com certeza. Eu mesmo e meus irmãos somos vítimas dessa fase. Emerson, Vagner e Edson (Eduardo, o caçula, deve seu nome à minha indicação). De minha parte, ficaria mais à vontade com um Frederico Augusto, quem sabe. :o) Elocubrações meio bestas.

Naquele dia o rapaz do cartório na cidade de Marilia ficou espantado. E um pouco indignado.

- Bom dia - disse o rapaz novinho, meio alto, magrelo, cabelo meio comprido.
- Bom dia – respondeu o cartorário.
- Vim registrar minha filha, nasceu ontem.
- Ah, muito bem. Está com os papeis da maternidade? Passe-os para mim, por favor.

O cartorário pegou a guia da maternidade, abriu o livro e começou a fazer o registro da criança, uma das mais novas habitantes do planetinha azulado cheio de H2O na fase líquida. Computadores, conhecidos como cérebros eletrônicos, eram máquinas gigantescas usadas pela NASA, pelos “americanos” e “russos” e pelos bancos gigantes daqui mesmo. Ficavam em salas enormes, refrigeradas, com um povo esquisito trabalhando dentro deles. O jeito, portanto, no cartório, era escrever na base da munheca, mesmo. Diligentemente.

- O nome da menina?
- Gávea de Lima Cordeiro.
- Como? Pode repetir, não entendi direito.
- Gávea de Lima Cordeiro – repetiu o rapaz magrelo, compassadamente, o rosto com um ar de satisfação.
- Olha, hummmm... “seu” Jairo, né?
- Isso!
- Pois é, seu Jairo, não posso fazer esse registro.
- Como não pode?

A transformação no rosto do rapaz foi instantânea. A satisfação foi embora, trocada por um começo de raiva.

- Pois é, não dá, esse nome não existe.
- Como não existe? É claro que existe!
- Não, não existe.
- Que é isso, rapaz? É claro que existe. Tem um bairro com esse nome lá no Rio de Janeiro.
- Pode até ser, mas não existe, não é nome.
- Que que é isso? Tem até a Pedra da Gávea, que é famosa pra burro.
- Pode ser, “seu” Jairo, mas isso não é nome de gente e eu não posso fazer o registro.

Dito isso, o cartorário afastou a cadeira da mesa e ficou olhando o rapaz magrelo. Um outro rapaz, igualmente novo, que estava com o magrelo meio cabeludo, falou baixinho pra ele ficar calmo.

- Como é que eu vou ficar calmo se esse cara não quer registrar a minha filha? Ficar calmo como?
- Calma, Jairo, vamos conversar.
- Que conversar coisa nenhuma. Ele taí pra registrar e tem que registrar!
- Calma, cara, assim só piora as coisas.

O rapaz acompanhante virou-se pro cartorário e perguntou:

- Vem cá, não tem jeito de fazer o registro? Gávea é um nome bonito, sonoro, e ele tem razão, existe um bairro lá no Rio com esse nome. Fora a pedra, que é grandona e bonita.
- Olha, você é mais calmo, explica pro teu amigo aí...
- É meu primo.
- ... explica pro teu primo que não podemos fazer registro de pessoas com nomes... hummm... assim, entende? Nomes de coisas.
- Mas ele quer esse nome, não vai ter jeito.
- É, mas infelizmente se eu registrar assim, o juiz recusa, anula o processo e eu levo uma baita duma bronca ou coisa pior.

Ao lado, o pai da menina ainda sem nome, já que, pelo visto e ouvido Gávea não seria, escutava tudo, ar de revolta e incompreensão estampado na face. Ar de quem não estava acostumado a ser contrariado. E isso era fácil de entender: bastava vê-lo jogando bola aos domingos no campo de Padre Nóbrega, o pequeno distrito de Marilia onde viver era uma coisa pra lá de gostosa. Todas as bolas passavam por seus pés. Gritava com todos, comandava, tanto os moleques novos como os velhos já meio barrigudos. E ninguém discutia. Também, pudera, as bolas que chegavam a ele eram trabalhadas com paixão, ciência e arte, tudo junto. Quando alguém errava uma jogada ou não se posicionava onde ele queria, a catadupa de palavrões cabeludos que saía de sua boca era terrível. Aquele magrelo, definitivamente, não estava acostumado a ser contrariado.

O entrevero durou mais alguns minutos, caras feias daqui e dali, inflexibilidades também. Súbito, não sei se o cartorário, não sei se o Jairo, não sei se o primo ou algum outro vivente dentro do cartório, sugeriu uma mudança. O Jairo pensou em Jávea, talvez já tivesse pensado antes, talvez tenha sido a tal idéia luminosa que às vezes temos.

Jávea... Claro! Afinal, Jairo era o seu nome, pai da menina, Gávea era onde morava a paixão de sua vida, o Flamengo, juntava os dois e pronto! Uma solução à brasileira, negociada, acordada, uma posição de conciliação, produto típico de um povo que já foi tolerante e mais cordato.

Jávea foi batizada dias depois. Cresceu, já é uma mulher formada, entrando agora nos trinta. Meu primo Jairo continua batendo um bolão, mas de acordo com a idade e a barriguinha. Virou um desses magrelos com barriga, mas não exagerada, é passável. Continua sonhando com os horizontes amplos, imensos, dos sertões do Centro-Oeste, sertões que sonhou cruzar dirigindo uma carreta. Toda vez que cruzo essas imensidões, e são muitas, penso nele pelo menos um pouco. Apesar de ter treinado no Santos de Pelé, com a camisa 10 dos aspirantes, não tem saudades e não se arrepende de não ter seguido carreira no futebol profissional. Qualquer dia conto essa história.

Hoje ninguém mais se incomoda ou comenta o nome de sua filha. Nem ela deve se lembrar o porquê desse nome diferente. Também, pudera, num país como esse, com os nomes que vemos hoje, vamos & venhamos, Jávea é bem legal. Meu primo conseguiu transplantar sua paixão pelo time para o mais íntimo de sua própria família.

Vai gostar do Flamengo assim sei lá onde! Talvez na Gávea.


... por um time de futebol

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Andrei Gromyko e o Brasil

Movido por uma curiosidade extemporânea, mas muito forte, saio vasculhando estantes e armários na caça da biografia de Andrei Gromyko – “Memories – from Stalin to Gorbachev”.
Comprei esse livro em Cuba, já lá se vão 15 anos. Naquela época a URSS ainda vivia, estertorando, é bem verdade, mas viva ainda, sob o governo do camarada Gorbachev.
Esse Gromyko sempre me intrigou. O velho Politburo do PCUS era um ninho de víboras, onde a sobrevivência era algo muito difícil, obtida a duras penas. Sobreviver no governo, então, era mais difícil ainda, principalmente quando mudava o Secretário-Geral do Partido. Todavia, entrava ano, saía ano, veio Khrushchev, veio o longo reinado Brezhnev e depois Andropov, Chernenko e, finalmente, o último secretário-geral, Gorbachev, e lá estava Andrei Gromyko firme e forte à frente da política externa da União Soviética.
Um verdadeiro bagre ensaboado, no Brasil faria sucesso como político, assim como o companheiro Zé Ribamar e outros de longa vida junto ao poder.


Durante mais de 30 anos esse homem esteve no centro de tudo que aconteceu no mundo, já que ele viveu toda a Guerra Fria no coração de um dos centros do poder. E durante esse tempo, qualquer coisa que acontecesse nesse planetinha azul tinha a ver com a Guerra Fria, direta ou indiretamente. É uma leitura interessante, inda mais se depois a gente lê o Kissinger e “Na arena”, do Nixon.


Eu me lembrava de ter lido vários trechos de suas memórias, mas não tinha chegado a fazer uma leitura de cabo a rabo. Não o fiz agora, tampouco. Fui direto ao final do livro e procurei os assuntos, países e pessoas que Gromyko menciona ao longo do livro. ... ... ...
Em vão. Não há uma única menção ao maior país latino-americano. Uma mençãozinha que fosse, tipo “ah, sim, existe um país chamado Brasil”. Nem isso. Nada, em resumo.
Somos inexistentes.
Pior: a própria América do Sul só existe numa menção curta sobre Salvador Allende e o Chile, e outra igualmente curta sobre a Bolívia, por conta da morte de Che Guevara. Mais nada. Nem sobre Argentina, Uruguai, Colômbia, Peru ou Venezuela. Nada vezes nada igual a zero. Uma boa medida da nossa importância no cenário internacional.


Hoje (texto originalmente escrito em 2005) mudou um pouco esse quadro, mais por força das vicissitudes econômicas a que fomos submetidos, o planeta inclusive. Por força de calotes no pagamento das monstruosas dívidas assumidas por Brasil, Argentina e companheiros e, mais recentemente ainda, por força do comércio internacional, onde o Brasil passa a ocupar uma posição menos servil e mais ativa. De qualquer forma, sob qualquer ângulo, nossa inexistência na vida de alguém como Gromyko demonstra nossa desimportância.
Somos tão inexistentes como o título desse texto.


Agora, reparando nos trajetos do "AeroLula" com o presidente a bordo, vejo que nossa política externa se faz (será?) com países igualmente ausentes das memórias de Gromyko. São conversas do desimportante com o nada. Patético (*). Enquanto o presidente perde seu tempo, nossos recursos e compromete nosso futuro com essas tertúlias africanas, caribenhas e outras, Índia e China, com 40% dos habitantes do planetinha, assinam acordos, se mexem, crescem aceleradamente à custa do ambiente, à custa do trabalho quase escravo, à custa da vontade e de um planejamento para o futuro.

E nosso presidente desembarca em terras d’África e pede perdão pela escravidão. Ora, francamente, que demagogia imbecil e barata. Melhor faria se ficasse por aqui governando e tentando melhorar a vida dos descendentes dos escravos.

Se bem que, pensando bem, se com ele viajando tanto já está do jeito que está...

Hummmm...

Ok, Excelência, continue viajando. Talvez nos seja mais barato e menos ruim.


(*)À guisa de p.s.: esse termo "patético" não se aplica dessa forma, mas num texto assim despretencioso, ok, dá para usá-lo; popularmente ele tem uso e pega bem à beça - ou à bessa, como quer a ABL - num texto que se pretende irônico.)


Uma atualização em Novembro de 2016

Ora, ora, ora...  E o então presidente Luiz Inácio fazia suas viagens mundo acima, mundo abaixo, com mais a bordo do que apenas sua equipe e a tripulação, ficamos sabendo em tempos mais recentes.

Também agora começamos a saber, mas ainda não completamente, das negociatas e maracutaias envolvendo grandes empreiteiras, o BNDES, o governo dos companheiros e governos de portentosas nações africanas.

Na época já chamava a atenção, mas ainda não conhecíamos a dimensão das negociatas.


(Sítio das Macaúbas, aos seis dias do mês de novembro do 16º ano do 21º Século.)

Benedictum XVI, welcome on board

Habemus Papam e Benedictum XVI é seu nome. O XV teve um papado interessante, atravessou a selvageria da I Grande Guerra, manteve-se neutro, exigiu tratamento digno para prisioneiros – o que foi um grande avanço para a época, praticou uma política de conciliação.

Esse começo de outro século, não mais o XX mas o XXI, precisa de um Papa que ajude a resgatar valores morais e éticos, hoje perdidos, esquecidos por aí afora, ou simplesmente trocados por um tênis novo, uma calça jeans da hora, um celular com mil e uma funções desconhecidas e duas operacionais: falar e despertar.

Nasci e fui criado no catolicismo brasileiro, sem ter, felizmente, a obrigatoriedade de ir às missas. Fazer primeira comunhão foi um ritual, nada mais que isso. E foi chato. Crescidinho, considerei-me ateu, até porquê, como comunista, era o caso. Mais crescido, talvez evoluído, percebi-me agnóstico. Tá de bom tamanho. Isso não me impede, todavia, de considerar a religião como algo fundamental ao ser humano. E o catolicismo, em particular. Mas sou firmemente contrário à participação da igreja no poder. Qualquer igreja, qualquer religião. Podem me taxar de reacionário, mas lugar de padre é na igreja, de mulá na mesquita, de rabino na sinagoga, de pastor no templo. Cuidem das almas das pessoas e deixem a administração da sociedade aos cuidados da sociedade. Porquê sempre que uma religião se mistura com o estado, o resultado costuma ser trágico.

De Benedictum XVI espero que mantenha sua igreja e seus pastores à distância dos governos. Que não se intrometa, como seu antecessor, em questões como a pesquisa com células-tronco, o uso de camisinhas e anticoncepcionais, a legislação sobre o aborto. Não é com proibições canônicas, com discursos e pregações do púlpito, com radicalismo exacerbado que as pessoas evoluirão. Mais importante que isso, é a Igreja voltar a trabalhar para que o ser humano volte a ter a velha e boa consciência do bem e do mal, do certo e do errado. Pregar e praticar para que valores éticos voltem a ocupar corações e mentes hoje vazios.

Bom trabalho.

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quarta-feira, abril 13, 2005

Lá vem Itamar! De novo...

Não, eu não gosto do Itamar Franco.

Há quem lhe atribua um grande papel na redemocratização da Terra de Vera Cruz. Não jogo nesse time.

Político meia-boca, parlamentar briguento (por picuinhas intrapartidárias e não por nobres causas populares) e obscuro, por absoluta falta de opções de Fernando Afonso, candidato à Presidência, entrou na chapa no apagar das luzes como candidato a vice.

Fernando Afonso ganhou, Itamar virou vice. Pra quem é já tava bom demais. Complicou quando o presidente renunciou por força de suas maquinações financeiras de campanha. Após sua renúncia, sofreu processo de impeachment. Com razão ou sem razão, ele renunciou antes da votação. Pelo certo, a lei e os costumes deveriam ser seguidos e ele não deveria ter sido impichado. Mas nisso, remo contra a corrente que une da direita e os donos dos grandes capitais às extremas esquerdas diversas. Sempre que ocorre essa conjunção na história eu fico com meu pé atrás. Enfim...

Itamar, para mim, ficou marcado pela aceitação forçada de Fernando Henrique como ministro da Fazenda, responsável pela criação do Real, e pela imagem lamentável e humilhante dele, em um desfile de Carnaval no Rio de Janeiro, ao lado de uma moça sem calcinha, com suas “vergonhas” (como disse Caminha em sua carta a El Rey Dom Manuel) expostas ás lentes dos fotógrafos e aos olhares de todos quantos, em todo o planeta, deram-se ao trabalho de passar os olhos pelos jornais e revistas e noticiários televisivos.

Ao longo desses anos, Itamar foi paparicado por Fernando Henrique. Ganhou sinecuras em Washington e Lisboa. Aborreceu a todos, desde o presidente até leitores de jornais, como eu. Cansou, com suas reclamações, seu nada fazer em parte alguma, exceto fomentar futricas e nhenhenhéns. Mandado para Roma como embaixador (ah... por que cargas d’água eu deixei a política?) da república tupiniquim, chegou ao cúmulo de desagradar ao governo italiano por... nada fazer, a nada comparecer. Uma figura invisível no círculo de seus afazeres. A mesma coisa, por sinal, que já ocorrera quando de sua passagem por Lisboa.

Hoje, essa figura de triste presença, teve o dom de quase estragar a digestão do meu café-da-manhã. Peguei o jornal e lá estava ele, estampado na primeira página, entrando numa bela Mercedes, sem gravata, um lacaio a segurar-lhe um guarda-chuva. A matéria do jornal diz-nos que ele ganha 12,000.00 (doze mil, isso mesmo) dólares por mês. Tem limusine com motorista, três arrumadeiras, dois cozinheiros, três copeiros e uma lavadeira. Por ser ex-presidente, tem direito a mais oito serviçais, todos devidamente pagos pelos escorchados contribuintes tupiniquins. A matéria não diz, mas, com certeza, Itamar recebe, também, seus proventos como ex-presidente. Sem falar de aposentadorias como ex-deputado, ex-senador, etc e tal. Como de praxe, como de praxe. Em dois dessa semana, o embaixador recebeu um político de seu estado natal e um jornalista brasileiro. Não é à toa que o governo italiano cansou-se de sua ausência. E agora o governo (?) Lula terá de repatria-lo. Breve, mais fuxicos e intrigas a agitar o mundinho político em torno de S. Excia., coisa típica daquelas mocinhas e moçoilas de novelas classe B ou C. E nós teremos de atura-lo sabe-se lá por quanto tempo mais. E a pagar regiamente por tudo isso. Haja paciência! Sinceramente, preferia sustentar o Príncipe Charles e sua Camila.

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terça-feira, abril 12, 2005

Flores para beija-flores


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Esta é a flor da grevília anã, um arbusto que chega a 3 m de altura. Os beija-flores são loucos por ela. Lentamente, nosso objetivo é ter o jardim formado, basicamente, por plantas cujas flores alimentem os beija-flores.

Além dela, temos o camarão, nome feio para uma flor tão bonita, russélia, diadema mini-hibisco e outras. A vantagem das flores é que os beija-flores não ficam dependentes de humanos enchendo garrafinhas com água e açúcar ou dextrose (melhor que o açúcar, pois não permite o eventual desenvolvimento de fungos que podem ser fatais para as aves).

Nesse final de semana, observei 3 diferentes espécies visitando as flores na mesma tarde.

segunda-feira, abril 11, 2005

O fim dos pardais

(Alto lá, pode parecer mas não é. Esse não é um texto ecocida.) :o)


Nos últimos dois anos ir para o sítio tornou-se uma fonte de desprazer antecipado e desprazer profundo na chegada. Nunca comentei a respeito, anteriormente, e nem sei por qual razão. Confesso que muitas vezes estive tentado a escrever um pedido de socorro e divulga-lo na net. Contive-me. Algo a ver com um certo pudor em ficar pedindo ajuda, o que quase me levou à morte em janeiro de 2000, nas águas ressacadas da Paúba, mas essa é uma outra história. A testemunhá-la, além dos humanos presentes, os pés de jambolão do sítio.

Mas, afinal, o que seria tão grave para provocar essa coisa impensável, o desprazer em ir para o sítio?

Pardais.

Sim, sim, sim, os “bunitinhos”, fofinhos, alegrinhos e briguentos pardais. Os próprios. Consta que esses bichinhos foram importados pelo então prefeito da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, Capital da República, nos idos de 1904. Consta, também, que S. Excia. queria, com eles, embelezar as avenidas e recantos do Rio com um pássaro mais “civilizado”, que o lembrasse de Paris, Lisboa e arredores.

A bem da verdade parece que não foi só o prefeito carioca que os importou. O que interessa é que, tal como o eucalipto, a abelha africana, o lírio-do-brejo, o caramujo africano e outras espécies, o pardal foi um imigrante que se deu muito bem por aqui. Cresceu e multiplicou-adoidadamente. Sou testemunha disso.

Nossa cozinha não tem forro. Já tivemos alguns hóspedes nela, inclusive uma simpática família de morcegos, cujo único incômodo era bater boca na hora do jogo. Imperdoável. Mas bastava um berro e calavam-se. Bichos comportados. Mas não devem ter gostado dos meus modos, pois logo mudaram-se. Foi quando o primeiro casal de pardais chegou. Montaram ninho, e era um cocozinho aqui, outro acolá. Chilreavam de manhã cedo, mas nada demais. Criaram. Devem ter feito boa propaganda do condomínio, bico a bico, que é a melhor propaganda que existe, todo mundo sabe disso, menos o governo Lula que continua gastando perto de um bilhão em peças laudatórias.

Bom, ao primeiro casal seguiram-se outros. Muitos e muitos outros. De repente, o ato delicioso de abrir a porta e entrar em casa transformou-se num tormento. Era abrir, entrar e ver a cozinha imunda. Fezes, gravetos, folhas de capim, penas... E acho que até piolhos em certa época.

Tudo tinha de ficar protegido. Graças à fumaça e ao calor do fogão a lenha, eles mantiveram-se longe dele, justamente onde a comida é feita. E por algum motivo insuspeito, só nos últimos tempos um casal fez o ninho sobre a mesa de refeições.

Soluções? Procuramos mas não achamos nada aceitável. Veneno, obviamente, nem pensar. Repelente? Uma tinta ou verniz caro pra burro, com instruções pra isso e aquilo e repetir e coisa e tal. E cara, ainda por cima. E, é óbvio, sem garantia. O único jeito seria forrar a cozinha, coisa, aliás, em nosso planejamento para dia incerto e não sabido mas com certeza futuro. Sim, pois isso tem um custo meio alto e, no momento, as vacas consomem o que podem e o que não podem. Mas um dia darão retorno. (Sim, eu acredito.)

E seguimos nesse ramerrão. Até que um visitante, um rapaz que trabalha com os tios da minha mulher, disse que o jeito era botar uns barbantes no beiral.

De imediato não acreditei, afinal, o que tem de história desse tipo é brincadeira. Uma delas, meio boba e hilariante, é cercar o quiosque do churrasco com sacos plásticos cheios d’água para espantar as moscas. Hehehehehe... Sem comentários. Meu sogro tentou, deu com os burros n’água. Mas de algum recanto escondido da memória veio um fiapo de informação perdida, algo como fitas plásticas, coloridas, que espantavam certas aves não sei onde.

Enquanto eu pensava e procurava por recônditos da memória, nosso visitante pediu escada e barbante e foi pro teto. Em minutos cercou a cozinha com barbante esticado e dele, pendentes, alguns pedaços do mesmo barbante balançando.


A tecnologia consiste toda no amarrio desses fios que ficam balançando e espantam os pardais
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Bom, hoje voltou a ser um prazer enorme abrir a porta e entrar na cozinha limpa, tirando um pouco de pó e, a partir de agora, a fuligem da queima dos canaviais espalhados por toda a região. Mas isso tudo é café pequeno e em nada aborrece. O barbante esticado e os pedaços pendentes, baloiçantes, espantaram todos os pardais. E, melhor ainda, espantou-os, também, das varandas. Esse resultado já conta com cerca de dois meses ou pouco mais. Privados de seu ponto favorito para aninhar, parece-me que os pardais migraram para outras vizinhanças. Já se foram tarde. Impressionante. Portanto, aqui está um modelito supimpa da melhor, mais eficiente e mais barata tecnologia caseira que existe. E, ainda por cima, absolutamente limpa.

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sexta-feira, abril 08, 2005

Procissão

Procissão


O som da cantoria entrou alto e forte pela janela de meu quarto, no primeiro e único andar do hotelzinho simples. Pensei que fosse de algum rádio ou cd player de um vizinho de quarto. Ou alguém sentado na frente do hotel.

Aproximei-me da janela e puxei a cortina escura, que deixava o quarto numa penumbra gostosa, combinando com o necessário ar condicionado ligado. Fui surpreendido pela visão de uma procissão a poucos metros de distância. À primeira vista cheguei a pensar que fosse outra coisa, que fosse uma manifestação. Antigamente, uns caras desfilavam pelas ruas de paletó e gravata, cabelos curtos, estandartes vermelhos, gritando em megafones. Tempos passados. Aqui, os fronteiros estavam de manta vermelha e alguns deles carregavam estandartes coloridos, com imagens de santos. Aí vieram os padres, vários, muitos padres, com relicários, imagens e também incensários fumegantes. Atrás deles, um poderoso caminhão de som, conhecido, também, como trio elétrico. Coisa de procissão high tech, moderninha e populista. No alto do caminhão, dois cinegrafistas gravando tudo. Logo atrás, compenetrados, devotas e devotos, muitos com velas acesas nas mãos, acompanhando o trio elétrico, quero dizer, a procissão, contritos, rezando sem parar. Crianças correndo em volta algumas, outras presas fortemente pelas mãos e braços às mães e pais, seguindo uma coisa incompreensível e cansativa para elas, adquirindo pouco a pouco, e aumentando a cada apertão no braço, uma grande ojeriza por tudo que se relacionasse à procissão. Nas crianças, revi-me. E senti de novo a canseira, a chatice, a obrigação, o não-entendimento, a vontade louca de correr pra longe de tudo aquilo e ir brincar.

Apesar do ar condicionado obrigatório e necessariamente ligado, abri a janela para poder acompanhar melhor a procissão que se afastou no caminho da igreja. Mais adiante, à frente da longa fila coleante e como se para elas a procissão se dirigisse, as águas barrentas do Amazonas brilhando ao sol do começo da tarde de sábado. Uma gaiola passou rio acima, no rumo de Manaus, e uma chata com madeira serrada de até há pouco orgulhosas árvores amazônicas desceu o grande rio, no caminho do porto de Santarém, talvez Belém, e dali para sabe lá Deus onde.

E eu pelado, no quarto já quase gelado, encostado na janela, escovando os dentes, um pouco de espuma escorrendo pelo canto da boca. Ninguém olhou pra cima, ou, pelo menos, para mim. Felizmente. Os olhares para o alto estavam dirigidos para local incerto e não sabido, tal como a presença de Deus na terra.

Fechei a janela, puxei a cortina de volta, fui pro banheiro enxaguar a boca, coloquei uma roupa e saí pro calorão úmido para ver um pouco mais da vida daquela pequena cidade amazônica.

Como quase sempre, um simples observador. Sem direito e vontade a voz e voto.

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sexta-feira, abril 01, 2005

Uma terra de muitas águas

Rio Mogi-Guaçu pouco antes da ponte velha na
cidade de Porto Ferreira

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Uma terra de muitas águas


Gosto do Brasil. Coisa mais besta essa, né, começar um texto com uma frase assim, boba. Mas é verdade, gosto mesmo. Acho que o que mais gosto por aqui são as muitas águas das quais nos servimos. Outra coisa besta essa. Muitas águas... Lá pros lados do nordeste do país, um grande rio lentamente mingua, breve minguará mais depressa por força dos desejos ensandecidos de alguns que vão levar suas águas para o sertão. E no sul, bom, por lá a coisa andou feia até esses dias, a chuva não vinha, a água se acabava, as lavouras secavam, o gado passava sede e as cidades decretavam-se em emergência. O verde sul estava com cara de nordeste. Teimoso que sou, porém, continuo dizendo: essa é uma terra de muitas águas.

“Águas são muitas, infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.”
Pero Vaz de Caminha, em Carta a El Rey Dom Manuel, em abril de 1500.

Essas foram as reais palavras de Caminha, conforme pode-se ler nas versões fac-similares de sua Carta. Ao falar da terra, do irreal ainda que não incorreto “em se plantando tudo dá”, Caminha, com visão arguta, associa a promessa de maná à abundante presença de água.

Andando por aí afora, por esse mundão todo, tenho visto muita água. De todas, a mais preciosa é a aguinha que corre na parte de baixo do meu sítio. Dito isso por quem ainda há pouco navegava pelo Madeira, pelo Tapajós, de todos o mais bonito, pelo Amazonas incomensurável, sem falar no Paranazão, no Velho Chico, no Araguaia lindo na seca, do Tocantins... Mas é verdadeiro. Inda mais pra quem leu o poeta português. E quem não o leu?

Na matinha que divide o Sítio das Macaúbas das terras de três vizinhos, o Reatto, o Miro e os Gianduzzo, a água mina em abundância em vários pontos. Nas chuvas, cruzar esse território demanda bota de borracha de cano longo. Verdade seja dita, porém, nem há porquê cruzá-lo. Besteira, incomodar a água que nasce quieta pra que? Esses vários olhos-d’água dão origem a um pequeno córrego, que tem no máximo um quilômetro e já deságua no Rio Claro, alguns metros depois da minha divisa (divisa que em futuro incerto, mas que espero breve, será formada pelo próprio Rio Claro). Antes desse final, contudo, um pequeno represamento da água cristalina permite sua retirada pela bomba que a empurra lá pra cima, pro curral, pra horta e pras varandas da sede. Os Gianduzzo também se utilizam dela, mas, por graça da topografia, pra eles ela vai por gravidade. Sorte deles. (É, eu sei, “pra eles ela vai”... Mas foi assim que eu quis escrever e assim escrevi, acho que tem uma certa sonoridade, junto com o “dela” antes e o “deles” adiante.)

O Rio Claro é mais um riacho, um córrego, na Amazônia nem nome teria, pois lá seria insignificante. Mas para nós ele é importante. Inclusive pra cidade de Santa Rita do Passa Quatro. Coisa de 3 ou 4 km rio abaixo, ele é represado. Represa antiga, início do século XX, bonita. Represa de cartão postal, embora mais árvores em suas margens viessem a calhar. Finda essa represa, no degrau de baixo há uma outra, pequenina, e logo em seguida a Cachoeira de São Valentim, onde as águas do Rio Claro despencam 75 metros em queda livre. Não é pouca coisa e é uma queda muito bonita. Lá embaixo, um pouco depois do poço formado pelas águas, a antiga hidrelétrica de São Valentim. O recente risco de apagão e racionamento de eletricidade, provocou alguns estudos que mostraram a plena viabilidade de torna-la operacional novamente. Sua energia,ainda hoje, cobriria boa parte do consumo da cidade e da área rural. Entretanto, lá está ela, desativada e entregue ao olhar dos turistas. Cachoeira abaixo, o Rio Claro percorre uns 9 km talvez, pouco mais, pouco menos, e entrega suas águas ao Mogi Guaçu. Eitcha, rio danado de grande e bonito! (Aqui, né, pois lá pra Amazônia...)

E como esse Mogi tá bonito nesses últimos meses!

Gordo (com o erre bem caipira, redondo, meio longo e italianado ainda por cima, ou seja, paulista até a medula), bonito de se ver, a água saindo do leito e formando lagoas nas margens. Como todo rio deve ser no final das chuvas. Ou como deveria ser, já que o homem tem especial predileção por ocupar as várzeas com casas, lavouras, indústrias e depois, quando as águas reclamam seu chão, se comprazem em chorar e reclamar.

Nessa Páscoa, suas águas sob a ponte “velha” em Porto Ferreira estavam 4 metros acima do nível normal. Há coisa de uns trinta anos, quase quarenta, elas encobriram a ponte, passando, me parece, dos 7 metros acima do nível. Hoje, tal subida é difícil. Há menos água, claro, e mais saídas da água que existe. Mas, se isso ocorrese, muita gente ficaria sem moradias e locais de trabalho.

Há peixes ainda no Mogi. Bem menos hoje que há trinta e poucos anos. Ainda lembro com clareza dessa época. Embora não conhecesse esse rio, acompanhava as notícias sobre as mortandades de peixes. Houve uma, gigantesca, provocada pela descarga de uma grande quantidade de dejetos por uma indústria de papel e celulose colocada rio acima, que marcou época. O que morreu de peixe foi uma barbaridade sem tamanho. A coisa foi tão feia que virou um marco, assim como a poluição do ar em Vila Parisi, em Cubatão. A partir desse crime ambiental a legislação em São Paulo mudou. A fiscalização e a penalização também mudaram. Em conseqüência, apesar do brutal crescimento industrial do estado, e da interiorização das indústrias, poucas foram as notícias nessas décadas de mortes provocadas por dejetos industriais. Já os domésticos... Bom, mas esses são competência dos poderes públicos, logo...

Outro assassino aquático era o vinhoto ou garapão, o resíduo líquido final da produção de açúcar e álcool. Na mesma época, era comum seu despejo nos rios de todo o estado. Desde então, graças ao trabalho da pesquisa e à ação firme da agência responsável, todo o vinhoto passou a ser utilizado na adubação dos próprios canaviais. Bom para as usinas, bom para a cana e fantástico para o ambiente.

Como eu dizia, há peixes ainda no Mogi. Mas poucos e ariscos. Peixes nobres, como dourados e pintados, curimbatás e piaparas, tem pouco, muito pouco. Um vizinho, cujo nome não vem ao caso, aproveita essa cheia. Na vazante, as lagoas marginais secam rapidamente e milhares de peixes se debatem em busca de água e oxigênio. Ele aproveita a situação, captura um bocado deles e traz para a fazenda, soltando-os nos açudes. E aí passa a ter peixe pra pescar por mais 2 a 3 anos, até a próxima grande cheia do Mogi.

Antes de chegar em Porto Ferreira, o Rio das Cobras (mbói’i, em tupi-guarani) passa pela cidade do “Rumor dos Peixes”, ou Pirassununga, também em tupi-guarani. É ali que fica a Cachoeira de Emas, mais um degrau metido a besta que uma cachoeira propriamente dita. É, o Mogi já foi rio de muito peixe, tantos que até barulho faziam!

Nesse veranico de fevereiro, o ataque das cigarrinhas à braquiária dos piquetes me tirou um pouco do eixo e do sério. Acabei arando e gradeando um pedaço de terra. Ah, que raiva sinto agora ao ver aqui e ali pequeninos sulcos feitos pelas chuvas! Felizmente, o solo todo em breve estará coberto e assim permanecerá. Os sulcos não passarão disso, pequenos sinais de incúria e falta de planejamento. Sua ocorrência, por sinal, teve um aspecto positivo: forçou-me a pensar e planejar com mais cuidado o que fazer para alimentar as vacas já a partir de setembro próximo. E o plantio direto voltará a ser praticado no Macaúbas, tal como no começo.

A pequena mina intermitente que nasce na matinha que separa os piquetes dos pomares está com um bom volume de água. Meu sonho é pereniza-la. Quando conseguir, considerar-me-ei um bom agricultor. Mas, sei não, logo logo, com o fim das chuvas, ela também cessará. Mas vamos ver dentro de uns 7 anos.

Iniciei esse escrito pensando em falar do Rio Madeira, do Tapajós, do Araguaia, mas acabei falando do corguinho do sítio, da mina do sítio, do Rio Claro e do Mogizão. Mas é fácil entender o porquê:


“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.”


Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)

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terça-feira, março 29, 2005

Nem tudo são flores

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Há muitas flores no campo nessa época, começo de outono, como as da paineira, por exemplo. Comida é o que não falta para beija-flores e abelhas. Com as chuvas recentes, a paisagem voltou a ficar bonita, verde, brilhante. As noites já estão mais longas um pouco. As galinhas já começaram a diminuir a postura. As vacas têm mais conforto, comem melhor, produzem mais leite. Nem tudo, porém, são flores no campo. Muitos são os espinhos.



Flores de uma jovem paineira no Macaúbas
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Espinhos...

Coisa de mês atrás, 4 bandidos invadiram um sítio. Foram para o poste com o transformador. Desligaram a corrente elétrica e começaram a “trabalhar”, para roubar relógio e fios. O sitiante, um homem de idade já um pouco avançada, estranhou a queda da energia, pegou a lanterna e foi ver se havia caído uma fase ou coisa que o valha. Não chegou ao relógio e ao poste: recebeu um tiro no peito. Gravemente ferido, conseguiu sair do local e caminhou em direção ao vizinho. Este, ouvindo o barulho de algo parecido com um tiro, saiu de sua casa e, a meio caminho, encontrou o homem ferido. Correria. Polícia, ambulância, o circo de praxe foi armado, executado, desarmado. E ficou tudo por isso mesmo. E o sitiante na UTI.

Dias depois, duas denúncias anônimas levaram a polícia aos meliantes, aos vagabundos. Somente um foi preso, morador de um distrito da cidade. Um tal de N (deixemos assim, ok?). Sua prisão foi noticiada. Em sua casa, a polícia apreendeu algumas armas. Entre elas, uma carabina com silenciador. Replay: entre elas, uma carabina com silenciador. Outro sujeito, um tal de M, não foi encontrado. Seu nome foi publicado e ele foi dado como foragido. Entretanto, findo o prazo para flagrante, ele apresentou-se à delegacia. Em sua casa a polícia também havia encontrado armamento. Sua advogada, porém, e também namorada, segundo se comenta, disse em sua defesa que as armas eram propriedade de seu pai. Bem, o tal M não chegou a ser preso.

Comenta-se a boca pequena, e não é de hoje, não, vêm de há muito, muito tempo tais comentários, que essas pessoas estão ligadas a vários, inúmeros roubos. Inclusive de animais que são abatidos e carneados. Tal como foi feito com minha novilha Jersey chamada Gisele, uma PO, registrada, prenhe de 5 meses, tirada do curral e carneada na beira do asfalto. Ao longo desses anos todos, ficou-se apenas nos comentários.

No pequeno e pobre distrito onde mora N, um grupo de 6 ou 7 moradores cotizou-se, juntou algum dinheiro e pagou sua fiança. Ele agora está em liberdade, apesar de possuir em sua casa uma carabina com silenciador.

Em alguns meses haverá um referendo nacional sobre a posse ou não de armas pelos cidadãos. O governo quer que os cidadãos não tenham direito a ter armas em suas casas. Acho muito justo, uma vez que vivemos num país maravilhoso, com forças policiais que primam pela excelência, um país que se destaca pelo seu baixo índice de violência. Coisas de primeiro mundo! Que digo? Coisas de primeiríssimo mundo! É muito justo, portanto, o desarmamento de todos os cidadãos. Vai que um deles mata um meliante dentro de sua casa... Um crime hediondo que deve, a todo custo, ser evitado.

Proponho, para a campanha do desarmamento, que o governo, a igreja (mas o que é que a igreja tem que se meter em assuntos seculares? Vou eu lá dar palpite na sucessão do papa, dos bispos, dos cardeais, e também me imiscuir em suas vidas privadas, que como bem mostram os muitos exemplos de Boston, são tudo, menos puras; combinam bem com privadas), as onguis defensoras dos direitos humanos (todos os bandidos são humanos, todas as vítimas são “aliens”) e largos setores da imprensa, adotem a máxima de Cândido Mariano da Silva Rondon:

“Morrer se preciso for, matar nunca.”

Oras, me poupem!

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O roubo do trator e um roubo maior

A fazenda do Sandro, vista do Sítio das Macaúbas - o prédio branco e comprido é o galpão para frangos em final de montagem. Mais para a direita as duas casas: a sede e a casa para funcionários. Continuando para a direita por cerca de 300 metros, tem o carreador que conduz à estrada.
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O roubo do trator e um roubo maior


A noite recém chegou. Os cachorros latem, apuro o ouvido, um carro se aproxima. Já dá pra ver a luz dos faróis por entre as árvores. Olho pra trás, todos estão atentos, os celulares ligados. Fico no gramado esperando a chegada do visitante imprevisto.

... ... ... x ... ... ...

Sentado à mesa da cozinha, avisto a sede da fazenda do Sandro. Os coqueiros jovens ladeando o carreador da estrada até a sede. A casa dele fica escondida pelas árvores, mas a casa do Gilberto e da Janete, que moram e trabalham lá, é visível. É distância pouca que nos separa, coisa de meros três mil metros, pouco mais ou menos. Mas há vinte dias atrás, num começo de noite de terça-feira, três veículos passaram por entre os coqueiros, logo depois da perua da escola ter pego o Diego, filho do casal.

Despreocupados, o Gilberto e a Janete foram receber os visitantes. A primeira imagem sob a luz do poste em frente à casa, foram as bocas dos revólveres. Além dos motores dos carros, os gritos pra ficarem quietos e não se meterem a besta. Um dos visitantes, que digo, não eram visitantes e sim bandidos, então, um dos bandidos reforçou os gritos com um tiro para o chão. Quem segura uma arma sempre tem vontade de atirar. Uma nova sessão de gritos, agora com o imbecil, o bandido imbecil, que atirou. Coisa de amador que quase apanhou dos parceiros de crime pela tolice.

Vigiado pelos olhos negros e vazios das armas, Gilberto soltou a roçadeira que estava acoplada ao trator novo, bonito, traçado e caro, alvo primeiro e mais importante dos bandidos. O galpão novo para criação de frangos, há pouco terminado, foi visitado. Vinte motores elétricos para usos diversos foram transportados para os carros. Da casa, uma tv nova, 29”, tamanho ideal para o futebol. E uma bomba d’água para poço artesiano. Uma bomba que outros bandidos tentaram roubar no outro sítio, sem conseguir. Mas deixaram que ela despencasse poço abaixo. Recuperada por uma empresa especializada a custo também especializado, foi guardada na sede da fazenda. E roubada.

A cama do casal serviu para mantê-los amarrados. Até onze horas da noite, quando Diego chegou da escola, assustou-se e soltou os pais.

Pouco depois desse horário, enquanto a polícia chegava à fazenda, a cerca de 25 km de distância, a meia-noite chegando, uma viatura da Polícia Ambiental, novo nome da Polícia Florestal, cruzou com um trator numa estrada vicinal. A princípio os policiais passaram direto. Mas, acabaram por achar estranho tal trator a tal hora em tal trecho. Deram meia-volta. Incontinenti, viram o trator parar, o tratorista descer e correr para a mata que margeia a estrada. Sumiu. Era o trator do Sandro.

Enquanto amarravam o casal à cama, os bandidos prometeram voltar para buscar o outro trator. E eles que se comportassem direitinho, pois sabiam de tudo. E sabiam e sabem mesmo! Desde então, enquanto não mudam da fazenda para a cidade, depois que a perua da escola pega o filho eles se escondem no meio da lavoura até onze horas da noite. Puro pavor.

Sexta-feira agora, feriado, cheguei ao sítio e logo fui ouvindo as novas da região. A mais quente é que tinham entrado, novamente, na fazenda do Sandro. Aí, o Gilberto e a Janete saíram correndo e gritando ao celular. Disseram que uns homens desceram de um carro e tinham dado um chute na porta. A polícia acorreu. O Sandro, que tomava uma bebida antes do banho pra relaxar de um dia de trabalho, veio também a toda velocidade. Nesse meio tempo, o casal estava abrigado embaixo da estrada, no meio da água do córrego que passa por um tubulão. Os gritos atraíram a atenção do pai do meu funcionário, que mora ali perto. Ao chegar, viu marido e mulher encharcados por inteiro, ela apavorada e chorando. Quadro triste.

Eu mesmo achei tudo muito estranho para ser um novo roubo. O Sandro e a polícia pensaram do mesmo jeito. No sábado, o mistério desfez-se: o mesmo carro chegou à sede, com um casal a bordo. Tinham ido lá procurar emprego, justamente a vaga que será aberta com a saída do Gilberto e da Janete. Não viram ninguém, a porta da casa estava aberta, acharam estranho e foram embora. O “chute” na porte era apenas o barulho da porta velha do carro velho sendo batida com força pra fechar direito.

... ... ... x ... ... ...

A luz dos faróis aumentou, em segundos já daria para ver o carro. Não adianta, há sempre um momento de tensão, há sempre uma descarga de adrenalina, há sempre um friozinho na barriga. Finalmente, o carro surgiu ao lado do bezerreiro, sob a paineira. Uma pickup... ah, era o Sandro. Relaxamos, os celulares voltam aos seus locais habituais, esperando por chamadas, se possível nunca usados para pedir socorro.

Conversamos rapidamente, ele estava a caminho da sede onde iria passar a noite, tal como vem fazendo desde o roubo. Nesses dias, com o feriado da Páscoa, sua família e um casal de amigos estavam juntos. De onde estávamos, minutos depois, avistamos os faróis da pickup entrando no carreador da fazenda.

Um pouco mais tarde fomos para lá, conversamos, falamos mal dos governos, dos bandidos, dos políticos – dizem que há diferenças entre essas categorias. Bom, dizem que há, eu mesmo não afirmo mais nada. O filho do Sandro e da Lu está enorme e já vai fazer um ano. O preço da soja está uma caca, talvez melhore, talvez não. O Sandro tem uma área de cana que pôs à minha disposição, mas a cana está nova, com pouca sacarose e não poderei usar. Pena, ele vai ter de passar o trator para plantar um novo talhão de laranja. Finalmente, uma fantástica lua cheia, a paisagem bonita toda prateada, a vista alcançando longe.

Nada disso foi assunto nessa noite. Tudo isso, e mais a paz de espírito dos trabalhadores, foi-nos roubado pelos ladrões. Um roubo pior que o trator, é o que eu penso.

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segunda-feira, março 28, 2005

Fim de tarde


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Domingo de Páscoa, final de tarde. A ordenha acabou, as vacas comeram, agora estão soltas no pasto. O sol vai sumir em poucos minutos. O céu parece com o céu daqueles cartões postais cheios de cores, flamejantes. A foto não captou todos os raios dourados que avançam sobre as nuvens escuras. É um céu bíblico.

Olhando a foto, penso que uma sinfonia faria a trilha sonora adequada, uma grande sinfonia, majestosa, grandiloquente. Bobagem, não é preciso tanto, o canto dos passarinhos foi suficiente.

A vida na roça tem seus momentos preciosos. E esse foi apenas uma introdução para mais uma noite prateada pela lua cheia.

sexta-feira, março 25, 2005

Boa Páscoa!


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Essa paineira no sítio fica cada ano mais bonita. Sua floração atingiu o auge dias atrás, final do verão. Em 5, talvez 7 anos, ela dominará a paisagem.

Esses dias foram complicados. Imaginava postar alguma coisa a partir do hotel, no Paraná, mas usar a internet por lá estava difícil. Mesmo com 6 computadores na sala, havia fila para usar. Mal e mal, ou malemá, como dizia vovó e diz ainda uma de minhas tias, dava pra ver emails e notícias.

Muita coisa pra contar, mas fica pra próxima semana. Até lá, boa Páscoa para todos.

sexta-feira, março 18, 2005

Como custa a água

Visões dumas andanças - XI

A água custa... e como custa



Faz tempo já, coisa pra mais de dez anos, talvez mais de doze. Foi um período em que viajei bastante pro sertão baiano, principalmente pra região de Guanambi. Ali é o verdadeiro sul da Bahia, mas deslocado do litoral que todo mundo conhece - ao menos pelos olhos de Gabriela (cravo e canela). Digamos, então, que Guanambi fica no centro-sul, próxima do Rio São Francisco, próxima da divisa com Minas. Terra ora agreste, ora não. Por ali passa o Rio Iuiú e é no seu vale que se plantava muito algodão. Uma enormidade. Hoje, nem tanto.

Em Guanambi fiz uma amiga, locutora da FM local. Pra chegar na emissora era meio complicado: o carro tinha de subir um morro, por estrada de terra e, lá em cima, tinha mais terra e escadas pra escalar, digo, subir. Mas valia a pena. E não era só pela paisagem, mas também pelas conversas, por poder acompanhar a vida numa pequena emissora de rádio do sertão. Foi lá que conheci uma dupla sertaneja local. Não lembro seus nomes, mas deveria, pois fizemos um trabalho muito legal. Criamos um programa de extensão rural, ensinando o pessoal a plantar e, principalmente, a usar corretamente herbicidas e proteger o ambiente. Criação coletiva, envolvendo a dupla, o agrônomo local da empresa, eu mesmo e, às vezes, até a locutora da rádio.

O programa passava os ensinamentos pela música da dupla e pela voz maviosa da locutora. Ao invés do último sucesso de Chitãozinho e Chororó, um lembrete pra nunca deixar de lavar a embalagem vazia do produto e joga-la no lixo especial. Foi um sucesso de público e de crítica. Até um prêmio de propaganda ele conquistou. Como foi entregue em São Paulo, recebi-o sozinho, sem o resto da equipe de criação. Guanambi fica muito longe de São Paulo. Em todos os sentidos.

Um dia fomos visitar uma fazenda. Meio distante, como tudo e como todas. Ali não é terreno de caatinga propriamente dita, mas é um cerradinho enfezado, nervoso, feio e seco. Secura, aliás, é o que mais abunda por ali. Quando chove, planta-se algodão. Na fazenda, moderna, bem administrada, destoando da vizinhança fazendária, andamos por todo lado com o administrador, um jovem técnico agrícola de Barbacena, terra onde há muitos morros, além de muitos tios e primos, pois é terra de boa parte da família do meu pai. Animado, ele mostrava ora uma coisa, ora outra, todas elas modernas, feitas de acordo com os preceitos da mais avançada agricultura empresarial. Assim vimos de tratores a obras para conservação do solo, passando pelo plantio, inédito na região, de árvores nativas para recompor uma matinha ciliar. Até que chegamos a um poço artesiano. Troço mais besta de ver é esse. Não há o que ver, é só um cimentado com um tubo saindo do chão dentro de uma casinha. É o poço. E ele orgulhoso:

“ -Esse é o nosso poço artesiano!” - com direito a exclamação e tudo.

E danou a falar do poço: quantos metros de profundidade, quantos litros d’água por hora, quanto isso, quanto aquilo, finalizando, satisfeito:

- E, na seca, o povo todo da vila vem pegar água aqui.

- Dessa vila aí por onde passamos?

- É, dessa mesma.

- Puxa, mas daqui até lá tem uns seis quilômetros.

- Tem sete, que é conta de mentiroso, mas nesse caso é verdadeira.

- Ué, e não tem poço lá na vila ou ali perto?

- Na vila não tem, não, mas tem numas três ou quatro fazendas ali por perto. Uma delas tá a dois quilômetros da vila, só.

- E por que o pessoal não pega água nessas fazendas?

- Ah, porque os donos não dão, não. Nem uma gota.

- Ô, louco, não dão água pra esse povo na seca?

- Dão nada.

- Mas... não acredito... como não dão? Por que?

- Porque dizem que a água custa. Aí, o pessoal pega as latas e os baldes e vem até aqui pra pegar água, porquê só a gente dá água pra eles.

Sete quilômetros pra chegar no poço. Até hoje rumino essa informação. Sete quilômetros com a lata d’água na cabeça, sob o sol (ia escrever senegalês ou escaldante, mas nem vale a pena) do sertão da Bahia, voltando pra casa.

“Lata d’água na cabeça, que agonia...” (não lembro do autor dessa música e, da letra, só esse verso)

Com certeza, da água chegava só metade, pois em tantos quilômetros ela devia cair uma parte e evaporar outra. Quatorze quilômetros, ida e volta. O que provocava engulhos, e até hoje provoca irritação, é que os negadores da água fizeram os poços com dinheiro subsidiado. Dinheiro do tesouro público. Bom, sobre isso mais não falo, esse é um texto que se pretende sério.

Sem dúvida, esse foi um bom exemplo do comportamento da elite tupiniquim. Curiosamente, uma elite que, na época, não perdia uma missa, como sói acontecer desde os idos de abril de 1500 (estou com preguiça de consultar meu Caminha e ver o dia correto). Nossas elites, as nordestinas em particular e principalmente, sempre foram tementes a Deus e ergueram muitas e belas igrejas. São ótimas para o turismo.

É bonita a região de Guanambi, mais ainda no inverno, com água no solo e nos rios e as plantas verdes, brilhantes. A gente olha para um lado e vê o paredão da chapada. Olha para o outro, pros lados do oeste, e só vê o sertão se alongando pro horizonte. Lá adiante, nesse rumo do vazio, está o Rio São Francisco e a cidade de Carinhanha. Seguindo em frente, a gente chega no espigão que divide o sertão mineiro e o baiano do sertão de Goiás e de Tocantins. É tudo sertão. Grande sertão.

Mais um retrato desse Brasil varonil sob o céu cor de anil, onde a água pode custar um quase nada pra alguns e mais de duas léguas pra muitos outros.

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quinta-feira, março 17, 2005

Vivências no sertão

Visões dumas andanças – X

Vivências no sertão de Pernambuco




Há algum tempo já não vou pros sertões do Nordeste. Outros são os sertões que tenho percorrido nessa Terra de Vera Cruz. Sertões que me são queridos, não há como negar. Cheios de água, cheios de lavouras e pastos, ainda com matas, matinhas, brejos, capoeiras. Sertões de matas e de cerrados, por onde caminho sempre atento a um encontro indesejado com algum de seus moradores rasteiros e venenosos. Sertões onde a visão de um buritizal é sempre um refresco, e não só pros olhos. Olho pra carranca que protege a entrada da minha casa. Bate a saudade e as lembranças se instalam, sem pedir licença nem nada. Simplesmente chegam, se acomodam e me vejo transportado para uma tarde domingueira em pleno Velho Chico.

O convite para o passeio no rio foi irrecusável, era aceitar ou aceitar. Aceitei. Deixamos o hotel e fomos pro Iate Clube ou algo parecido, na margem do Rio São Francisco, o Velho Chico. Não recordo o nome. Entre outras lanchas bonitas e de presença, a de nosso anfitrião logo me chamou a atenção. Bela lancha, faria bonito em Angra, Ubatuba ou Ilhabela. Éramos uns 8 a bordo. Subimos o rio até uma ilha já cercada por outras lanchas, barcos, lanchinhas, canoas e a praia ocupada por vendedores ambulantes, carrinhos, barracas e clientes. Fregueses, combina melhor. O sol do sertão castigava. Em pleno inverno, pelo menos uns trinta graus à sombra. Se sombra tivéssemos. Num caso como esse, diz a prudência e a sabedoria genética preservada de tempos menos tecnológicos, que o jeito é se enfiar dentro d’água e por ali ficar. Assim fazem porcos e búfalos, animais espertos e inteligentes. Não me considero tanto assim, e menos ainda como tal sou considerado, mas fiz o mesmo. Alguma má língua diria que eu parecia um hipopótamo num rio africano qualquer... Pura maledicência, motivada, quem sabe, por pequeno excesso de peso desse digitador.

Aquelas águas vêm de longe. Das montanhas e do planalto mineiro, das veredas do grande sertão que ocupa Minas e Bahia em boa parte, desce do planalto baiano vizinho de Tocantins, onde a soja já impera, dividindo espaço com o algodão e as lavouras sempre verdes de café. Olhando, ninguém diria, mas são águas poucas. Lentamente, ou rapidamente, dependendo do ponto de vista, seu volume vem diminuindo. Lá bem pra baixo, rio abaixo, como as águas doces diminuíram, quem tem subido mais e mais é o mar. Provavelmente, de tanto os bichos-grilos ficarem pelas praias cantando que o sertão vai virar mar e o mar virar sertão, o mar acreditou e está tentando fazer sua parte. E, se acontecer, não será um virar e sim um revirar, pois esse sertão todo já foi mar, é só escavar e encontrar os fósseis.

Almoçamos na ilha. A muito custo deixo a água e me abrigo sob um guarda-sol. Vem peixe, vem pirão, vem mais peixe, mais pirão, arroz, mais pimenta, só não sei bem pra que, acho que pra decorar a mesa, só pode ser. Cerveja não vem, simplesmente parece brotar do nada, por mágica. Ou por geração espontânea, contrariando toda a ciência oficial. E vem gelada, a danada. Não há como resistir. Mas há que resistir, sim, às muitas e belas visões em biquínis sumários, transplantados, só os biquínis, diretamente de Búzios, Guarujá e Ipanema.Em meio aos comes e bebes na beira d’água, nem lembramos que ali é Nordeste. Eitcha, vida boa! E que vai melhorando conforme o sol vai baixando no horizonte.

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Dizem que hoje mudou, está mais seguro. Dizem. Na dúvida, é sempre melhor cruzar de Petrolina pra Recife ou Cabrobó depois que o sol nasce. E chegar ao destino, qualquer que seja, antes do sol se por. Dizem que isso faz um bem danado pra saúde. E também pros bolsos dos viventes viajantes. Aquele território tem donos e não são propriamente amáveis fazendeiros, simplórios campônios ou bem sucedidos empresários de sotaque esquisito.

Saímos cedo, como manda o figurino, em demanda duma fazenda de uva a uns 100 quilômetros de Petrolina. Deixando a cidade, pequena metrópole sertaneja pra trás, tudo que se vê é a caatinga. Meio acinzentada. Muito xique-xique nas beiradas. No meio da caatinga, os pés de mandacaru se destacam. Lembram o menorah judaico (já aportuguesaram pra menorá, com acento e tudo; prefiro o original). Ou, talvez, o menorah é que lembre um mandacaru das vizinhanças do antigo Crescente Fértil. Na tradição judaica, o menorah tem sete braços, é de ouro e cheio de azeite. Por aqui, os braços são três, via de regra (desculpe, Paulo Francis, nunca esqueci que via de regra é outra coisa, mas, por que não usar via de regra uma vez ou outra? que outra chance de rebeldia me resta nesses chatos dias de hoje?), e são cheios de espinhos. Nada sei, nada sabemos de ouro e azeite. Aqui e ali, umas cabras botam as caras pra fora da proteção retorcida e espinhenta e olham a passagem do carro.

A fazenda é um oásis. Difícil descrever. As águas do São Francisco respondem por isso. Bombeadas da margem do rio, vão para um depósito e dali, por meio de grandes aspersores, molham os parreirais. Manchas verdes em meio ao cinza-caatinga. Esse método é muito gastador de água e de energia. Mas, que diabos, no momento tudo que vejo é a beleza das parreiras e dos cachos.

A colheita, em alguns talhões, segue num ritmo intenso. Dezenas de pessoas, a maioria mulheres, caminha na sombra das parreiras com uma tesoura na mão e uma sacola a tiracolo. Os grandes cachos da Red Globe rapidamente ocupam todo o espaço da sacola, forçando a descarga numa caixa. Em poucos minutos passa um trator pequeno, puxando uma carreta. Sobre ela, as caixas de uvas. No dia seguinte estarão todas embaladas e já dentro de um Boeing a caminho da
Europa, ou, talvez, do Japão. E também para os Estados Unidos e Canadá na entressafra californiana.

Escolho um cacho campeão. Deve pesar mais de dois quilos, é perfeito, as uvas estão no ponto certo. Contenho-me. Gravamos de ângulos diversos. Chamo uma das colhedoras, ela vem, corta o pedúnculo e o coloca na sacola. Assim que a câmera é desligada vou até ela e tiro o cacho perfeito de sua sacola. Esse é meu. Enquanto meu pessoal segue gravando outras cenas, encosto num tronco velho, rugoso, e fico ali, comendo uma parte dos mais de dois quilos de uvas e olhando o movimento. Lembro que ontem fomos gravar numa pequena propriedade bem ao pé da Barragem de Sobradinho. O proprietário é um cara novo, ainda. Veio de Brasília. Tem orgulho da escola que ele mesmo construiu na fazendinha. Na maior parte do Brasil e do próprio Nordeste, é uma pequena fazenda, pouco mais que um sítio: cerca de 50 hectares, coisa aí de 20 alqueires. Quase nada mesmo. Mas esse pedaço de terra sustenta o ano inteiro mais de 40 funcionários. Muitos deles já exercem funções mais especializadas, melhor remuneradas. Lentamente, o progresso começa a chegar na caatinga.

A mesma coisa acontece nessa fazenda onde estou. Só que essa é bem maior, muito maior. Em todas as casas, antenas parabólicas. Não há exceção. Sem parabólica a família sertaneja moderna já não sobrevive.

Só depois de acabar com parte do cacho, a parte mais bonita, é que penso que justamente esse cacho iria pra Nova York e eu o tirei da boca da Sarah Jessica Parker, a protagonista de Sex and the City. Como? O que tem a ver uma coisa com a outra? Nada, absolutamente nada. A doçura da uva me fez viajar. A produtora da série que procure outro cacho perfeito. Até porquê a série já saiu do ar, assim como Friends.

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Depois daquele cacho, continuamos gravando. E, ora um, ora outro, o pessoal da fazenda a cada dez, quinze minutos, vinha perguntar se a gente sabia que horas eram. Sim, sabíamos da hora, obrigado. Pelas três e meia ficaram mais insistentes e preocupados. Aí então já não era mais pergunta, era sugestão. Tá na hora de vocês pegarem estrada, hein. Certo, certo, só mais um pouco. Às quatro e meia cheguei à conclusão que, se não fôssemos embora, seríamos hospedados na fazenda. Pouco antes das cinco pegamos estrada, pra grande desasossego do pessoal da fazenda, todo mundo preocupado com nossa segurança. E era sobre isso que ia escrever, até que um perfeito cacho de uva desviou meu pensamento, minhas lembranças e minha escrita.

Estávamos no outrora famoso Polígono da Maconha, por onde não se trafega, ou não se trafegava, durante a noite, a menos que em comboios protegidos pela polícia. Mesmo assim, entretanto, houve casos de assaltos e seqüestros no meio de comboios. Ali, a bandidagem domina, ou dominava. A caatinga é vasta, os caminhos secretos muitos, a polícia pouca, mal remunerada, mal treinada e nem um pouco a fim de ficar protegendo aquele povo atrevido que cruza a estrada fora de hora. Naquelas rodovias federais, mesmo sem cancela e sem porteira, todo mundo sabe que de noite a estrada fecha.

A boca da noite se aproximava. Eu apertava o acelerador do carrinho popular tentando chegar mais depressa em Petrolina. Até que vi o mandacaru.

Já tinha reparado nele logo cedinho, quando passamos. Enorme, imponente, rodeado por um mar de xique-xique e pequenas árvores, quase arbustos, da caatinga. E agora, além de tudo isto, ele ainda estava no contraluz do por-do-sol. Naturalmente, uma imagem imperdível. Sob protestos generalizados, parei o carro.

- Vamos gravar rapidinho, gente, vamos lá. ... Cury, olha que beleza de luz! Aproveita!

- Ô, chefe, tá tarde, nem precisa gravar essa imagem, pô!

- Calma, cara, relaxa, a imagem é bonita. Fabrizio, corre aí com o tripé, monta ali, ó...

Enquanto o pessoal, olhando pros lados, pegava o equipamento, achei uma brecha na verdadeira muralha de xique-xique e entrei na caatinga. Foi a conta de entrar e tomar um susto. E sentir um frio ocupando os espaços da barriga. O chão, de um lado e de outro, estava cheio de latinhas de cerveja. Só de cerveja, e muitas latas, o bastante pra fazer a alegria de um catador por uma semana ou mais. O Cury e o Fabrizio também entraram e viram o mesmo quadro. Nunca vi os dois gravarem alguma coisa com tanta rapidez. E, conferi depois, gravaram certinho, com qualidade. Quando comecei a falar de fazer uma panorâmica, fui cortado:

- Já tá feita.

- Ah, legal. Então, faz um zoom in e um...

- Já fiz, também, chefia. Tá tudo feito: slide, zoom in, zoom out, panorâmica, till...

- Hummmmm...

- Não falta nada, só falta a gente ir embora logo.

- Tá bom, tá bom, vamos embora.

Apesar da pose, eu também estava assustado. Não precisávamos ser experts em nada, bastava olhar: o longo trecho reto de estrada, a caatinga a perder de vista em todas as direções, o alto e imponente mandacaru se destacando na paisagem, o chão coalhadinho de latas de cerveja... Tínhamos parado bem no point, no meeting point da bandidagem. Realmente, era mais que hora de ir embora. E ainda dizem que hoje tá tudo seguro. Sei. Aquele sertão tem donos e não éramos nós, não mesmo.

Em algum momento do dia seguinte, as uvas com destino a Nova York e à boca da Sarah Jssica Parker, passariam por ali. Nova York não sabe nada do que acontece no caminho de seus mimos.

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Pois é, estou com saudades, vontade de voltar a esses sertões onde a caatinga domina e as cabras sobrevivem. Dizem que a estrada não é mais propriedade da bandidagem, mas informações colhidas à boca miúda apontam noutra direção. Parece que nada mudou. Assim como tampouco mudou nas vidas das muitas pessoas da região. O dinheiro continua curto, insuficiente para tudo. E os preços cada vez mais altos, afinal, uma cidade em linha direta com Noviorque e outras mais não pode ser lá muito barata, né? A renda, não a das mulé rendeiras, mas a financeira, mesmo, continua concentrada. E a culpa não é dos empresários e produtores rurais. A maior parte, pelo menos. A culpa é muito mais ampla, é muito antiga, é muito disseminada. Começa no Planalto Central e se espalha por toda a república tupiniquim. Muita coisa mudou por lá, coisas boas. E nada mudou por lá.


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quarta-feira, março 16, 2005

Pelas cercanias do Velho Chico


Visões dumas andanças – IX

Pelas cercanias do Velho Chico


Essa viagem já tem alguns anos. Poucos, em números, muitos, todavia, para minha percepção e vontade. Pudesse, estaria sempre por lá, andando, olhando, sentindo e, talvez, quem sabe, plantando uvas e melões e criando vacas e cabras no meio da caatinga. Porquê, pode não parecer, mas a caatinga fascina.


Petrolina fica em Pernambuco, na margem esquerda do São Francisco. Juazeiro fica em frente, na Bahia. A separa-las, o rio. A uni-las, uma ponte. Embora vizinhas siamesas, são diferentes. E as pessoas são, também, diferentes. O rio separa e une, faz uma história comum, gera o progresso e traz apreensões. Se nem sempre o futuro é muito claro, agora está muito barrento, como as águas do Velho Chico na cheia. A gente olha e nada enxerga. Esse futuro sem nitidez já vinha de longe, com as barragens, com o assoreamento, com o desmatamento, com a extinção de tantos rios sertanejos no planalto baiano e até no mineiro. Com os planos e o próximo início das obras do canal que vai fazer a transposição das águas do São Francisco para os sertões de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Piauí, o que era pouco nítido ficou turvo de vez. O futuro, não se enxerga.

Na estrada, voltando pra Petrolina, nossa guia, uma agrônoma paulistana radicada ali desde que se formou, o que já tem algum tempo, avisou:
Se preparem, porque a gente vai atravessar pra Juazeiro e almoçar na Dona Maria. E vocês vão ficar maravilhados.



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Pela manhã tínhamos rodado um trecho próximo de Petrolina, gravando numa pequena fazenda de uvas pertinho da barragem de Sobradinho. Logo cedo, ao lado mesmo da barragem, subimos num morrote, um daqueles muitos que povoam a caatinga, e lá de cima, entre xique-xiques e mandacarus com espinhos respeitáveis, tivemos uma bela visão da região toda. Aqui e ali o verde intenso dos parreirais irrigados quebrava o acinzentado mirrado da caatinga. Aqui e ali, também, algumas manchas de terra vazia, branca, nada por cima, pura areia. Marcas perigosas que aumentam em número e tamanho. Se estendendo pro horizonte, no rumo do oeste e sudoeste, o grande rio represado. Daquele ponto até o seu início, a represa tem mais de 450 km de extensão. Cobre uma área de 4 mil quilômetros quadrados. Não sei se ainda é o maior reservatório do mundo ou se é o de Três Gargantas, na China. Não importa, parece e é muito grande, e é muita água. Mas, também não é, não. É água pouca e cada vez menos água. Os folhetos turísticos, os sites na internet, os agentes de viagem, todos prometem esportes aquáticos e as emoções da pesca do surubim. Tá certo, os esportes aquáticos são praticados mesmo. Já a pesca do surubim...

Cruzamos a ponte. É bonitona, impressiona de longe. E estamos em Juazeiro. Não sei se o restaurante da Dona Maria ainda existe. O Brasil muda muito depressa, o mundo também e o pior é que as coisas já não mudam como costumavam mudar (obrigado, Camões). Contudo, espero que ele continue como era quando o conheci: um puxado sobre a garagem na frente de uma casa simples num bairro de Juazeiro. Uma mesa comprida, algumas menores, bancos de madeira. A comida é a que Dona Maria faz. E serve. Tal como nos melhores, mais finos e reservados restaurantes de grandes chefs, na França, Espanha e Itália, entre outros lugares menos votados. A comida, geralmente, é surubim. Mas não é o mesmo surubim que conhecemos aqui no Sul ou na Amazônia. É o surubim do São Francisco. Parece igual, mas é diferente. A carne é clara, menos gorda que a dos outros surubins, um quase nada de gordura. Carne bonita, firme, gostosa, realmente saborosa. Carne de peixe de rio, que nada em busca da piabinha de todo dia. A altura do filé é generosa o bastante pra gente enfiar os dentes com vontade, sentir a textura com a boca preenchida como se deve. Desculpem, não é muito fino mas foi assim que comecei a comer em criança, é assim que a gente come no sertão, é assim que dá prazer comer.

O calor do meio do dia é brabo em Juazeiro. Lá fora o ar tremelica todo em toda direção. Lá dentro, sob o puxado, tá quente, também. Mas dá pra agüentar. Um ventilador ajuda. O refrigerante gelado colabora. A cervejinha também. O jeito aqui é quebrar a regra da cerveja só à noite. Mas pouco, nada de quebrar muito. E lá vem feijão-de-corda, vem arroz e vem pirão, vem moqueca de surubim, vem surubim grelhado, vem surubim frito, de todos o meu preferido. Tem pimenta comprida, compridinha e redondinha. Pimenta também pra todo gosto. Nada mais simples, nada mais brasileiro, nada mais gostoso.

Dona Maria vem à nossa mesa. Cumprimenta, pergunta da comida. Com a boca cheia digo que está maravilhosa. Rapaz educado, não paro de comer para dar-lhe atenção. Fazer o contrário, para uma cozinheira, seria prova de má educação. E um indício de que a comida não está boa. Essa racionalização toda nem passou por minha cabeça naquele momento. Impossível. Meu cérebro deslocara-se em peso para o conjunto mãos e boca, e ocupado com o intenso tráfego de garfadas de postas de surubim no trajeto prato/boca, definitivamente não tinha como ocupar-se com respostas e salamaleques. Felizmente, os ouvidos estavam livres, operando em outra sinfonia, e assim pude ouvir e aprender algumas coisas.

A horas tantas, e já sabedor que surubim no Velho Chico hoje era coisa rara, consegui uma pausa no trânsito de postas e perguntei pra Dona Maria se os surubins vinham dali mesmo, da barragem, ou de rio abaixo.

- Nem de um lugar e nem de outro, moço. Surubim pra mim, hoje, vem lá do Piauí, do Parnaíba. A gente anuncia o surubim do São Francisco, mas é o surubim do Parnaíba.

Boca ocupada, meio cheia, disparo a pergunta:

- Mas por que, o que houve?

- Olhe, a barragem foi um problema, depois dela começou a diminuir o número de peixes. E tem a pesca, também, né. É muito povo pescando e mandando peixe pra fora. E por aí afora, rio acima, as pessoas dizem que tem rio secando, a água diminui, a gente não vê mais mata na beira do rio. E não é só o número de peixes, não. É o tamanho, também. Diminuiu tudo, só tem peixinho pequeno, dá até dó. Nem vale a pena fazer a maioria, só frito mesmo.

Felizmente essa conversa já aconteceu no final do almoço. Felizmente, também, meus espaços disponíveis estavam ocupados e não sobrou nadinha pra algum sentimento de culpa. Xô! Minha digestão não foi estragada, tampouco. Tenho, por hábito, sempre dar um desconto em todas as histórias e estórias que ouço em minhas andanças. Desconto variável, pode ser de 10%, pode chegar a 90%. Naquela hora, dei um desconto duns 30% pra gravidade do causo. A passagem do tempo tem me mostrado o quão tolo fui: ao invés de desconto, eu devia mesmo era ter aumentado a gravidade da história ouvida. Até porquê o Parnaíba já começa a ficar super-explorado, também. A sobremesa eu comi durante o prato principal mesmo. E foi simples: apenas um pouco mais do que já estava comendo. Até parece que eu iria trocar mais uma posta de surubim do Parnaíba por um doce qualquer! E com isso, satisfeitos e felizes, deixamos o puxado e enfrentamos o calorão brabo da tarde de Juazeiro, em busca de novos parreirais e plantações de melão e manga.

Em outras viagens andei pelas regiões do Médio e Alto-São Francisco, no sertão baiano de Barreiras, Mimoso – hoje Luiz Eduardo – e Guanambi. E nos sertões mineiros, desde Januária e Porteirinha, passando por Bocaiúva, até os espigões divisores das águas do São Francisco com as águas do Tocantins e do Paranaíba. Pedaços dos grandes sertões roseanos. Por toda parte vi as mesmas cenas: o cerrado substituído pelas lavouras e pelos pastos. Coisa bonita de se ver, sem dúvida. Mas exagerado demais da conta. As veredas espremidas. E muito pivô central molhando muita terra. Do alto, nos sobrevôos, a visão mais clara: os arredondados escuros das áreas de pivôs, formando grandes colares de contas e o cinza-cerrado cada vez menor. Em dois lugares, sem planejamento, apenas de passagem, cruzamos dois cursos d’água secos. Ex-rios. Como eles, muitos outros. Muita gente diz que é culpa dos pivôs centrais e dos poços artesianos, que puxam toda a água e jogam-na sobre o feijão, sobre a cenoura, sobre a soja, sobre o café. Não sei. Não me aprofundei na questão, fiquei só na superfície. E na superfície, tudo que a gente vê é o leito seco de um córrego.

Desde então, exceto por muitos discursos oficiais, nada foi feito em prol do Velho Chico, suas águas e seus surubins. Pena que discurso oficial nada mais produz além de sono ou dor de cabeça. Pena maior é que, dessa vez, os discursos estão indo além das palavras: estão conduzindo para as obras de transposição das águas do São Francisco pros sertões.

Que história estará contando a Dona Maria hoje?

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terça-feira, março 15, 2005

Chuva, seca, Kyoto...

Começava a dormir quando a chuva começou. E veio forte, em rajadas violentas, até um pouco mais longas do que normalmente acontece com as rajadas. O sono foi embora. Liguei a luz de cabeceira e retomei a leitura interrompida pelo sono fujão. Nem mesmo a trama policial numa Boston invernal me prendeu a atenção. A intensidade da chuva passou a me preocupar. Desci, liguei as luzes de fora e verifiquei se não havia nenhum ralo entupido. Preocupação besta, inda mais à uma da manhã, mas ela tem lá suas razões de ser. Sem sinal de água empoçada, sosseguei e voltei pra cama.

Devia estar chovendo também no sítio. Ótimo! O sorgo continua carente de umidade, só espero que não chova desse jeito. Esse é o problema de fazer plantio convencional: a gente torce pela chuva e pela intensidade da chuva. Com o plantio direto a gente só quer a chuva, não se preocupando com sua intensidade, já que a palhada vai proteger o solo.

De todas as calamidades naturais, acho que a seca é a pior. As mais apavorantes, com certeza, são a inundação e a tromba-d’água. São, porém, menos daninhas que a seca. A inundação é localizada, sempre. E boa parte das áreas inundadas existem apenas com essa função: serem inundadas. Pelo menos na natureza. Quando o homem invade tudo, asfalta tudo, constrói em tudo, inclusive nas áreas de inundação, bom, aí já não dá pra ficar reclamando e nem listando inundação como uma coisa terrível. A tromba-d’água é braba, aterroriza a tudo e a todos, mas dura minutos e é, também, localizada.

Então, se os eventos ligados ao excesso d’água aterrorizam, o evento ligado à sua ausência faz sofrer, um pouco a cada dia, e esse pouco vai crescendo, crescendo, crescendo... Deixa de ser pouco e se transforma em muito. Para um agricultor não há nada pior. Nada mais triste. Nada mais destruidor. E a seca nunca é localizada, ah, não... Ela vai longe, toma regiões imensas, entristecendo a natureza a perder de vista. Chega a seca e vai-se o verde, vai-se o frescor, vai-se o perfume e fica o pó, fica a sensação ruim de folhas sem viço que se esfarinham na mão. Vai-se o brilho do pelo das vacas, vai-se a gordura de cobertura e proteção, as costelas assomam, sempre feias, sempre sinalizadoras de carência. É triste para um agricultor olhar as plantas definhando, matando a esperança que toda colheita traz. Muitas vezes não dá sequer para encarar o olhar de uma vaca, de um cavalo. Não cobram, não são disso, mas seus olhares trazem uma tristeza que cala fundo no peito da gente. E a gente impotente contra esse desmando da natureza.
As secas existem desde sempre. Difícil dizer até que ponto a atividade humana realmente está alterando o clima no planeta, intensificando a freqüência e duração dos veranicos. Apesar de toda nossa fantástica capacidade de intervenção sobre ecossistemas diversos, ainda creio que a natureza não se amola muito conosco. Pode ser. Mas, pode ser que não, pode ser que ela já esteja se amolando com nossas perturbações da ordem planetária. Pode ser que a perda da neve no Kilimanjaro e a redução de 15 metros por ano nas geleiras do Himalaia já sejam sinais de alerta para nós. Na dúvida, não ultrapasse, não coloque em risco sua vida. Na dúvida, gostaria que Estados Unidos e China assinassem o Protocolo de Kyoto. Gostaria que americanos e chineses se civilizassem de fato. Nesse momento, tenho-os em conta de selvagens ignorantes do próprio poder e dos estragos que causam.



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Essa foto foi tirada no Rio Grande do Sul. Em pleno planalto, região de belas coxilhas, sempre cobertas pelo verde da soja, do milho, do trigo, da aveia, dos pastos. Mas não agora. O sul do Brasil padece, ainda, sob forte seca. Os prejuízos financeiros se avolumam. A desesperança se instala nos corações e mentes de todos que moram nessa região. A seca é sempre triste. Agora está chovendo em muitas áreas do sul. Tanto que impediu minha viagem, marcada para ontem. Foi bom. O motivo foi justo. E agora, quando eu fizer a viagem e começar a gravar, terei cenas mais bonitas no visor da câmera. Cores mais vivas, frescas, brilhantes. Com a chuva, volta a vida. E volta a esperança.

Finalmente o sono chegou e dormi. A chuva da madrugada agora era chuvinha. Daquelas que embalam o sono. Já não era sem tempo.


No sítio, a chuva noturna foi de 8 milímetros. Ótimo! Chuva boa, sem provocar estragos. O sorgo e o capim agradecem. As vacas agradecem. Eu também agradeço. Não sei bem a que ou a quem, mas essa é uma coisa interessante: ao plantar e criar e ao voltarmos a ser tão dependentes da natureza, sentimos, com freqüência, uma necessidade de agradecer. Qualquer dia escrevo sobre isso.